
Beemote não é um demônio. É uma criatura, feita por Deus como Jó foi feito, e é o segundo dos dois monstros que Deus exibe a Jó no discurso final do livro: primeiro o gigante da terra firme, depois o do mar. Ele aparece em uma única passagem da Bíblia, Jó 40:15-24, e nunca é apresentado como inimigo espiritual, tentador ou anjo caído. É um animal descrito em detalhe anatômico, com lombos, ventre, ossos, cauda e nariz, que pasta capim e se deita no barro.
Duas grafias circulam para a mesma criatura, e vale resolver isso logo. "Beemote" é a forma que as traduções brasileiras e a Wikipédia em português usam. "Behemoth" é a transliteração do hebraico בְּהֵמוֹת que se firmou em inglês (via King James e Vulgata) e que chega ao público brasileiro por filmes, jogos, metal e literatura fantástica. Não são dois seres, nem duas tradições: é a mesma palavra hebraica, no mesmo versículo. Se você procurou por "Behemoth", o texto bíblico que você quer é o que está abaixo sob o nome "beemote".
Beemote, Behemoth ou hipopótamo: o que cada tradução escreve
As versões em português divergem em Jó 40:15, e a divergência é editorial, não textual. Algumas transliteram o hebraico e deixam a identificação em aberto; a Almeida Revista e Atualizada decide a questão dentro do próprio texto e escreve "hipopótamo". Quem lê a ARA nem percebe que existe um nome próprio ali.
| Versão | Jó 40:15 | Jó 40:17 (a cauda) |
|---|---|---|
| ACF | "Contemplas agora o beemote" | "Quando quer, move a sua cauda como cedro" |
| ARA | "Contempla agora o hipopótamo" | "Endurece a sua cauda como cedro" |
| NVI | "Veja o Beemote que criei" | "A cauda dele balança como o cedro" |
| BKJF | "Contempla agora o beemote" | "Ele move sua cauda como o cedro" |
| TNM | "Veja o Beemote" | "Ele endurece a cauda como um cedro" |
| KJV (inglês) | "Behold now behemoth" | "He moveth his tail like a cedar" |
Repare que a divergência não para no nome. O verbo do versículo 17 aparece como "move", "endurece" e "balança" nas três principais versões brasileiras. O hebraico usa yaḥpōṣ, de raiz rara nesse sentido, e as traduções escolhem entre "enrijece" e "agita". A escolha importa para o debate sobre que animal é esse, como se vê adiante.
O texto: Jó 40:15-24
15 Contemplas agora o beemote, que eu fiz contigo, que come a erva como o boi.
16 Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder nos músculos do seu ventre.
17 Quando quer, move a sua cauda como cedro; os nervos das suas coxas estão entretecidos.
18 Os seus ossos são como tubos de bronze; a sua ossada é como barras de ferro.
19 Ele é obra-prima dos caminhos de Deus; o que o fez o proveu da sua espada.
20 Em verdade os montes lhe produzem pastos, onde todos os animais do campo folgam.
21 Deita-se debaixo das árvores sombrias, no esconderijo das canas e da lama.
22 As árvores sombrias o cobrem, com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam.
23 Eis que um rio transborda, e ele não se apressa, confiando ainda que o Jordão se levante até à sua boca.
24 Podê-lo-iam porventura caçar à vista de seus olhos, ou com laços lhe furar o nariz?
O retrato é coerente e concreto. É herbívoro: come erva como o boi. É pesado: a força está nos lombos e no ventre, os ossos são tubos de bronze e barras de ferro. É anfíbio ou ribeirinho: deita entre canas, lama e salgueiros do ribeiro, e um rio transbordando não o assusta, ainda que o Jordão lhe suba à boca. E é incapturável por meios humanos: ninguém o pega à vista dos olhos nem lhe fura o nariz com laço.
Dois detalhes carregam peso teológico. Beemote é chamado "obra-prima dos caminhos de Deus" (a expressão hebraica é literalmente "primeiro dos caminhos de El"), e só quem o fez pode aproximar-se dele com a espada. E os montes lhe produzem pasto, o que é estranho para um bicho de brejo e é um dos pontos onde a leitura puramente zoológica trava.
