Ética a Nicômaco - Livro III 5
Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança
A virtude e o vício estão em nosso poder
O fim é aquilo que desejamos, e os meios são aquilo sobre o que deliberamos e que escolhemos. Logo, as ações ligadas aos meios são feitas por escolha e são voluntárias. Ora, o exercício das virtudes tem a ver com esses meios. Portanto a virtude também está em nosso poder, e o vício também. Pois onde está em nosso poder agir, está igualmente em nosso poder não agir, e vice-versa. Assim, se agir é nobre e está em nosso poder, então deixar de agir, que seria vil, também está em nosso poder. E se deixar de agir é nobre e está em nosso poder, então agir, que seria vil, também está em nosso poder. Ora, se está em nosso poder praticar atos nobres ou vis, e igualmente em nosso poder não praticá-los, e era nisso que consistia ser bom ou mau, então está em nosso poder ser virtuosos ou viciosos.
O dito de que 'ninguém é mau por vontade própria nem feliz contra a vontade' parece ser em parte falso e em parte verdadeiro. De fato, ninguém é feliz contra a vontade, mas a maldade é voluntária. Caso contrário, teríamos que contestar o que acabamos de dizer e negar que o ser humano seja a origem e o gerador de suas ações, assim como é dos próprios filhos. Mas se esses fatos são evidentes e não podemos atribuir nossas ações a outras origens que não estejam em nós mesmos, então os atos cuja origem está em nós também devem estar em nosso poder e ser voluntários.
Isso parece ser confirmado tanto pelas pessoas em sua vida privada quanto pelos próprios legisladores. Eles punem e tomam vingança dos que praticam atos maus (a menos que tenham agido sob coação ou por uma ignorância da qual não sejam responsáveis), enquanto honram os que praticam atos nobres, como se quisessem estimular estes últimos e desencorajar os primeiros. Mas ninguém é estimulado a fazer aquilo que não está em nosso poder nem é voluntário. Não há proveito em convencer alguém a não sentir calor, dor ou fome e coisas assim, pois sentiremos isso de todo modo. Aliás, punimos uma pessoa pela própria ignorância, se ela for considerada responsável por essa ignorância, como quando se dobram as penas no caso da embriaguez. Pois a origem do ato está na própria pessoa, já que ela tinha o poder de não se embriagar, e foi a embriaguez que causou a sua ignorância. E punimos os que ignoram algo das leis que deveriam saber e que não é difícil de saber, e o mesmo vale para qualquer outra coisa que tenham deixado de saber por descuido. Supomos que estava em seu poder não ser ignorantes, já que tinham o poder de tomar cuidado.
Mas talvez alguém seja do tipo de pessoa que não toma cuidado. Ainda assim, são eles mesmos os responsáveis por se tornarem assim, por causa de sua vida desleixada. As pessoas se tornam responsáveis por serem injustas ou descontroladas, umas trapaceando, outras passando o tempo em bebedeiras e coisas do gênero. Pois são as atividades exercidas sobre objetos específicos que produzem o caráter correspondente. Isso fica claro no caso de quem treina para qualquer competição ou tarefa: a pessoa pratica a atividade o tempo todo. Não saber que é do exercício de atividades sobre objetos específicos que se produzem os estados de caráter é sinal de uma pessoa completamente sem juízo. Além disso, é irracional supor que quem age de modo injusto não deseje ser injusto, ou que quem age de modo descontrolado não deseje ser descontrolado. Mas se, sem estar ignorante, a pessoa faz as coisas que a tornarão injusta, então ela é injusta voluntariamente. Ainda assim, não se segue que, se ela quiser, deixará de ser injusta e passará a ser justa. Pois o doente também não fica curado só por querer. Podemos imaginar um caso em que a pessoa ficou doente por vontade própria, vivendo sem controle e desobedecendo aos médicos. Nesse caso, antes era possível não ficar doente, mas agora já não é, pois ela desperdiçou a sua chance, assim como, depois de soltar uma pedra, é tarde demais para recuperá-la. Ainda assim, estava em seu poder lançá-la, já que a origem do movimento estava em você. Do mesmo modo, no começo era possível ao injusto e ao descontrolado não se tornarem assim, e por isso são injustos e descontrolados voluntariamente. Mas, depois que se tornaram assim, já não lhes é possível deixar de sê-lo.
