Ética a Nicômaco - Livro III 8

Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança

Cinco tipos de coragem que só se parecem com a coragem verdadeira

A coragem, então, é algo desse tipo, mas o mesmo nome também é dado a outras cinco coisas.
A primeira é a coragem do cidadão-soldado, porque é a que mais se parece com a coragem verdadeira. Os cidadãos-soldados parecem enfrentar o perigo por causa das punições previstas nas leis e das censuras que sofreriam de outro modo, e por causa das honras que ganham agindo assim. Por isso os povos mais corajosos parecem ser aqueles em que o covarde é desonrado e o homem corajoso é honrado.
É essa a coragem que Homero retrata, por exemplo, em Diomedes e em Heitor: Polidamas será o primeiro a me cobrir de censuras; e Pois um dia, entre os troianos, Heitor proferirá seu discurso arrogante: Apavorado fugiu de mim o filho de Tideu.
Esse tipo de coragem é o que mais se parece com aquele que descrevemos antes, porque nasce da virtude. Ele vem do senso de vergonha e do desejo de algo nobre (ou seja, a honra), e da fuga da desonra, que é vergonhosa.
Alguém poderia colocar na mesma categoria até os que são forçados pelos governantes. Mas esses são inferiores, que fazem o que fazem não por vergonha, e sim por medo, e para evitar não o que é vergonhoso, e sim o que é doloroso. Os seus chefes os obrigam, como faz Heitor: Mas se eu avistar algum covarde encolhido longe da luta, em vão ele esperará escapar dos cães.
E fazem o mesmo os comandantes que designam os postos e batem nos soldados que recuam, e também os que os alinham com valas ou algo do gênero por trás deles. Todos esses aplicam coação. Mas a pessoa deve ser corajosa não por coação, e sim porque ser corajoso é nobre.
(2) A experiência sobre fatos específicos também é considerada coragem. É exatamente por isso que Sócrates achava que a coragem era conhecimento. Pessoas diferentes mostram essa qualidade em perigos diferentes, e os soldados profissionais a mostram nos perigos da guerra, porque na guerra parece haver muitos alarmes falsos, e são eles que têm a experiência mais ampla disso. Por isso parecem corajosos, que os outros não conhecem a real natureza dos fatos.
Além disso, a experiência os torna mais capazes no ataque e na defesa, porque sabem usar suas armas e têm justamente as que servem melhor para atacar e para se defender. Por isso lutam como homens armados contra desarmados, ou como atletas treinados contra amadores. Nessas competições também não são os mais corajosos que lutam melhor, e sim os mais fortes e em melhor forma física.
Os soldados profissionais, no entanto, viram covardes quando o perigo aperta demais e eles ficam em inferioridade de número e de equipamento. São os primeiros a fugir, enquanto as tropas formadas de cidadãos morrem em seus postos, como de fato aconteceu no templo de Hermes.
Pois para os cidadãos fugir é vergonhoso, e a morte é preferível a uma segurança comprada desse jeito. os soldados profissionais, desde o começo, encararam o perigo na suposição de que eram mais fortes, e quando percebem como as coisas realmente são, fogem, com mais medo da morte do que da desonra. Mas o homem corajoso não é desse tipo.
(3) Às vezes também se conta o furor como coragem. Os que agem movidos pelo furor, como feras que se atiram sobre quem as feriu, são tidos por corajosos, porque os homens corajosos também são apaixonados. O furor, mais que tudo, está ansioso para se lançar ao perigo, e daí vêm as expressões de Homero: deu força ao seu furor, e despertou seu ânimo e seu furor, e respirava com dificuldade, ofegante, e seu sangue fervia. Todas essas expressões parecem indicar a agitação e o ímpeto do furor.
Ora, os homens corajosos agem em nome da honra, e o furor apenas os ajuda. As feras, por outro lado, agem sob o efeito da dor, porque atacam por terem sido feridas ou por estarem com medo. Tanto que, se estão numa floresta, não se aproximam de ninguém.
Por isso elas não são corajosas: empurradas pela dor e pelo furor, se lançam ao perigo sem prever nenhum dos riscos. Nesse critério até os burros seriam corajosos quando têm fome, porque pancadas não os afastam da comida. E a luxúria também leva os adúlteros a fazer muitas coisas ousadas. (Logo, esses seres não são corajosos: são empurrados ao perigo pela dor ou pelo furor.)
A coragem que nasce do furor parece ser a mais natural, e vira coragem de verdade quando se acrescentam a ela a escolha e o motivo certo.
Os homens, assim como os animais, sentem dor quando estão com raiva, e sentem prazer quando se vingam. Mas os que lutam por essas razões são brigões, não corajosos, porque não agem em nome da honra nem conforme a razão manda, e sim pela força do sentimento. Ainda assim, têm algo aparentado com a coragem.
(4) Os otimistas confiantes também não são corajosos, porque têm confiança diante do perigo por terem vencido muitas vezes e contra muitos inimigos. Ainda assim, lembram bastante os corajosos, porque os dois confiam. Mas os corajosos confiam pelas razões ditas, enquanto esses confiam por se acharem os mais fortes e por achar que nada pode atingi-los. (Os bêbados também agem assim: ficam cheios de confiança.)
Quando, no entanto, suas aventuras não dão certo, eles fogem. Mas a marca do homem corajoso era encarar o que é, e o que parece, terrível para um homem, porque é nobre fazer isso e vergonhoso não fazer.
Por isso também se considera mais corajoso quem fica destemido e tranquilo diante de sustos repentinos do que quem fica assim diante de perigos previstos. Pois isso vem mais da disposição de caráter, porque depende menos de preparação. Os atos previstos podem ser escolhidos pelo cálculo e pela razão, mas as ações repentinas podem seguir a disposição de caráter da pessoa.
(5) Os que desconhecem o perigo também parecem corajosos, e não estão longe dos otimistas confiantes, mas são inferiores, porque não têm autoconfiança, enquanto aqueles têm.
Por isso os otimistas confiantes aguentam firmes por um tempo. Mas os que foram enganados sobre os fatos fogem assim que descobrem ou suspeitam que as coisas são diferentes do que imaginavam, como aconteceu com os argivos quando esbarraram nos espartanos e os confundiram com os siciônios.
Descrevemos, então, o caráter tanto dos homens corajosos quanto dos que apenas parecem corajosos.