Leviatã na Bíblia: o monstro do caos em Jó 41

Monstro marinho serpentino de escamas encaixadas como escudos, tochas de fogo saindo da boca e fumaça espessa das narinas

Leviatã é o monstro marinho que a Bíblia hebraica usa como imagem do caos primordial, não um demônio no sentido de espírito que possui pessoas. Nenhum texto do Antigo Testamento o chama de espírito imundo, ninguém é exorcizado dele e o Novo Testamento nunca o nomeia. O que os textos descrevem é uma criatura enorme das águas: ora despedaçada por Deus num combate do passado, ora domesticada como bicho que brinca no mar, ora reservada para uma execução no fim dos tempos. A associação com demonologia é posterior, e vem por dois caminhos rastreáveis: a leitura cristã medieval de Jó 41 e as listas de demônios dos séculos XVI a XIX. O assunto do texto hebraico é outro: a soberania de Deus sobre o mar, que no Antigo Oriente Próximo era a metáfora corrente para aquilo que escapa ao controle.

O nome: "o enrolado"

O hebraico é liwyatan (לִוְיָתָן). A derivação mais aceita liga a palavra à raiz lwh, "torcer", "enrolar", com o sufixo aumentativo -an: algo como "o retorcido", "o que se enrola". A forma não é exclusiva de Israel. O mesmo nome aparece em textos ugaríticos do século XIII a.C. como ltn (vocalizado Lotã ou Litan), o que indica um termo herdado do repertório cananeu comum, e não um neologismo bíblico.

As versões antigas já não sabiam bem o que fazer com ele. A Septuaginta traduz por drakon (dragão) nos Salmos e em Jó 41, mas em Jó 3:8 usa to mega ketos, "o grande cetáceo". A Vulgata transliterou como Leviathan em alguns pontos e traduziu por draco em outros. Traduções portuguesas variam entre transliterar, dizer "dragão" e, em Jó 3:8, abandonar o monstro por completo.

Jó 41: a descrição mais longa de uma criatura na Bíblia

O texto está no segundo discurso de Deus a Jó. Na numeração hebraica massorética a seção começa em Jó 40:25 e vai até 41:26; nas Bíblias cristãs, corresponde a Jó 41:1-34. São mais de trinta versos dedicados a um único animal, sem paralelo em extensão em todo o cânon. O argumento retórico é simples: se Jó não consegue nem pescar essa criatura, com que autoridade questiona quem a fez.

1 Poderás tirar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com uma corda?

2 Podes pôr um anzol no seu nariz, ou com um gancho furar a sua queixada?

3 Porventura multiplicará as súplicas para contigo, ou brandamente falará?

4 Fará ele aliança contigo, ou o tomarás tu por servo para sempre?

5 Brincarás com ele, como se fora um passarinho, ou o prenderás para tuas meninas?

6 Os teus companheiros farão dele um banquete, ou o repartirão entre os negociantes?

7 Encherás a sua pele de ganchos, ou a sua cabeça com arpões de pescadores?

8 Põe a tua mão sobre ele, lembra-te da peleja, e nunca mais tal intentarás.

A descrição física é dividida em blocos. Primeiro a couraça: escamas sobrepostas, fechadas como com selo, tão justas que o ar não passa entre elas. Depois a cabeça: dentes cercados de terror, espirros que fazem resplandecer luz, olhos comparados às pálpebras da alva. E então o traço que mais complica qualquer leitura naturalista, o fogo.

13 Quem descobrirá a face da sua roupa? Quem entrará na sua couraça dobrada?

14 Quem abrirá as portas do seu rosto? Pois ao redor dos seus dentes está o terror.

15 As suas fortes escamas são o seu orgulho, cada uma fechada como com selo apertado.

16 Uma à outra se chega tão perto, que nem o ar passa por entre elas.

17 Umas às outras se ligam; tanto aderem entre si, que não se podem separar.

18 Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva.

19 Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela.

20 Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira.

21 O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chama.

O terceiro bloco é o arsenal humano falhando. Espada, lança, dardo e flecha não penetram. O ferro é palha, o cobre é pau podre, as pedras de funda viram restolho. Em seguida o texto sai da anatomia e vai para o efeito cósmico: a criatura faz o abismo ferver e deixa um rastro branco atrás de si.

26 Se alguém lhe tocar com a espada, essa não poderá penetrar, nem lança, dardo ou flecha.

27 Ele considera o ferro como palha, e o cobre como pau podre.

28 A seta o não fará fugir; as pedras das fundas se lhe tornam em restolho.

29 As pedras atiradas são para ele como arestas, e ri-se do brandir da lança;

30 Debaixo de si tem conchas pontiagudas; estende-se sobre coisas pontiagudas como na lama.

31 As profundezas faz ferver, como uma panela; torna o mar como uma vasilha de ungüento.

32 Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.