E não só os vícios da alma são voluntários, mas, em alguns casos, também os do corpo, e por isso censuramos essas pessoas. Ninguém censura quem é feio por natureza, mas censuramos quem fica assim por falta de exercício e de cuidado. O mesmo vale para a fraqueza e a debilidade física. Ninguém recriminaria uma pessoa cega de nascença, por doença ou por uma pancada, antes teria pena dela. Mas todos censurariam quem ficou cego por embriaguez ou por outra forma de descontrole. Quanto aos vícios do corpo, então, os que estão em nosso poder são censurados, e os que não estão, não. E se é assim, nos outros casos também os vícios que merecem censura devem estar em nosso poder.
Ora, alguém poderia dizer que todas as pessoas desejam o que lhes parece bom, mas não têm controle sobre como as coisas lhes parecem: o fim aparece a cada um conforme o seu caráter. Respondemos que, se cada pessoa é de algum modo responsável por seu próprio estado de espírito, então também será de algum modo responsável por como as coisas lhe parecem. Caso contrário, ninguém seria responsável pelo mal que faz, e todos fariam o mal por ignorância do fim, achando que assim alcançariam o que é melhor. Nesse caso, mirar no fim não seria escolha própria: seria preciso nascer com uma espécie de olho com o qual julgar bem e escolher o que é verdadeiramente bom, e teria boa natureza quem nascesse bem dotado disso. Pois isso seria o maior e mais nobre dom, algo que não se pode obter nem aprender de outra pessoa, mas que se tem tal como foi dado no nascimento. E ser bem e nobremente dotado disso seria a perfeita e verdadeira excelência da natureza. Se isso fosse verdade, como a virtude seria mais voluntária que o vício? Pois para ambos igualmente, o bom e o mau, o fim aparece e é fixado pela natureza ou seja lá como for, e é remetendo tudo o mais a esse fim que as pessoas fazem o que fazem.
Quer não seja por natureza que o fim aparece a cada um do modo como aparece, dependendo também algo da própria pessoa, quer o fim seja natural mas a virtude seja voluntária porque o bom adota os meios voluntariamente, em qualquer dos casos o vício não será menos voluntário. Pois, no caso do mau, está igualmente presente aquilo que depende dele mesmo em suas ações, ainda que não no seu fim. Se, então, como se afirma, as virtudes são voluntárias (pois nós mesmos somos de algum modo em parte responsáveis pelos nossos estados de caráter, e é por sermos pessoas de certo tipo que supomos o fim de tal ou tal maneira), os vícios também serão voluntários, pois o mesmo se aplica a eles.
Sobre as virtudes em geral, indicamos em linhas gerais o seu gênero, ou seja: que são meios-termos e que são estados de caráter, que tendem por sua própria natureza a produzir os atos pelos quais elas mesmas são produzidas, que estão em nosso poder e são voluntárias, e que agem conforme prescreve a regra correta. Mas as ações e os estados de caráter não são voluntários do mesmo modo. Somos senhores de nossas ações do começo ao fim, desde que conheçamos as circunstâncias particulares. Já nos estados de caráter, embora controlemos o início, o avanço gradual não é evidente, assim como não é nas doenças. Ainda assim, como estava em nosso poder agir deste ou daquele modo, por isso os estados de caráter são voluntários.
Tomemos agora, então, cada uma das virtudes em particular, e digamos quais são, com que tipo de coisas elas se ocupam e de que maneira o fazem. Ao mesmo tempo, ficará claro quantas são. E falemos primeiro da coragem.