Ética a Nicômaco - Livro III 12
Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança
A intemperança é mais voluntária que a covardia; o apetite deve obedecer à razão
A intemperança se parece mais com um estado voluntário do que a covardia. A intemperança é movida pelo prazer, e a covardia, pela dor. O prazer é algo que escolhemos, e a dor é algo que evitamos. Além disso, a dor abala e destrói a natureza de quem a sente, enquanto o prazer não faz nada disso. Por isso a intemperança é mais voluntária.
E por isso ela também merece mais reprovação. É mais fácil se acostumar com aquilo que a intemperança busca, já que há muitas dessas coisas agradáveis na vida, e o hábito de se entregar a elas não traz perigo nenhum. Com aquilo que causa medo acontece o contrário.
A covardia, vista como disposição geral, parece voluntária de um modo diferente de seus atos específicos. A covardia em si não dói, mas nos atos concretos somos abalados pela dor, a ponto de até largarmos as armas e nos desonrarmos de outras formas. Por isso esses atos chegam a parecer feitos sob pressão.
Já no caso do homem intemperante, os atos específicos são voluntários, pois ele os pratica com vontade e desejo, mas o estado como um todo é menos voluntário, já que ninguém deseja ser intemperante.
O nome intemperança também é usado para as faltas das crianças, porque elas têm certa semelhança com aquilo que estamos analisando. Qual recebeu o nome a partir de qual não importa para o nosso propósito aqui, mas é claro que o mais tardio recebeu o nome a partir do mais antigo.
A transferência do nome parece acertada. Aquilo que deseja o que é baixo e que cresce depressa precisa ser mantido sob controle, e essas características pertencem acima de tudo ao apetite e à criança, já que as crianças vivem ao sabor do apetite, e é nelas que o desejo pelo que é agradável é mais forte.
Se o apetite não for obediente e submisso ao princípio que governa, ele vai longe demais. Num ser sem razão o desejo de prazer é insaciável, ainda que recorra a toda fonte de satisfação, e o próprio exercício do apetite aumenta a força que ele já tem por natureza. Quando os apetites são fortes e violentos, chegam a expulsar a capacidade de raciocinar.
Por isso os apetites devem ser moderados e poucos, e não devem se opor de modo nenhum ao princípio racional. É a isso que chamamos de estado obediente e disciplinado. Assim como a criança deve viver seguindo a orientação de seu tutor, a parte do apetite deve viver seguindo o princípio racional.
Por isso, no homem temperante, a parte do apetite deve estar em harmonia com o princípio racional. O que é nobre é o alvo que os dois buscam, e o homem temperante deseja as coisas que deve, do modo que deve e quando deve. É isso que o princípio racional ordena.
Encerramos aqui o nosso exame da temperança.