Ética a Nicômaco - Livro III 11
Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança
A falta de domínio de si e a temperança: desejos naturais e desejos individuais
Entre os desejos, alguns parecem ser comuns a todos, outros próprios de cada indivíduo e adquiridos. Por exemplo, o desejo de comida é natural, já que todo mundo que está sem ela sente vontade de comer ou de beber, às vezes de ambos, e também de amor (como diz Homero), se for jovem e cheio de vigor. Mas nem todos desejam este ou aquele tipo de alimento ou de amor, nem as mesmas coisas. Por isso esse tipo de desejo parece ser bem particular a cada um.
Ainda assim, é claro que ele tem algo de natural, pois coisas diferentes agradam a tipos diferentes de pessoas, e algumas coisas são mais agradáveis a todos do que objetos quaisquer.
Ora, nos desejos naturais poucos erram, e só numa direção, a do excesso. Comer ou beber o que estiver à frente até ficar empanturrado é ultrapassar a medida natural, já que o desejo natural é apenas a reposição do que falta ao corpo. Por isso essas pessoas são chamadas de escravos do estômago, o que indica que enchem a barriga além do que é certo. São pessoas de caráter totalmente servil que se tornam assim.
Mas, quanto aos prazeres próprios de cada indivíduo, muita gente erra, e de muitas maneiras. As pessoas que dizemos ser 'apaixonadas por isto ou aquilo' recebem esse nome porque se deliciam com as coisas erradas, ou mais do que a maioria, ou da maneira errada. Já a pessoa sem domínio de si excede nas três formas ao mesmo tempo: deleita-se com coisas que não deveria (porque são odiosas) e, mesmo quando se trata de algo com que é certo se deleitar, faz isso mais do que se deve e mais do que a maioria faz.
Fica claro, então, que o excesso em relação aos prazeres é falta de domínio de si e merece censura. Já em relação às dores, ninguém é chamado de temperante por enfrentá-las nem de descontrolado por não enfrentá-las, como acontece com a coragem. A pessoa sem domínio de si recebe esse nome porque sofre mais do que deveria por não conseguir as coisas agradáveis (e até essa dor sua é causada pelo prazer), e a pessoa temperante recebe esse nome porque não sofre com a ausência do que é agradável nem com o fato de se privar disso.
A pessoa sem domínio de si, portanto, deseja todas as coisas agradáveis, ou as mais agradáveis, e é levada pelo seu apetite a escolhê-las ao custo de todo o resto. Por isso sofre tanto quando não consegue obtê-las quanto quando apenas as deseja (pois o desejo já traz dor). Mas parece absurdo sentir dor por causa do prazer.
Pessoas que ficam aquém em relação aos prazeres e se deliciam com eles menos do que deveriam quase não existem, pois essa insensibilidade não é humana. Até os outros animais distinguem tipos diferentes de comida e gostam de uns e não de outros. Se houvesse alguém que não achasse nada agradável e nada mais atraente do que qualquer outra coisa, essa pessoa seria algo bem diferente de um ser humano. Esse tipo de pessoa nem recebeu um nome, porque quase não aparece.
A pessoa temperante ocupa uma posição intermediária em relação a esses objetos. Ela não gosta das coisas de que a pessoa sem domínio de si mais gosta (na verdade até as detesta), nem em geral das coisas de que não deveria gostar, nem de nada desse tipo em excesso. Também não sente dor nem desejo quando essas coisas estão ausentes, ou só os sente de forma moderada, não mais do que deveria, nem quando não deveria, e assim por diante.
Mas as coisas que, sendo agradáveis, favorecem a saúde ou o bom estado do corpo, ela vai desejar com moderação e como convém, e também outros prazeres, desde que não atrapalhem esses fins, nem sejam contrários ao que é nobre, nem estejam acima dos seus recursos. Pois quem ignora essas condições ama tais prazeres mais do que eles valem. A pessoa temperante não é assim, mas sim do tipo que a regra correta prescreve.