Ética a Nicômaco - Livro III 3

Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança

A deliberação: a escolha trata dos meios, não dos fins

Será que deliberamos sobre tudo, e tudo pode ser objeto de deliberação, ou existem coisas sobre as quais não o que deliberar? Devemos chamar de objeto de deliberação não aquilo sobre o que um tolo ou um louco refletiria, mas aquilo sobre o que uma pessoa sensata refletiria.
Ora, ninguém delibera sobre as coisas eternas, como o universo material ou o fato de que a diagonal e o lado de um quadrado não têm medida comum. Também não deliberamos sobre as coisas que têm movimento mas acontecem sempre do mesmo modo, seja por necessidade, seja por natureza, seja por qualquer outra causa, como os solstícios e o nascer das estrelas. Nem sobre as coisas que ora acontecem de um jeito, ora de outro, como as secas e as chuvas. Nem sobre os acontecimentos do acaso, como encontrar um tesouro.
Mas também não deliberamos sobre todos os assuntos humanos. Por exemplo, nenhum espartano delibera sobre qual seria a melhor constituição para os citas, pois nada disso pode ser realizado pelo nosso próprio esforço.
Deliberamos sobre as coisas que estão em nosso poder e podem ser feitas, que são justamente o que sobra. Pois se considera que existem como causas a natureza, a necessidade e o acaso, e ainda a razão e tudo o que depende do ser humano. E cada grupo de pessoas delibera sobre aquilo que pode ser feito pelo seu próprio esforço.
Nas ciências exatas e completas em si mesmas não deliberação, como sobre as letras do alfabeto (pois não temos dúvida de como escrevê-las). Mas as coisas que dependem do nosso esforço e nem sempre saem do mesmo jeito são aquelas sobre as quais deliberamos, como as questões de tratamento médico ou de ganhar dinheiro.
E deliberamos mais na arte da navegação do que na ginástica, porque ela está menos exatamente estabelecida. O mesmo vale para as outras coisas, na mesma proporção, e deliberamos mais nas artes do que nas ciências, pois temos mais dúvida quanto às primeiras.
A deliberação se ocupa das coisas que, na maioria das vezes, acontecem de certo modo, mas cujo resultado é incerto, e das coisas em que o desfecho não está determinado. Em questões importantes chamamos outras pessoas para nos ajudar a deliberar, desconfiando de nós mesmos por não nos sentirmos à altura de decidir.
Não deliberamos sobre os fins, mas sobre os meios. Pois o médico não delibera se vai curar, nem o orador se vai convencer, nem o estadista se vai produzir lei e ordem, e ninguém mais delibera sobre o seu fim.
Eles assumem o fim e examinam como e por quais meios alcançá-lo. Se parece que pode ser alcançado por vários meios, examinam por qual deles seria atingido com mais facilidade e do melhor modo. Se um meio, examinam como o fim será atingido por ele e por qual outro meio esse será atingido, até chegarem à primeira causa, que na ordem da descoberta vem por último.
Pois quem delibera parece investigar e analisar do modo descrito, como se estivesse analisando uma figura geométrica. Nem toda investigação é deliberação, por exemplo as investigações matemáticas, mas toda deliberação é investigação. E o que vem por último na ordem da análise parece vir primeiro na ordem da realização.
Se topamos com algo impossível, abandonamos a busca, por exemplo se precisamos de dinheiro e ele não pode ser conseguido. Mas se a coisa parece possível, tentamos fazê-la. Por coisas possíveis quero dizer as que poderiam ser realizadas pelo nosso próprio esforço, e estas, em certo sentido, incluem as que podem ser realizadas pelo esforço dos nossos amigos, pois o princípio que põe tudo em movimento está em nós mesmos.
O objeto da investigação às vezes são os instrumentos, às vezes o uso deles. E o mesmo vale nos outros casos: às vezes o meio, às vezes o modo de usá-lo ou a maneira de produzi-lo.
Fica claro, então, como foi dito, que o ser humano é um princípio que põe em movimento as ações. Ora, a deliberação trata das coisas a serem feitas pela própria pessoa que age, e as ações existem em vista de outras coisas além delas mesmas.
Pois o fim não pode ser objeto de deliberação, os meios. Nem podem ser os fatos particulares, como saber se isto é pão ou se foi assado como devia, pois isso é matéria de percepção. Se fôssemos deliberar para sempre, teríamos que seguir ao infinito.
Aquilo sobre o que deliberamos é a mesma coisa que escolhemos, com a diferença de que o objeto da escolha está determinado, pois o que escolhemos é justamente aquilo que foi decidido como resultado da deliberação.
Pois cada um para de investigar como deve agir quando traz o princípio do movimento de volta para si mesmo e para a parte que governa em si, pois é ela que escolhe. Isso fica claro também nas constituições antigas que Homero retratou, pois os reis anunciavam suas escolhas ao povo.
Como o objeto da escolha é uma das coisas em nosso poder que é desejada depois da deliberação, a escolha será um desejo deliberado de coisas que estão em nosso poder. Pois, depois de decidirmos como resultado da deliberação, desejamos de acordo com a nossa deliberação.
Podemos dizer, então, que descrevemos a escolha em linhas gerais, indicamos a natureza dos seus objetos e mostramos que ela se ocupa dos meios.