Ética a Nicômaco - Livro III 2
Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança
O que é a escolha deliberada e como ela difere do desejo, da vontade e da opinião
Depois de ter delimitado o voluntário e o involuntário, devemos agora discutir a escolha deliberada, pois ela parece estar ligada de modo muito estreito à virtude e revelar o caráter de uma pessoa melhor do que as próprias ações.
A escolha deliberada, então, parece ser algo voluntário, mas não é a mesma coisa que o voluntário, este abrange um campo mais amplo. Pois tanto as crianças quanto os animais participam da ação voluntária, mas não da escolha deliberada, e os atos feitos por impulso do momento nós chamamos de voluntários, mas não de escolhidos.
Os que dizem que a escolha deliberada é desejo, ou raiva, ou vontade, ou um tipo de opinião, parecem não ter razão. Pois a escolha deliberada não é comum também aos seres irracionais, mas o desejo e a raiva são. Além disso, a pessoa sem autocontrole age movida pelo desejo, mas não pela escolha deliberada, enquanto a pessoa que tem autocontrole, ao contrário, age pela escolha deliberada, mas não pelo desejo. Além disso, o desejo pode ser contrário à escolha deliberada, mas um desejo não é contrário a outro desejo. E o desejo se refere ao que é agradável e ao que é doloroso, já a escolha deliberada não se refere nem ao doloroso nem ao agradável.
Menos ainda a escolha deliberada é raiva, pois os atos motivados pela raiva são tidos como os que menos resultam de uma escolha.
Também não é vontade, embora pareça próxima dela. Pois a escolha deliberada não pode se referir ao impossível, e se alguém dissesse que escolheu o impossível seria tido como tolo, mas pode haver vontade até do impossível, por exemplo, da imortalidade. E a vontade pode se referir a coisas que de modo nenhum poderiam ser realizadas pelos próprios esforços, por exemplo, que um certo ator ou atleta vença numa competição, mas ninguém escolhe tais coisas, apenas aquilo que pensa poder realizar pelos próprios esforços. Além disso, a vontade se refere mais ao fim, e a escolha deliberada aos meios. Por exemplo, queremos ter saúde, mas escolhemos os atos que vão nos deixar saudáveis, e queremos ser felizes e dizemos que queremos, mas não soa bem dizer que escolhemos ser felizes, pois, em geral, a escolha deliberada parece se referir às coisas que estão em nosso próprio poder.
Por essa mesma razão, a escolha deliberada também não pode ser opinião. Pois a opinião parece se referir a todo tipo de coisa, tanto às coisas eternas e impossíveis quanto às que estão em nosso próprio poder, e ela se distingue por ser falsa ou verdadeira, não por ser boa ou má, enquanto a escolha deliberada se distingue antes por ser boa ou má.
Quanto à opinião em geral, talvez ninguém afirme que a escolha deliberada seja idêntica a ela. Mas ela não é idêntica nem mesmo a algum tipo específico de opinião, pois é ao escolher o que é bom ou mau que somos pessoas de um certo caráter, coisa que não somos por sustentar certas opiniões. E escolhemos obter ou evitar algo bom ou mau, mas temos opiniões sobre o que uma coisa é, ou para quem ela é boa, ou de que modo é boa, dificilmente se pode dizer que opinamos para obter ou evitar algo. E a escolha deliberada é elogiada por se voltar ao objeto certo mais do que por se relacionar de modo certo com ele, já a opinião é elogiada por se relacionar de modo verdadeiro com seu objeto. E escolhemos aquilo que melhor sabemos ser bom, mas opinamos sobre o que não conhecemos bem, e não são tidas como as mesmas pessoas as que fazem as melhores escolhas e as que têm as melhores opiniões, algumas são tidas como tendo opiniões bastante boas, mas por causa do vício escolhem o que não deveriam. Se a opinião precede a escolha deliberada ou a acompanha, isso não faz diferença, pois não é isso que estamos investigando, mas se ela é idêntica a algum tipo de opinião.
O que é, então, ou que tipo de coisa é a escolha deliberada, já que não é nenhuma das coisas que mencionamos? Ela parece ser voluntária, mas nem tudo o que é voluntário é objeto de escolha. Seria, então, aquilo que foi decidido por deliberação prévia? De todo modo, a escolha deliberada envolve um princípio racional e um pensamento. Até o próprio nome parece sugerir que ela é aquilo que se escolhe antes de outras coisas.