Ética a Nicômaco - Livro I 9
O bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude
A felicidade se aprende, vem dos deuses ou do acaso?
Por causa disso também se pergunta se a felicidade se conquista por aprendizado, por hábito ou por algum outro tipo de treino, ou se ela vem por alguma providência divina, ou ainda por acaso.
Ora, se existe algum presente dos deuses para os homens, é razoável que a felicidade seja dada por eles, e ela é, com mais certeza que tudo, o que há de mais divino entre as coisas humanas, justamente porque é a melhor.
Mas talvez essa questão caiba melhor a outra investigação. De todo modo, mesmo que a felicidade não venha dos deuses, mas resulte da virtude e de algum processo de aprendizado ou treino, ela parece estar entre as coisas mais divinas, pois aquilo que é o prêmio e o fim da virtude parece ser a melhor coisa do mundo, algo divino e abençoado.
Por esse modo de ver, a felicidade também seria partilhada por muita gente, pois todos os que não são incapacitados para a virtude podem alcançá-la por meio de certo estudo e cuidado.
E se é melhor ser feliz assim do que por acaso, é razoável que as coisas funcionem desse jeito, já que tudo o que depende da ação da natureza é, por natureza, tão bom quanto pode ser, e o mesmo vale para tudo o que depende da arte ou de qualquer causa racional, sobretudo se depende da melhor de todas as causas.
Deixar ao acaso aquilo que é o maior e o mais nobre seria um arranjo muito falho.
A resposta para a pergunta que estamos fazendo fica clara também a partir da definição de felicidade, pois dissemos que ela é uma atividade da alma conforme a virtude, de um certo tipo.
Quanto aos demais bens, alguns precisam existir antes, como condições da felicidade, e outros colaboram por natureza e são úteis como instrumentos.
E isso vai concordar com o que dissemos no início, pois afirmamos que o fim da ciência política é o melhor fim, e a ciência política gasta a maior parte do seu esforço em fazer os cidadãos terem um certo caráter, ou seja, serem bons e capazes de ações nobres.
É natural, então, que não chamemos de feliz nem o boi, nem o cavalo, nem nenhum outro animal, pois nenhum deles é capaz de participar de uma atividade desse tipo.
Pela mesma razão, uma criança também não é feliz, pois ainda não é capaz de tais ações por causa da sua idade. As crianças que chamamos de felizes recebem esse elogio por causa das esperanças que temos a respeito delas.
Pois é preciso, como dissemos, não só a virtude completa, mas também uma vida completa, já que na vida ocorrem muitas mudanças e todo tipo de acaso, e mesmo o homem mais próspero pode cair em grandes desgraças na velhice, como se conta de Príamo nos relatos da guerra de Troia. E ninguém chama de feliz quem passou por reviravoltas assim e terminou na desventura.