Ética a Nicômaco - Livro I 2

O bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude

O bem supremo e a ciência mais alta que o estuda

Suponha, então, que exista um fim para tudo o que fazemos, algo que desejamos por si mesmo (e tudo o mais é desejado em função dele). Se nem tudo o que escolhemos é escolhido em vista de outra coisa (pois nesse caso o processo iria ao infinito, e o nosso desejo ficaria vazio e sem sentido), então é claro que esse fim deve ser o bem, o bem supremo.
Conhecer esse bem não teria, portanto, grande influência sobre a vida? Não teríamos mais chance de acertar o alvo, como arqueiros que têm um ponto certo para mirar? Se é assim, precisamos tentar determinar, ao menos em linhas gerais, o que esse bem é, e de qual ciência ou capacidade ele é o objeto de estudo.
Esse estudo parece pertencer à arte mais importante e que de fato comanda as demais. E a política tem esse caráter, pois é ela que decide quais ciências devem ser estudadas em uma cidade, quais delas cada grupo de cidadãos deve aprender e até que ponto deve aprendê-las. Vemos até as capacidades mais valorizadas ficarem sob seu comando, por exemplo a estratégia militar, a administração e a retórica.
Ora, que a política se serve de todas as outras ciências, e que ela determina por lei o que devemos fazer e do que devemos nos abster, o fim que ela busca abrange os fins de todas as outras. Por isso esse fim deve ser o bem do ser humano.
Pois mesmo que esse fim seja o mesmo para um indivíduo e para uma cidade, o da cidade parece ser algo maior e mais completo, tanto na hora de alcançá-lo quanto na de preservá-lo. Vale a pena alcançar esse bem para uma pessoa, mas alcançá-lo para um povo ou para cidades inteiras é algo mais belo e mais próximo do divino.
São esses, então, os fins a que se dirige a nossa investigação, que é, num certo sentido da palavra, uma ciência política.