O fecho é uma declaração de status, não de zoologia. Nada na terra se compara a ele, e ele é chamado rei sobre todos os filhos da soberba. Essa última linha é a que mais alimentou a leitura alegórica posterior, porque "soberba" é categoria moral, não biológica.

33 Na terra não coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor.

34 Ele tudo que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba.

A identificação com o crocodilo do Nilo é antiga e continua defendida. Samuel Bochart a sustentou no século XVII, e ela explica bem escamas, couraça e a impossibilidade de arpoar o bicho. Explica mal o fogo da boca, a fumaça das narinas e o fato de o animal habitar o mar, não o rio. Comentaristas modernos se dividem: parte lê Jó 41 como descrição hiperbólica de um animal real, parte como retrato do monstro mítico do caos, e parte como as duas coisas ao mesmo tempo, um crocodilo carregado de vocabulário mitológico. Não há consenso, e o texto não decide a questão.

As aparições no Antigo Testamento

O Salmo 74 é o texto mais claramente mítico. É um lamento nacional depois da destruição do santuário, e o salmista apela a um feito passado de Deus: ele dividiu o mar, quebrou cabeças de monstros aquáticos e despedaçou as cabeças do Leviatã. O plural "cabeças" é significativo. Uma criatura de várias cabeças não é um animal de zoologia, é uma figura de repertório mitológico.

13 Tu dividiste o mar pela tua força; quebrantaste as cabeças das baleias nas águas.

14 Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por mantimento aos habitantes do deserto.

O Salmo 104 faz o movimento contrário e é o verso mais surpreendente da série. Num hino sobre a ordem da criação, Leviatã aparece entre os navios, como criatura que Deus formou para brincar. O hebraico admite duas leituras: "para nele folgar", isto é, para o monstro brincar no mar, ou "para brincar com ele", com Deus como sujeito. Nas duas leituras o efeito é o mesmo, uma demoção deliberada. O terror das águas vira animal de estimação do Criador.

26 Ali andam os navios; e o leviatã que formaste para nele folgar.

Isaías 27:1 joga o combate para o futuro. O verso abre com "naquele dia", fórmula escatológica, e anuncia que Deus punirá com a espada o Leviatã. Está na seção de Isaías 24-27, que boa parte da crítica considera acréscimo tardio ao livro, embora a datação seja disputada. Aqui aparecem os dois epítetos que amarram o texto bíblico ao material ugarítico: a serpente veloz (ou fugidia) e a serpente tortuosa.

1 Naquele dia o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão, que está no mar.

Jó 3:8 é o mais obscuro dos cinco. Jó amaldiçoa o dia em que nasceu e invoca especialistas em maldição, "os que estão prontos para despertar o Leviatã". O consonantal hebraico é o mesmo que nos outros textos, mas a tradição de tradução se divide: parte lê liwyatan, o monstro, e parte lê a palavra como ligada a luto ou pranto, caminho seguido pela Almeida Corrigida Fiel e pela King James. Se a leitura "Leviatã" estiver certa, o verso pressupõe algo mais inquietante: profissionais capazes de acordar o monstro adormecido.

8 Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia, que estão prontos para suscitar o seu pranto.

Ao lado de Leviatã circula um segundo nome para o mesmo tipo de adversário aquático: Raabe. Ele aparece esmagado em Salmo 89:10, ferido em Jó 26:12 e retalhado em Isaías 51:9, sempre no mesmo padrão de combate primordial. Em Isaías 30:7 e no Salmo 87:4, Raabe já é usado como apelido do Egito, o que mostra o passo seguinte do vocabulário: o monstro do caos vira metáfora política para o império opressor.

10 Tu quebraste a Raabe como se fora ferida de morte; espalhaste os teus inimigos com o teu braço forte.

TextoO que Leviatã é aliSituação
Jó 41Criatura descrita por Deus em detalhe, invencível para o homemVivo e intocado
Salmo 74:13-14Monstro de várias cabeças, despedaçado e servido como alimentoDerrotado no passado
Salmo 104:26Criatura formada por Deus para brincar no marDomesticado
Isaías 27:1Serpente veloz e tortuosa, dragão que está no marDerrota anunciada para o futuro
Jó 3:8Poder que especialistas em maldição ousariam acordarAdormecido (leitura disputada)

Lotã em Ugarit e Tiamat na Babilônia

A descoberta de Ras Shamra, a partir de 1929, mudou a discussão. As tábuas ugaríticas do Ciclo de Baal, escritas por volta do século XIII a.C., trazem um monstro chamado ltn, morto no contexto do conflito entre Baal e o deus do mar Yam. O texto (KTU 1.5 I) o descreve como bthn brh, a serpente fugidia, e bthn aqltn, a serpente tortuosa, além de mencionar um adversário de sete cabeças. Isaías 27:1 tem os dois epítetos praticamente palavra por palavra em hebraico, nahash bariah e nahash aqallaton, e o Salmo 74:14 fala de cabeças no plural. É um dos paralelos lexicais mais próximos já estabelecidos entre a literatura ugarítica e a Bíblia hebraica, e a relação é aceita de forma ampla, inclusive por comentaristas conservadores. O que continua em debate é a natureza dela: empréstimo direto, herança de um estoque poético cananeu comum, ou reaproveitamento polêmico do vocabulário para negar o panteão vizinho.

