Capítulos

Atos de Tomé

Autoria e Data de Composição

Os Atos de Tomé são um romance cristão apócrifo que narra a pregação e o martírio do apóstolo Tomé na Índia. A obra é anônima. O consenso majoritário data a composição da primeira metade do século III (por volta de 200 a 250) e a situa em Edessa, na Síria oriental, com o siríaco como língua original, depois traduzida ao grego. Esse consenso não é unânime: parte da erudição recente defende um original grego e datação no século II. O texto pertence ao grupo dos cinco grandes Atos apócrifos dos apóstolos (Pedro, Paulo, João, André e Tomé), e é o único deles que sobreviveu completo; dos outros quatro restam apenas fragmentos.

Conteúdo Principal

A obra se divide em treze Atos e o Martírio. A edição inglesa de M. R. James, base desta tradução, não traz um Terceiro Ato separado: o episódio da serpente está incorporado ao Segundo, de modo que a numeração dos Atos no título de cada capítulo nem sempre coincide com o número do capítulo.

    A missão na Índia

  • Os apóstolos repartem o mundo; a Índia cabe a Tomé, que é vendido como escravo carpinteiro ao mercador Abanes(Atos de Tomé 1)
  • Tomé recebe ouro do rei Gundáforo para construir um palácio e o gasta com os pobres, erguendo um palácio no céu; o episódio da serpente(Atos de Tomé 2)
  • O jumentinho que fala e proclama a dignidade do apóstolo(Atos de Tomé 3)
  • Milagres e conversões

  • O demônio expulso da mulher(Atos de Tomé 4)
  • O jovem que matou a mulher por recusar a continência(Atos de Tomé 5)
  • Os jumentos selvagens que servem ao apóstolo(Atos de Tomé 7)
  • A conversão de Migdônia, esposa de Carísio; neste Ato está inserido o Hino da Pérola(Atos de Tomé 8)
  • A corte do rei e o martírio

  • A conversão de Tércia, esposa do rei Misdeu(Atos de Tomé 10)
  • A conversão de Vazã, filho do rei(Atos de Tomé 11)
  • O martírio: Tomé é traspassado por lanças, a mando de Misdeu(Atos de Tomé 12)

O Hino da Pérola

Dentro do nono Ato está inserido o chamado Hino da Pérola (também Hino da Alma), uma alegoria do filho de rei enviado ao Egito para resgatar uma pérola guardada por uma serpente, lida como imagem da alma que desce ao mundo e precisa recordar sua origem. O hino é mais antigo que os Atos e independente da narrativa, inserido nela depois. A tradição o atribui a Bardesanes (Bardaisan) de Edessa, mas a atribuição é contestada e o autor permanece, a rigor, desconhecido. Ele aparece em apenas dois testemunhos: um manuscrito grego e a versão siríaca.

Tendências Encratitas e Gnósticas

Os Atos de Tomé carregam forte ênfase encratita: o apóstolo persuade casais à renúncia do casamento e do sexo, e boa parte dos conflitos da trama nasce dessa pregação da continência. Há também elementos dualistas e gnósticos, como a ideia da alma resgatada deste mundo e traços de uma cristologia em que Cristo aparece sob várias formas. Por isso a obra circulou tanto entre grupos considerados heréticos quanto na Igreja majoritária, que a usou com reservas. Os manuscritos siríacos que sobreviveram foram editados para suavizar as passagens encratitas mais radicais, de modo que, nesses pontos, o texto grego costuma preservar um estado mais antigo.

Manuscritos

O texto sobrevive em grego e em siríaco, além de versões secundárias em latim, armênio e etíope. O principal manuscrito grego que preserva o conjunto, incluindo o Hino da Pérola, é o Vallicellianus B 35 (Roma, século XI), designado "U" na edição de Maximilien Bonnet. O siríaco foi editado e traduzido por William Wright em Apocryphal Acts of the Apostles (1871). Há discussão sobre qual versão está mais próxima do original, ligada ao próprio debate sobre a língua de composição.

A Tradição de Tomé na Índia

Os Atos de Tomé são a fonte literária mais antiga da tradição de que o apóstolo evangelizou a Índia. Os Cristãos de São Tomé, comunidade do Malabar (atual Kerala), reivindicam origem apostólica, e há presença cristã antiga no sul da Índia atestada de forma independente da lenda. Ainda assim, a historiografia é cautelosa: a viagem de Tomé à Índia e seu martírio em Mylapore não podem ser comprovados, e a maior parte dos detalhes do romance pertence ao gênero, não ao registro histórico. O que se pode afirmar é mais modesto: uma comunidade cristã real e antiga preserva a memória de uma origem apostólica que a evidência não confirma nem refuta.

O Martírio

No desfecho, Tomé converte a rainha Tércia e Vazã, filho do rei Misdeu, além de outras pessoas da corte. Irado, o rei ordena a execução do apóstolo: levado a uma colina por soldados, Tomé é traspassado por lanças. O relato é coerente com o padrão dos Atos apócrifos, em que o martírio do herói é o clímax narrativo, e deve ser lido como tradição piedosa, não como crônica documental.