Ética a Nicômaco - Livro III 10

Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança

Com quais prazeres a temperança se ocupa: os sentidos do tato e do paladar

Depois da coragem, vamos falar da temperança, pois essas parecem ser as virtudes das partes irracionais da alma.
dissemos que a temperança é um meio-termo no que diz respeito aos prazeres (ela tem menos a ver com as dores, e de modo diferente). A falta de autocontrole se manifesta no mesmo campo. Vamos agora determinar com que tipo de prazeres ambas se ocupam.
Podemos partir da distinção entre os prazeres do corpo e os prazeres da alma, como o amor à honra e o amor ao aprender. Quem ama cada uma dessas coisas se deleita naquilo que ama, sem que o corpo seja afetado de modo algum, e sim a mente. Mas as pessoas que se ocupam desses prazeres não são chamadas nem de temperantes nem de descontroladas.
O mesmo vale para quem se ocupa de outros prazeres que não são corporais. Quem gosta de ouvir e contar histórias e passa os dias com qualquer coisa que apareça é chamado de tagarela, mas não de descontrolado, assim como não o são os que sofrem com a perda de dinheiro ou de amigos.
A temperança tem que estar ligada aos prazeres do corpo, mas nem a todos eles. Quem se deleita com o que vê, como cores, formas e pintura, não é chamado nem de temperante nem de descontrolado, ainda que pareça possível se deleitar com essas coisas do jeito certo, ou em excesso, ou de modo insuficiente.
E o mesmo acontece com o que se ouve. Ninguém chama de descontrolado quem se deleita demais com música ou teatro, nem chama de temperante quem o faz na medida certa.
Também não usamos esses nomes para quem se deleita com cheiros, a não ser de modo indireto. Não chamamos de descontrolado quem gosta do cheiro de maçãs, rosas ou incenso, e sim quem gosta do cheiro de perfumes ou de pratos requintados, pois as pessoas descontroladas se deleitam com esses cheiros porque eles lhes lembram os objetos do seu apetite.
pra ver até outras pessoas, quando estão com fome, se deleitando com o cheiro de comida. Mas se deleitar com esse tipo de coisa é a marca da pessoa descontrolada, pois para ela esses cheiros são objetos de apetite.
Nos outros animais, fora o homem, não nenhum prazer ligado a esses sentidos, a não ser de modo indireto. Os cães não se deleitam com o cheiro das lebres, e sim em comê-las, mas o cheiro lhes avisou que as lebres estavam ali. O leão não se deleita com o mugido do boi, e sim em comê-lo, mas percebeu pelo mugido que ele estava perto, e por isso parece se deleitar com o mugido. Do mesmo modo, ele não se deleita por ver um cervo ou uma cabra selvagem, e sim porque vai fazer uma refeição dele.
A temperança e a falta de autocontrole, no entanto, têm a ver com o tipo de prazeres de que os outros animais também participam, e que por isso parecem próprios de escravos e de bestas. Esses prazeres são os do tato e os do paladar.
Mas mesmo do paladar elas parecem fazer pouco ou nenhum uso, pois a tarefa do paladar é distinguir sabores, o que é feito pelos provadores de vinho e por quem tempera os pratos. Essas pessoas dificilmente sentem prazer em fazer essas distinções, ou pelo menos as descontroladas não sentem. O prazer delas está no gozo em si, que em todos os casos vem pelo tato, tanto na comida quanto na bebida e na relação sexual.
É por isso que um certo glutão rezou para que a sua garganta ficasse mais comprida que a de um grou, o que a entender que era do contato que ele tirava prazer.
Assim, o sentido ligado à falta de autocontrole é o mais compartilhado de todos os sentidos, e parece justo que essa falta seja motivo de reprovação, porque ela nos pertence não como homens, mas como animais. Se deleitar com tais coisas, então, e amá-las acima de todas as outras, é próprio das bestas.
Pois mesmo entre os prazeres do tato foram eliminados os mais nobres, como os produzidos no ginásio pela fricção e pelo calor que vem dela. O contato típico da pessoa descontrolada não afeta o corpo todo, e sim apenas certas partes.