Ética a Nicômaco - Livro I 6
O bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude
Crítica à ideia platônica de um Bem único e universal
Talvez seja melhor examinarmos a ideia de um bem universal e discutir a fundo o que se quer dizer com ela, ainda que essa investigação seja difícil pelo fato de que as Formas foram propostas por amigos nossos.
Mesmo assim, talvez se pense que é melhor, e até nosso dever, destruir aquilo que nos é próximo para preservar a verdade, sobretudo porque somos filósofos, isto é, amantes da sabedoria. As duas coisas nos são caras, mas o respeito à verdade nos manda honrá-la acima dos amigos.
Os que propuseram essa doutrina não admitiam Ideias para os conjuntos em que reconheciam uma ordem de anterior e posterior, e por isso não defendiam que houvesse uma Ideia abrangendo todos os números.
Mas a palavra bem se usa tanto na categoria da substância (aquilo que uma coisa é) quanto na da qualidade e na da relação. Ora, aquilo que existe por si mesmo, isto é, a substância, é por natureza anterior ao que é relativo, pois o relativo é como um broto ou um acidente do ser. Logo, não pode haver uma Ideia comum colocada acima de todos esses bens.
Além disso, bem tem tantos sentidos quantos tem ser. Ele se diz na categoria da substância, como de Deus e da inteligência; na da qualidade, como das virtudes; na da quantidade, como daquilo que é moderado; na da relação, como do que é útil; no tempo, como da ocasião certa; no lugar, como do local adequado, e assim por diante. Fica claro, então, que o bem não pode ser algo único e presente em todos os casos do mesmo modo, pois nesse caso ele se diria em uma só categoria, não em todas.
Além disso, das coisas que correspondem a uma única Ideia há uma única ciência. Então haveria uma única ciência de todos os bens. Mas na prática há muitas ciências, mesmo das coisas que caem sob uma só categoria. Tome a ocasião certa: na guerra ela é estudada pela estratégia, na doença pela medicina; e a medida certa, na alimentação cabe à medicina, no exercício à ginástica.
E alguém poderia perguntar o que afinal eles querem dizer com a coisa em si, se em o homem em si e em um homem particular a definição de homem é uma e a mesma. Pois, enquanto homens, eles em nada diferem. Sendo assim, o bem em si e os bens particulares também não diferem enquanto bens.
O bem em si também não será mais bem por ser eterno, já que aquilo que dura muito não é mais branco do que aquilo que perece em um dia.
Os pitagóricos parecem dar uma explicação mais plausível do bem quando colocam o um na coluna dos bens, e foi a eles que Espeusipo parece ter seguido.
Mas deixemos esses assuntos para outro lugar. Cabe notar, contra o que dissemos, que os platônicos não estavam falando de todos os bens: os bens buscados e amados por si mesmos são chamados bens por referência a uma única Forma, enquanto os que tendem a produzir ou preservar esses, ou a impedir seus contrários, são chamados bens por referência aos primeiros, e em sentido secundário.
Fica claro, então, que bem se diz de dois modos: alguns são bens em si mesmos, os outros por causa destes. Separemos, portanto, as coisas boas em si mesmas das coisas úteis, e vejamos se as primeiras são chamadas boas por referência a uma única Ideia.
Que tipo de coisas chamaríamos boas em si mesmas? Seriam aquelas buscadas mesmo quando isoladas de tudo o mais, como a inteligência, a visão, certos prazeres e certas honras? Pois, ainda que busquemos essas coisas também em vista de outra, mesmo assim alguém as colocaria entre as coisas boas em si mesmas.
Ou então nada é bom em si mesmo a não ser a própria Ideia do bem? Nesse caso a Forma será vazia.
Mas se as coisas que mencionamos também são boas em si mesmas, a definição do bem terá de aparecer como algo idêntico em todas elas, como a definição de branco é idêntica na neve e no chumbo branco. Só que, no caso da honra, da sabedoria e do prazer, justamente quanto à sua bondade, as definições são distintas e diversas. Portanto, o bem não é um elemento comum que corresponda a uma única Ideia.
Mas o que queremos dizer, então, com o bem? Certamente ele não é como as coisas que apenas por acaso têm o mesmo nome.
Os bens são um por derivarem de um único bem, ou por contribuírem todos para um único bem, ou serão antes um por analogia? De fato, assim como a visão está no corpo, a inteligência está na alma, e do mesmo modo em outros casos.
Mas talvez seja melhor deixar esses temas de lado por ora, pois uma precisão completa sobre eles caberia melhor a outro ramo da filosofia. O mesmo vale para a Ideia: mesmo que exista algum bem único que se diga universalmente de todos os bens, ou capaz de existir separado e por si só, fica claro que ele não poderia ser realizado nem alcançado pelo homem. E o que buscamos agora é algo alcançável.
Mas talvez alguém ache que vale a pena reconhecer esse bem único tendo em vista os bens que são alcançáveis e realizáveis, pois, tendo-o como uma espécie de modelo, conheceríamos melhor os bens que são bons para nós, e conhecendo-os, os alcançaríamos.
Esse argumento tem alguma plausibilidade, mas parece chocar-se com o modo de proceder das ciências. Todas elas miram em algum bem e buscam suprir o que lhe falta, e ainda assim deixam de lado o conhecimento do bem em si. Ora, não é provável que todos os que exercem as artes ignorem, e nem sequer busquem, um auxílio tão grande.
É difícil também ver como um tecelão ou um carpinteiro se beneficiaria, no seu próprio ofício, em conhecer esse bem em si, ou como aquele que contemplou a Ideia em si se tornaria por isso um médico ou um general melhor.
Pois um médico nem mesmo estuda a saúde desse modo, mas a saúde do homem, ou talvez antes a saúde de um homem em particular, já que são indivíduos que ele cura. Mas basta desses assuntos.