19 Ele é obra-prima dos caminhos de Deus; o que o fez o proveu da sua espada.
20 Em verdade os montes lhe produzem pastos, onde todos os animais do campo folgam.
Etimologia: behemah e o plural intensivo
A palavra é o plural de בְּהֵמָה (behemah), o termo hebraico comum para "besta", "animal", "gado" (é a mesma palavra usada nos relatos de criação para os animais domésticos). O plural regular seria behemot, "as bestas". Só que no contexto o verbo e os pronomes estão no singular: o texto fala de um indivíduo, não de um rebanho.
A explicação padrão das gramáticas é que se trata de um plural intensivo (também chamado plural de majestade ou de amplificação), recurso pelo qual o hebraico usa a forma plural para expressar grandeza ou plenitude de uma qualidade. O sentido resultante é algo como "a besta por excelência", "a bestialidade em pessoa", "o animal dos animais". Não é um nome próprio de origem: é um superlativo que virou nome.
Circula também uma etimologia egípcia, que derivaria o termo de uma expressão para "boi d'água" e assim resolveria a identificação com o hipopótamo por via linguística. Essa proposta é antiga e ainda aparece em literatura de divulgação, mas os léxicos hebraicos modernos a tratam com ceticismo, por dificuldades fonéticas e por falta de atestação da suposta expressão egípcia. O caminho pelo plural intensivo de behemah continua sendo o consenso.
As identificações zoológicas propostas
Desde pelo menos o século XVII, quando o naturalista e hebraísta Samuel Bochart defendeu a tese em sua obra sobre os animais da Bíblia, o hipopótamo é a candidata dominante entre comentaristas. Elefante e búfalo aparecem como alternativas, e a ARA já cristalizou a primeira opção dentro do texto. Nenhuma das três casa com todos os versículos.
| Proposta | A favor | Contra |
|---|---|---|
| Hipopótamo | Herbívoro; deita em canas e lama; permanece no rio quando ele transborda; massa e força no ventre; conhecido no Egito e ocasionalmente no vale do Jordão em época antiga | A cauda "como cedro" não descreve o rabo curto e fino do hipopótamo; não pasta em montes; "come erva como o boi" é genérico demais para singularizá-lo |
| Elefante | Massa, ossos "como barras de ferro", herbívoro, animal impossível de capturar com laço; a tromba já foi lida como o apêndice "como cedro" | Não se deita em brejo nem fica submerso quando o rio transborda; o texto diz cauda (zanav), não tromba; toda a cena aquática fica sem sentido |
| Búfalo ou boi selvagem | Pasta em montes; chafurda na lama; "come erva como o boi" fica quase literal | A cauda de novo; e o animal é caçável, o que contradiz o versículo 24; a hipérbole de "primeiro dos caminhos de Deus" fica desproporcional |
A cauda é o nó de toda a discussão. Nenhum dos três animais tem apêndice traseiro que sugira um cedro, e é por isso que o versículo 17 recebe tratamentos tão diferentes nas versões.
17 Quando quer, move a sua cauda como cedro; os nervos das suas coxas estão entretecidos.
Há três saídas em circulação. A primeira lê a comparação como rigidez, não comprimento: o animal enrija a cauda como um galho de cedro, e a imagem seria de tensão, não de tamanho. A segunda toma o verso como hipérbole poética, coerente com o resto do discurso divino, que não é um tratado de zoologia. A terceira, defendida por vários comentaristas modernos, lê o par de versículos como eufemismo sexual, descrevendo o vigor reprodutivo da besta; essa leitura ganha força pela segunda metade do verso, que a King James e a Bíblia King James Fiel vertem como "os tendões de suas pedras" (isto é, dos testículos), onde ACF, ARA e NVI preferem "coxas". As três saídas convivem na literatura, e a passagem permanece disputada.
A leitura criacionista: dinossauro ou saurópode
Uma leitura difundida em círculos criacionistas de terra jovem identifica Beemote com um dinossauro saurópode, do tipo braquiossauro ou diplodoco. Ela não é a posição da maioria dos comentaristas, mas é a interpretação que mais aparece em buscas em português, e vale registrar o que ela de fato argumenta.
