Ética a Nicômaco - Livro I 5
O bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude
As três vidas: prazer, honra e contemplação
Voltemos agora ao ponto em que nossa discussão se desviou. Se julgarmos pelas vidas que as pessoas levam, a maioria delas, sobretudo as de gosto mais grosseiro, parece identificar o bem, ou a felicidade, com o prazer, e não sem alguma razão. É por isso que amam a vida voltada ao prazer.
Podemos dizer que existem três tipos principais de vida: essa que acabamos de mencionar, a vida política e, em terceiro, a vida contemplativa. A grande maioria das pessoas mostra ter gostos próprios de escravos, pois prefere uma vida adequada a animais. Mesmo assim, encontra algum apoio para essa preferência no fato de que muitos dos que ocupam posições elevadas partilham os gostos de Sardanapalo.
Quando examinamos os principais tipos de vida, vemos que as pessoas mais refinadas e de temperamento ativo identificam a felicidade com a honra, pois esse é, grosso modo, o objetivo da vida política. Mas a honra parece superficial demais para ser aquilo que procuramos, já que ela depende mais de quem a concede do que de quem a recebe, enquanto o bem, segundo intuímos, deve ser algo próprio da pessoa e que não lhe seja facilmente tirado.
Além disso, as pessoas parecem buscar a honra para se assegurarem do próprio valor. Pelo menos, querem ser honradas por gente de bom senso prático, entre os que as conhecem, e por causa de sua virtude. Fica claro, então, que ao menos para essas pessoas a virtude vale mais. E talvez se pudesse até supor que ela, e não a honra, é o objetivo da vida política.
Mas mesmo a virtude parece um tanto incompleta, pois é possível ter virtude e ainda assim estar dormindo, ou ficar inativo a vida inteira, e mais, é possível ter virtude em meio aos maiores sofrimentos e desgraças. Ninguém chamaria de feliz quem vivesse assim, a não ser para defender uma tese a todo custo. Mas basta sobre isso, pois o assunto já foi tratado o suficiente nas discussões correntes.
Em terceiro lugar vem a vida contemplativa, que examinaremos mais adiante.
A vida dedicada a ganhar dinheiro é levada por imposição, e a riqueza claramente não é o bem que procuramos, pois ela é apenas útil e existe em vista de outra coisa.
Por isso seria melhor tomar como fins aqueles objetos já mencionados, pois são amados por si mesmos. Mas é evidente que nem mesmo eles são fins, ainda que muitos argumentos tenham sido gastos em sua defesa. Deixemos, então, esse assunto.