Ética a Nicômaco - Livro I 10

O bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude

Um homem só pode ser chamado de feliz depois de morto? A pergunta de Sólon

Será então que ninguém pode ser chamado de feliz enquanto vive? Será que precisamos, como diz Sólon, esperar para ver o fim? E mesmo que aceitemos essa ideia, será que um homem é feliz depois de morto? Ou isso seria totalmente absurdo, ainda mais para nós, que dizemos que a felicidade é uma atividade?
Mas talvez Sólon não queira dizer que o morto é feliz, e sim que então se pode com segurança chamar alguém de venturoso, por estar enfim além dos males e dos infortúnios. Isso também pano para discussão, porque se costuma pensar que o bem e o mal atingem o morto tanto quanto atingem quem está vivo mas não percebe: por exemplo, honras e desonras, e a boa ou sorte dos filhos e dos descendentes em geral.
E aqui surge outro problema. Mesmo que um homem tenha vivido feliz até a velhice e tido uma morte digna de sua vida, muitos reveses podem cair sobre os descendentes dele: alguns podem ser bons e alcançar a vida que merecem, enquanto com outros pode acontecer o contrário. É claro também que os graus de parentesco entre eles e os antepassados podem variar sem limite. Seria estranho, então, que o morto participasse dessas mudanças e fosse ora feliz, ora desventurado. Mas também seria estranho que a sorte dos descendentes não tivesse efeito nenhum, por algum tempo, sobre a felicidade dos antepassados.
Mas devemos voltar à nossa primeira dificuldade, porque talvez, ao examiná-la, o problema atual se resolva. Ora, se temos de ver o fim e então chamar um homem de feliz (não por estar feliz agora, mas por ter sido feliz antes), isso é claramente um paradoxo: que, no momento em que ele é feliz, não se possa atribuir a ele com verdade aquilo que de fato lhe pertence. E isso porque não queremos chamar de felizes os homens vivos, por causa das mudanças que podem atingi-los, e porque admitimos que a felicidade é algo permanente e de modo algum fácil de mudar, enquanto um único homem pode passar por muitas voltas da roda da fortuna.
Pois é evidente que, se acompanhássemos as oscilações da sorte dele, chamaríamos com frequência o mesmo homem ora de feliz, ora de desventurado, fazendo do homem feliz uma espécie de camaleão, sem base firme. Ou será que acompanhar assim a sorte dele é totalmente errado? O sucesso ou o fracasso na vida não dependem dela. A vida humana, como dissemos, precisa desses bens apenas como acréscimos, ao passo que são as atividades virtuosas, ou as contrárias, que constituem a felicidade ou o seu oposto.
A questão que acabamos de discutir confirma a nossa definição. Pois nenhuma função do homem tem tanta permanência quanto as atividades virtuosas (acredita-se que sejam ainda mais duradouras que o conhecimento das ciências), e entre elas as mais valiosas são as mais duradouras, porque os que são felizes passam a vida dedicados a elas com a maior facilidade e continuidade. Esse parece ser o motivo de não as esquecermos.
Aquilo que buscamos, então, pertencerá ao homem feliz, e ele será feliz por toda a vida. Pois sempre, ou de preferência a qualquer outra coisa, ele estará ocupado na ação virtuosa e na contemplação, e suportará os acasos da vida da forma mais nobre e digna possível, se for verdadeiramente bom e firme, sem nada que se lhe possa censurar.
Ora, muitos acontecimentos ocorrem por acaso, e diferem em importância. Os pequenos golpes de boa sorte, ou os de sorte, claramente não pesam para um lado nem para o outro na balança da vida. Mas uma série de grandes acontecimentos, se correm bem, tornam a vida mais feliz (pois eles mesmos acrescentam beleza à vida, e o modo como o homem lida com eles pode ser nobre e bom), enquanto, se correm mal, esmagam e ferem a felicidade, porque trazem dor e atrapalham muitas atividades.
Ainda assim, mesmo nesses casos a nobreza transparece, quando um homem suporta com serenidade muitos grandes infortúnios, não por insensibilidade à dor, mas por nobreza e grandeza de alma.
Se as atividades, como dissemos, são o que caráter à vida, nenhum homem feliz pode se tornar miserável, porque ele jamais fará atos odiosos e vis. Pois o homem verdadeiramente bom e sábio, achamos, suporta com dignidade todos os acasos da vida e sempre tira o melhor das circunstâncias, assim como um bom general faz o melhor uso militar do exército que comanda, e um bom sapateiro faz os melhores sapatos com os couros que recebe. E o mesmo vale para todos os outros artesãos.
E sendo assim, o homem feliz nunca pode se tornar miserável, embora não alcance a plena bem-aventurança se lhe acontecer uma sorte como a de Príamo.
Ele também não é instável nem cheio de cores que mudam. Pois não será afastado do seu estado feliz com facilidade, nem por desventuras comuns, mas por muitas e grandes. E, se sofreu muitas e grandes desventuras, não recuperará a felicidade em pouco tempo, mas, se a recuperar, ao longo de um período longo e completo, no qual tenha alcançado muitos êxitos notáveis.
Por que então não dizer que é feliz aquele que age conforme a virtude completa e está suficientemente provido de bens externos, não por um período qualquer, mas ao longo de uma vida inteira? Ou devemos acrescentar a condição: e que está destinado a viver assim e a morrer de acordo com a sua vida? É certo que o futuro nos é obscuro, ao passo que a felicidade, afirmamos, é um fim, algo de todo modo definitivo.
Se for assim, chamaremos de felizes aqueles homens vivos em quem essas condições estão e estarão cumpridas, mas felizes apenas enquanto homens. É o bastante sobre essas questões.