Ética a Nicômaco - Livro I 11

O bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude

A sorte dos vivos afeta os mortos?

Dizer que a sorte dos descendentes e de todos os amigos de uma pessoa não afeta em nada a felicidade dela parece uma ideia muito fria, e contrária ao que as pessoas costumam pensar.
Mas como os acontecimentos são muitos e variam de todas as maneiras, e alguns nos tocam mais de perto e outros menos, discutir cada caso em detalhe seria uma tarefa longa, ou melhor, infinita. Um esboço geral talvez baste.
Então, assim como alguns dos próprios infortúnios de uma pessoa têm certo peso e influência sobre a vida, enquanto outros são, por assim dizer, mais leves, o mesmo vale para os infortúnios dos seus amigos em conjunto. E faz diferença se cada tipo de sofrimento atinge os vivos ou os mortos (faz diferença ainda maior do que distinguir se atos cruéis e ilegais são apenas pressupostos numa tragédia ou de fato encenados no palco). Essa diferença também precisa ser levada em conta.
Ou melhor, talvez se deva primeiro considerar a dúvida sobre se os mortos têm alguma participação no bem ou no mal.
Pois parece, a partir dessas considerações, que mesmo se algo, bom ou mau, chega até eles, deve ser algo fraco e sem importância, seja em si mesmo, seja para eles. E se não for assim, ao menos deve ser de tal grau e tipo que não torne felizes os que não são felizes, nem retire a plenitude daqueles que a têm.
A boa ou a sorte dos amigos, portanto, parece ter algum efeito sobre os mortos, mas efeitos de um tipo e de um grau que não tornam infelizes os que são felizes, nem produzem qualquer outra mudança desse gênero.