Metafísica - Livro XI 12

Livro XI (Kappa): retomada resumida dos livros sobre o ser e de temas da Física

Os tipos de movimento e os conceitos de contato, sucessão e continuidade

Se classificarmos as categorias em substância, qualidade, lugar, agir ou sofrer a ação, relação e quantidade, então existem três tipos de movimento: o de qualidade, o de quantidade e o de lugar.
Não movimento na categoria da substância, porque não existe nada que seja contrário à substância. Também não movimento na categoria da relação, pois pode acontecer que, quando uma de duas coisas relacionadas muda, o termo relativo que valia para a outra deixe de valer, sem que essa outra coisa tenha mudado em nada. Por isso o movimento delas é apenas acidental. E não movimento na categoria do agente e do paciente, ou seja, daquilo que move e daquilo que é movido.
Não existe movimento de movimento, nem geração de geração, nem, de modo geral, mudança de mudança. Haveria movimento de movimento em dois sentidos. No primeiro, o próprio movimento seria aquilo que é movido, do mesmo modo que um homem é movido porque muda de pálido para moreno. Nesse caso, o movimento também poderia ser aquecido, ou resfriado, ou mudar de lugar, ou crescer. Mas isso é impossível, pois a mudança não é uma coisa que esteja por baixo sustentando propriedades.
No segundo sentido, alguma outra coisa mudaria de uma mudança para outra forma de existência, como um homem que passa da doença para a saúde. Mas isso também é possível por acidente, pois todo movimento é mudança de algo para algo. O mesmo vale para a geração e a destruição, com a diferença de que estas são mudanças entre coisas opostas de um certo modo, enquanto o movimento é uma mudança entre coisas opostas de outro modo.
Uma coisa muda, então, ao mesmo tempo da saúde para a doença e dessa própria mudança para outra mudança. Fica claro que, se ela adoeceu, terá mudado para qualquer que seja a outra mudança em questão, ainda que pudesse estar em repouso, e mudará a cada vez para uma mudança determinada. E essa nova mudança iria de algo definido para outra coisa definida. Seria, portanto, a mudança oposta, a de recuperar a saúde.
Respondemos que isso acontece por acidente. Por exemplo, uma passagem do processo de lembrar para o de esquecer apenas porque aquilo a que o processo pertence vai mudando, ora para um estado de conhecimento, ora para um estado de ignorância.
Além disso, o processo iria ao infinito, se houvesse mudança de mudança e vir a ser de vir a ser. O que vale para o estágio posterior tem de valer também para o anterior. Por exemplo, se o simples vir a ser uma vez veio a ser, então aquilo que vem a ser alguma coisa também uma vez veio a ser. Logo, aquilo que simplesmente vem a ser alguma coisa ainda não existia, mas existia algo que vinha a ser o processo de vir a ser alguma coisa. E isso por sua vez uma vez veio a ser, de modo que naquele momento ainda não vinha a ser outra coisa.
Ora, em uma série infinita de termos não existe um primeiro. Logo, o primeiro desta série não existirá, e por isso nenhum termo seguinte existirá. Nada, então, poderia vir a ser, nem se mover, nem mudar.
Além disso, aquilo que é capaz de um movimento também é capaz do movimento contrário e do repouso, e aquilo que vem a ser também deixa de ser. Portanto, aquilo que vem a ser está deixando de ser quando veio a ser o processo de vir a ser. Pois não pode deixar de ser logo que começa a vir a ser o vir a ser, nem depois de ter vindo a ser, que aquilo que está deixando de ser tem de existir.
Além disso, tem de haver uma matéria por baixo daquilo que vem a ser e que muda. Qual seria ela, então? O que é aquilo que se torna o movimento ou o vir a ser, do mesmo modo que o corpo ou a alma é aquilo que sofre a alteração? E, de novo, para o que eles se movem? Pois teria de ser o movimento ou o vir a ser de algo, a partir de algo, em direção a algo. Como, então, essa condição poderia ser cumprida? Não pode haver aprendizado do aprendizado, e portanto não vir a ser do vir a ser.
que não movimento nem da substância, nem da relação, nem do agir e do sofrer a ação, resta que o movimento ocorre na qualidade, na quantidade e no lugar, pois cada uma dessas categorias admite contrariedade. Por qualidade não quero dizer aquilo que está na substância, pois até mesmo a diferença que distingue uma espécie é uma qualidade, mas sim a qualidade passiva, em virtude da qual se diz que uma coisa sofre uma ação ou é incapaz de sofrê-la.
O imóvel é uma destas três coisas: aquilo que é totalmente incapaz de ser movido, ou aquilo que se move com dificuldade ao longo de muito tempo ou que começa a se mover lentamente, ou aquilo que por natureza poderia ser movido e pode ser movido, mas não é movido quando, onde e como naturalmente o seria. a este último, entre os imóveis, eu chamo de estar em repouso. Pois o repouso é contrário ao movimento, de modo que tem de ser uma privação naquilo que é capaz de receber movimento.
As coisas que estão em um único lugar imediato estão juntas no lugar, e as que estão em lugares diferentes estão separadas. As coisas cujas extremidades estão juntas se tocam. Aquilo a que uma coisa que muda, ao mudar de modo contínuo segundo a sua natureza, naturalmente chega antes de chegar ao extremo para o qual está mudando, é o que está entre os dois. Aquilo que é mais distante em linha reta é o contrário no lugar.
É sucessivo aquilo que vem depois do começo, com a ordem determinada pela posição, pela forma ou de algum outro modo, e que não tem nada da mesma classe entre ele e aquilo a que sucede. Por exemplo, linhas no caso de uma linha, unidades no caso de uma unidade, ou uma casa no caso de uma casa. Nada impede que uma coisa de outra classe esteja entre eles. Pois o sucessivo sucede a algo e é algo posterior. O número um não sucede ao número dois, nem o primeiro dia do mês sucede ao segundo.
Aquilo que, sendo sucessivo, se toca, é contíguo. E que toda mudança ocorre entre opostos, e estes são ou contrários ou contraditórios, e não termo intermediário entre contraditórios, fica claro que aquilo que está no meio está entre contrários.
O contínuo é uma espécie do contíguo. Chamo duas coisas de contínuas quando os limites de cada uma, pelos quais elas se tocam e pelos quais são mantidas juntas, se tornam um e o mesmo. Por isso fica claro que o contínuo se encontra nas coisas a partir das quais naturalmente surge uma unidade graças ao contato delas.
Fica claro também que o sucessivo é o primeiro destes conceitos. Pois o sucessivo não necessariamente se toca, mas aquilo que se toca é sucessivo. E se uma coisa é contínua, ela se toca, mas se ela se toca, não é necessariamente contínua. E nas coisas em que não contato, não unidade orgânica. Portanto, um ponto não é o mesmo que uma unidade, pois o contato pertence aos pontos, mas não às unidades, que têm sucessão. E algo entre dois pontos, mas não nada entre duas unidades.