ElementoCiclo de Baal (ugarítico)Bíblia hebraica
Nomeltn (Lotã / Litan)liwyatan (Leviatã)
Epíteto 1bthn brh, serpente fugidianahash bariah, serpente veloz (Is 27:1)
Epíteto 2bthn aqltn, serpente tortuosanahash aqallaton, serpente tortuosa (Is 27:1)
Cabeçasadversário de sete cabeças"as cabeças do leviatã", no plural (Sl 74:14)
Quem mataBaal / Anato SENHOR

O segundo paralelo é babilônico e mais distante. No Enuma Elish, épico da criação copiado em tábuas do primeiro milênio a.C. mas de composição anterior, Marduk enfrenta Tiamat, o mar primordial, esmaga o crânio dela e parte o cadáver em duas metades para construir o céu. A estrutura é a mesma que aparece no Salmo 74: o cosmos se organiza depois que a divindade vence a água. O eco verbal também é sugestivo, já que o Salmo 74 fala em despedaçar cabeças e o épico em esmagar o crânio.

129 E o senhor ficou de sobre a parte traseira de Tiamat,

130 e com sua clava impiedosa esmagou o crânio dela.

131 Cortou os canais do sangue dela,

132 e fez o vento Norte levá-lo para lugares ocultos.

133 Seus pais contemplaram, regozijaram-se e se alegraram;

134 presentes e dádivas trouxeram a ele.

135 Então o senhor descansou, contemplando o corpo morto dela,

136 enquanto dividia a carne do [...] e arquitetava um plano astuto.

137 Partiu-a em duas metades, como um peixe achatado;

138 uma metade dela estabeleceu como cobertura para o céu.

Aqui vale hedge honesto, porque a comparação é frequentemente esticada demais. Tiamat não é descrita como serpente no épico: ela é o mar personificado, e a imagem de dragão vem de reconstruções modernas. A velha tese de que o tehom de Gênesis 1:2, o "abismo", derivaria do nome Tiamat foi abandonada por razões linguísticas: as duas palavras descendem de uma raiz semítica comum para "mar", e uma não vem da outra. David Toshio Tsumura e outros argumentam que Gênesis 1 não tem combate nenhum, e que a leitura de "luta contra o caos" foi projetada sobre o capítulo desde Hermann Gunkel, em 1895. O paralelo forte de Leviatã é Ugarit; a Babilônia oferece o padrão narrativo geral, não a genealogia da palavra.

O banquete do fim: Leviatã vira comida

No judaísmo do Segundo Templo, o monstro que Deus já derrotou é reprogramado para o futuro. Em vez de inimigo cósmico, Leviatã vira o prato principal do banquete dos justos no fim dos tempos, e essa inversão é a última etapa da sua demoção: primeiro despedaçado, depois domesticado, por fim servido. O Salmo 74:14 já ensaiava isso ao dizer que Deus o deu "por mantimento". Em 1 Enoque, o monstro é dividido em par: Leviatã é a fêmea das profundezas do mar, e Beemote o macho do deserto seco, entidade que tem página própria e cuja tradição corre em paralelo à daqui.

11 Naquele dia dois monstros serão distribuídos como alimento, um monstro fêmea, cujo nome é Leviatã, habitando nas profundezas do mar, acima das fontes de águas;

12 E um monstro macho, cujo nome é Beemote, o qual possui, movendo-se em seu ventre, no deserto invisível.

13 Cujo nome era Duidain.

14 A leste do jardim, onde os eleitos e os justos habitarão, onde ele recebeu-o de meu ancestral, desde Adão o primeiro dos homens, cujo homem o Senhor Deus fez.

15 Então eu pedi a outro anjo que me mostrasse o poder daqueles monstros, como eles se separaram naquele mesmo dia, um estando nas profundezas do mar, e o outro no seco deserto.

16 E ele disse: Tu, filho do homem, estás aqui desejoso de entendimento das coisas secretas.

17 E o anjo da paz, o qual estava comigo disse: Estes dois monstros estão preparados pelo poder de Deus para tornarem-se alimento, para que a punição de Deus não seja em vão.

