Metafísica - Livro XI 6
Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física
Refutação de Protágoras: nem tudo o que aparece é verdadeiro
A frase de Protágoras se parece com as opiniões que já mencionamos. Ele dizia que o homem é a medida de todas as coisas, querendo dizer apenas isto: o que parece verdadeiro para cada pessoa também é, com certeza, verdadeiro. Se for assim, segue-se que a mesma coisa ao mesmo tempo é e não é, é ruim e é boa, e que tudo o que se afirma em declarações opostas é igualmente verdadeiro. Pois muitas vezes uma certa coisa parece bela para uns e o oposto de bela para outros, e o que parece a cada um é, segundo Protágoras, a medida.
Essa dificuldade pode ser resolvida quando examinamos de onde vem essa opinião. Ela parece ter surgido, em alguns casos, da doutrina dos filósofos da natureza e, em outros, do simples fato de que nem todos os homens têm as mesmas opiniões sobre as mesmas coisas: uma certa coisa parece agradável para uns e o oposto de agradável para outros.
A tese de que nada vem a existir a partir do que não é, mas tudo vem do que já é, é um princípio aceito por quase todos os filósofos da natureza. Ora, como o branco não pode vir a existir se já existisse antes algo perfeitamente branco e em nenhum aspecto não branco, então aquilo que se torna branco deve vir do que não é branco. Logo (assim argumentam eles), o branco teria de surgir do que não é, a menos que a mesma coisa já fosse, desde o início, branca e não branca ao mesmo tempo.
Mas não é difícil resolver essa dificuldade, pois já explicamos, em nossos escritos sobre a física, em que sentido as coisas que vêm a existir surgem a partir do que não é, e em que sentido surgem a partir do que é.
Dar igual atenção às opiniões e às fantasias de partes que discordam é infantil, pois é claro que uma delas tem de estar errada. Isso fica evidente pelo que acontece na percepção dos sentidos: a mesma coisa nunca parece doce para uns e o oposto de doce para outros, a não ser quando, em um dos casos, o órgão do sentido que distingue esses sabores está corrompido ou danificado. E se é assim, uma das partes deve ser tomada como a medida, e a outra não.
O mesmo vale para o bom e o ruim, o belo e o feio, e todas as outras qualidades desse tipo. Sustentar a posição que estamos combatendo é como afirmar o seguinte: para quem põe um dedo embaixo do olho e faz um objeto parecer dois em vez de um, esse objeto teria mesmo de ser dois (porque parece ter esse número), e ao mesmo tempo seria um (já que para quem não mexe no próprio olho o objeto único aparece como um só).
De modo geral, é absurdo tomar como base do nosso julgamento sobre a verdade o fato de que as coisas deste mundo terrestre mudam o tempo todo e nunca permanecem no mesmo estado. Para buscar a verdade, é preciso partir das coisas que estão sempre no mesmo estado e não sofrem mudança alguma. Assim são os corpos celestes: eles não aparecem ora com uma natureza, ora com outra, mas se mostram sempre os mesmos e não participam de nenhuma mudança.
Além disso, se existe movimento, existe também algo que se move, e tudo o que se move vai de algo para algo. Segue-se que aquilo que se move deve, primeiro, estar no ponto de onde vai sair, depois deixar de estar nele, mover-se para o outro ponto e passar a estar nele. E segue-se que afirmações contraditórias não são verdadeiras ao mesmo tempo, ao contrário do que esses pensadores sustentam.
E se as coisas deste mundo fluem e se movem continuamente quanto à quantidade (suponhamos que seja assim, embora não seja verdade), por que não permaneceriam as mesmas quanto à qualidade? Pois a afirmação de declarações contraditórias sobre a mesma coisa parece ter nascido, em grande parte, da crença de que a quantidade dos corpos não permanece fixa, o que, segundo nossos adversários, os autorizaria a dizer que a mesma coisa ao mesmo tempo tem e não tem quatro côvados de comprimento. Mas a essência de algo depende da qualidade, e a qualidade tem natureza determinada, ao passo que a quantidade é indeterminada.
Além disso, quando o médico manda as pessoas comerem um certo alimento, por que elas o comem? Em que sentido seria mais verdadeiro dizer isto é pão do que isto não é pão? Se as duas coisas fossem igualmente verdadeiras, daria no mesmo comer ou não comer. Mas, de fato, elas comem o alimento receitado supondo que sabem a verdade sobre ele e que aquilo é pão. E não deveriam fazer isso se não houvesse nenhuma natureza fixa e constante nas coisas perceptíveis, se todas as naturezas estivessem para sempre em movimento e fluindo.
De novo, se estamos sempre mudando e nunca permanecemos os mesmos, que espanto há em que as coisas nunca nos pareçam iguais, assim como acontece com os doentes? Pois também para eles, por não estarem na mesma condição de quando estavam saudáveis, as qualidades perceptíveis não parecem as mesmas. Ainda assim, as próprias coisas perceptíveis não precisam participar de mudança alguma, embora produzam nos doentes sensações diferentes, e não idênticas. E o mesmo deve acontecer com os saudáveis, caso ocorra a mudança mencionada. Mas, se não mudamos e permanecemos os mesmos, então existe algo que permanece.
Quanto àqueles que chegam a essas dificuldades por meio do raciocínio, não é fácil resolver suas dúvidas de modo a satisfazê-los, a menos que aceitem assumir algum ponto de partida e não exijam mais uma razão para ele. É só assim que todo raciocínio e toda demonstração se realizam, pois se eles não assumem nada, destroem a possibilidade de discutir e de raciocinar. Com homens assim, portanto, não há discussão possível. Já quanto àqueles que ficam confusos por causa das dificuldades herdadas da tradição, é fácil respondê-los e dissipar as causas da confusão. Isso fica claro pelo que já foi dito.
Fica evidente, portanto, por esses argumentos, que afirmações contraditórias não podem ser feitas com verdade sobre o mesmo sujeito ao mesmo tempo, nem podem ser feitas afirmações contrárias, porque toda oposição entre contrários depende de uma privação. Isso fica claro quando reduzimos as definições dos contrários ao seu princípio.
Do mesmo modo, nenhum termo intermediário entre contrários pode ser atribuído a um mesmo sujeito do qual já se atribui um dos contrários. Se o sujeito é branco, erramos ao dizer que ele não é nem preto nem branco, pois daí se segue que ele é e não é branco. O segundo dos dois termos que juntamos é verdadeiro a respeito dele, e esse termo é justamente o contraditório de branco.
Não estaríamos certos, então, em aceitar as opiniões de Heráclito nem as de Anaxágoras. Se as aceitássemos, seguir-se-ia que contrários seriam atribuídos ao mesmo sujeito. Pois quando Anaxágoras diz que em tudo há uma parte de tudo, ele afirma que nada é mais doce do que amargo, e o mesmo para qualquer outro par de contrários, já que em tudo estaria presente tudo, não apenas como potência, mas de modo atual e separado. Do mesmo modo, nem todas as afirmações podem ser falsas nem todas verdadeiras. Isso vale por muitas outras dificuldades que se poderiam levantar contra essa posição, e também porque, se todas fossem falsas, não seria verdadeiro afirmar nem mesmo isso, e se todas fossem verdadeiras, não seria falso dizer que todas são falsas.