Ética a Nicômaco - Livro III 6
Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança
O que a coragem de fato teme: a morte nobre na batalha
Já ficou claro que a coragem é um meio-termo no que diz respeito ao medo e à confiança. E é evidente que as coisas que tememos são coisas terríveis, ou seja, em sentido amplo, males. Por isso as pessoas até definem o medo como a expectativa de um mal.
Ora, tememos todos os males, por exemplo a desonra, a pobreza, a doença, a falta de amigos, a morte. Mas não se considera que o homem corajoso lide com todos eles, pois temer certas coisas é até justo e nobre, e não temê-las é vergonhoso. A desonra é um exemplo: quem a teme é bom e tem pudor, e quem não a teme é um sem-vergonha.
Mesmo assim, algumas pessoas chamam de corajoso esse sujeito que não teme a desonra, transferindo a palavra para um novo sentido, pois há nele algo parecido com o homem corajoso, já que o corajoso também é uma pessoa sem medo.
A pobreza e a doença talvez não devêssemos temer, nem em geral as coisas que não vêm do vício e não dependem do próprio homem. Mas nem mesmo quem não teme essas coisas é corajoso.
Ainda assim aplicamos a palavra a ele também por uma semelhança, pois alguns que são covardes nos perigos da guerra são generosos e enfrentam com firmeza a perda de dinheiro.
E não é covarde quem teme uma ofensa contra a esposa e os filhos, ou a inveja, ou algo do tipo. Nem é corajoso quem mantém a calma quando está prestes a ser açoitado.
Com que tipo de coisas terríveis, então, lida o homem corajoso? Sem dúvida com as maiores, pois ninguém mais do que ele é capaz de se manter firme diante do que inspira pavor.
Ora, a morte é a mais terrível de todas as coisas, pois é o fim, e nada mais se considera bom ou mau para quem morreu.
Mas o homem corajoso não parece lidar com a morte em qualquer circunstância, por exemplo a morte no mar ou por doença. Em que circunstâncias, então? Sem dúvida nas mais nobres.
Ora, mortes assim são as que acontecem na batalha, pois ocorrem no maior e mais nobre perigo. E são honradas na mesma medida nas cidades e nas cortes dos reis.
Com razão, então, será chamado corajoso aquele que não tem medo diante de uma morte nobre e diante de todas as situações de emergência que envolvem a morte. E as emergências da guerra são em altíssimo grau desse tipo.
Ainda assim, no mar e na doença o homem corajoso também não tem medo, mas não da mesma maneira que o marinheiro, pois ele já perdeu a esperança de se salvar e detesta a ideia de morrer dessa forma, enquanto os marinheiros têm esperança por causa da experiência deles.
Ao mesmo tempo, mostramos coragem em situações onde há oportunidade de demonstrar valor ou onde a morte é nobre. Mas nessas formas de morte nenhuma dessas duas condições se cumpre.