Ética a Nicômaco - Livro III 4
Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança
O que queremos de verdade: o bem ou o que parece bem?
Já dissemos que a vontade tem o fim como objeto. Alguns pensam que esse objeto é o bem, outros que é aquilo que parece bem.
Quem diz que o objeto da vontade é o bem precisa admitir uma consequência: aquilo que um homem deseja quando escolhe mal não é, na verdade, um objeto de vontade. Pois, para que fosse, teria de ser também bom, e nesse caso seria mau.
Por outro lado, quem diz que o objeto da vontade é aquilo que parece bem precisa admitir que não existe nenhum objeto de vontade por natureza, mas apenas aquilo que parece bom a cada um. Ora, coisas diferentes parecem boas a pessoas diferentes, e pode até acontecer que pareçam boas coisas opostas.
Se essas conclusões nos desagradam, talvez devamos dizer o seguinte: em sentido absoluto e verdadeiro, o objeto da vontade é o bem, mas para cada pessoa o objeto é aquilo que lhe parece bem.
Assim, o que é de fato objeto de vontade é objeto de vontade para o homem bom, ao passo que para o homem mau pode sê-lo qualquer coisa ao acaso. Acontece o mesmo com os corpos: para os corpos em boa condição, são saudáveis as coisas que de fato o são, enquanto para os corpos doentes são saudáveis outras coisas, e o mesmo vale para o amargo, o doce, o quente e o pesado.
É que o homem bom julga corretamente cada tipo de coisa, e em cada uma a verdade se mostra a ele. Pois cada estado de caráter tem suas próprias ideias do que é nobre e do que é agradável, e talvez o que mais distingue o homem bom dos demais seja enxergar a verdade em cada tipo de coisa, sendo como que a norma e a medida delas.
Na maioria dos casos, o erro parece nascer do prazer, pois ele aparenta ser um bem sem o ser. Por isso escolhemos o agradável como se fosse um bem e evitamos a dor como se fosse um mal.