4 Esdras, obra apocalíptica do final do século I d.C., repete o esquema com uma justificativa cosmológica: Leviatã recebe a parte úmida da criação porque as águas não comportavam os dois, e fica guardado até o dia em que Deus o entregar para ser devorado. A tradição rabínica levaria isso adiante, e o Talmude (Baba Batra 74b-75a) descreve o banquete dos justos com a carne de Leviatã e uma tenda feita da sua pele. Repare no efeito acumulado: em nenhuma dessas fontes ele tenta possuir alguém ou seduzir alguém ao pecado. Ele é um recurso guardado na despensa de Deus.

49 Então preservaste duas criaturas viventes; a uma chamaste Beemote, e a outra chamaste Leviatã;

50 e separaste uma da outra, pois a sétima parte, onde a água estava ajuntada, não podia conter as duas.

51 A Beemote deste uma parte, que foi secada no terceiro dia, para que habitasse nela, onde mil montes;

52 mas a Leviatã deste a sétima parte, isto é, a úmida; e os tens guardado para serem devorados por quem tu quiseres, e quando quiseres.

O que a demonologia antiga realmente diz

Vale checar o catálogo demonológico judaico-cristão mais antigo que sobreviveu, o Testamento de Salomão (datado entre os séculos I e IV d.C.), onde Salomão interroga e sela dezenas de demônios um a um. Leviatã não está entre os interrogados. Ele aparece uma única vez, e do outro lado do balcão: o arcanjo Uriel ordena ao Leviatã do mar que suba do abismo para forçar um demônio resistente a se submeter. Ou seja, mesmo numa obra inteiramente dedicada a classificar espíritos, Leviatã segue funcionando como fera marítima sob comando divino, não como demônio arrolado na lista.

21 “Peço-te, rei Salomão, que me deixe ir livre; e trarei a você todos os demônios. E como ele não estava disposto a se sujeitar a mim, orei para que o arcanjo Uriel viesse e ajudasse em minha angústia";

22 e imediatamente vi o arcanjo Uriel descendo dos céus para mim.

23 E o anjo ordenou ao Leviatã do mar que saísse do abismo. E ele murchou suas espécies e lançou seu destino no chão.

24 E ele ordenou ao grande demônio e ao ousado Ornias, que completasse a construção do Templo. E consequentemente, eu Salomão, glorifiquei o Deus do céu e o Criador da Terra.

Da boca do inferno aos grimórios

A virada acontece na exegese cristã latina. Gregório Magno, nos Moralia in Iob (fim do século VI), lê o Leviatã de Jó 41 como figura de Satanás, e o anzol do primeiro verso como imagem da encarnação: a humanidade de Cristo seria a isca no anzol da divindade, engolida pelo diabo, que morde e fica preso. A metáfora do anzol já circulava antes, em Gregório de Nissa, e virou uma das teorias medievais da expiação. A partir daí Jó 41 deixa de descrever um animal e passa a descrever o inimigo.

A arte levou a leitura ao literal. Do século XI em diante, o inferno passa a ser representado na Europa como uma bocarra de monstro escamoso engolindo os condenados, motivo conhecido como hellmouth, boca do inferno, especialmente comum na iluminura inglesa (o Saltério de Winchester, por volta de 1150, tem um exemplo célebre) e depois no teatro de mistério, onde a boca virava cenário de madeira e lona. Os dentes cercados de terror e o fogo da boca em Jó 41 forneceram o desenho pronto.

Nos grimórios propriamente ditos o resultado é mais modesto do que a cultura pop sugere. A Chave Menor de Salomão e sua lista de setenta e dois espíritos não trazem Leviatã. Ele entra por outra porta, a das classificações eruditas da caça às bruxas e da demonologia impressa: Peter Binsfeld, em 1589, associa cada pecado capital a um demônio e dá a inveja a Leviatã; Sébastien Michaelis, em 1612, o coloca no primeiro escalão, como tentador à heresia; e o Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy (a partir de 1818) o promove a grande almirante do inferno, cargo que combina com a origem marítima e que não tem base textual nenhuma. Vale registrar ainda o desvio secular: o Leviathan de Thomas Hobbes, de 1651, usa o monstro de Jó 41 como imagem do Estado, justamente porque era o poder que nenhum indivíduo consegue enfrentar sozinho.

Então Leviatã é demônio?

Depende inteiramente de qual camada da tradição se está lendo, e a resposta honesta separa as camadas. Na Bíblia hebraica, não: é um monstro do mar, criatura do repertório cananeu, usada para dizer que o descontrole tem dono. Na literatura apocalíptica judaica, também não: é uma fera guardada para o banquete final. No cristianismo latino a partir de Gregório Magno, sim, por leitura alegórica de Jó 41, e é dessa camada que vem tudo o que a cultura popular associa ao nome. Quem procura em Jó 41 um manual sobre possessão está lendo o comentário do século VI, não o texto.