O argumento é textual e tem um ponto real. A cauda "como cedro" é o dado que nenhuma identificação zoológica convencional explica bem, e uma cauda longa e espessa de saurópode explicaria a comparação sem esforço. Some-se a isso "primeiro dos caminhos de Deus" lido como "o maior animal terrestre que Deus fez", os ossos comparados a tubos de bronze e barras de ferro, e o fato de o texto insistir que nenhum homem o captura. A conclusão proposta é que o autor descreve de memória um animal que depois se extinguiu.
As objeções principais são duas. A primeira é científica: a datação radiométrica e o registro estratigráfico situam a extinção dos dinossauros não avianos há cerca de 66 milhões de anos, sem nenhum estrato em que fósseis de saurópode e artefatos humanos apareçam juntos, de modo que a leitura exige rejeitar a cronologia geológica inteira, não apenas reinterpretar um versículo. A segunda é literária: nos capítulos anteriores Deus enumera animais que Jó conhece e pode observar (leão, corvo, cabra montês, jumento selvagem, avestruz, cavalo, gavião, águia), e o argumento retórico depende disso, pois a força do discurso está em Jó reconhecer as criaturas e não conseguir dominá-las. Um animal desaparecido milênios antes quebraria a lógica da lista. Quem defende a leitura responde que o discurso é sobre o poder de Deus, não sobre o catálogo de Jó.
Beemote e o imaginário do combate contra o caos
Beemote não nasce do nada. A poesia do Antigo Oriente Próximo conhecia monstros primordiais que a divindade domina para que o mundo se sustente, e o discurso de Jó opera nesse repertório: a besta é indomável para o homem e trivial para quem a fez. O que interessa aqui é que a figura terrestre desse imaginário costuma ser bovina. Nos textos ugaríticos de Ras Shamra, entre os inimigos que a deusa Anat se gaba de ter abatido, ao lado da serpente de sete cabeças, aparece uma criatura chamada "o Novilho de El".
119 Esmaguei Ar[...], o Amado de El,
120 abati Atak, o Novilho de El.
O paralelo é sugestivo e vem sendo explorado desde o século XX por comentaristas que leem Beemote como figura mítica reciclada, e não como espécie do catálogo natural. Ele não é prova: os nomes ugaríticos são de leitura difícil e o texto de Jó não cita mito nenhum. Mas explica por que o autor escolheu uma imagem bovina para o poder terrestre, e por que a besta vem em par com o monstro do mar, Leviatã, cuja história tem argumento próprio e página própria.
O fim de Beemote: comida do banquete
A literatura judaica dos dois séculos em torno da era cristã levou o par adiante e lhe deu um destino. Em 1 Enoque, na seção das Parábolas, os dois monstros são separados no dia da criação, o macho no deserto seco e a fêmea nas profundezas do mar, e ambos ficam reservados para serem distribuídos como alimento no dia do julgamento.
11 Naquele dia dois monstros serão distribuídos como alimento, um monstro fêmea, cujo nome é Leviatã, habitando nas profundezas do mar, acima das fontes de águas;
12 E um monstro macho, cujo nome é Beemote, o qual possui, movendo-se em seu ventre, no deserto invisível.
17 E o anjo da paz, o qual estava comigo disse: Estes dois monstros estão preparados pelo poder de Deus para tornarem-se alimento, para que a punição de Deus não seja em vão.
4 Esdras conta a mesma coisa como episódio da criação, e é ainda mais explícito sobre a geografia: a Beemote coube a parte seca, "onde há mil montes", eco provável do Salmo 50:10 e resposta antiga ao problema dos montes que produzem pasto em Jó 40:20.
49 Então preservaste duas criaturas viventes; a uma chamaste Beemote, e a outra chamaste Leviatã;
50 e separaste uma da outra, pois a sétima parte, onde a água estava ajuntada, não podia conter as duas.
51 A Beemote deste uma parte, que foi secada no terceiro dia, para que habitasse nela, onde há mil montes;
52 mas a Leviatã deste a sétima parte, isto é, a úmida; e os tens guardado para serem devorados por quem tu quiseres, e quando quiseres.
A mesma tradição reaparece no Apocalipse Siríaco de Baruque e, mais tarde, no Talmude Babilônico, onde a carne dos dois vira o prato do banquete dos justos no mundo vindouro (nenhuma dessas obras está hospedada aqui, então ficam citadas sem link). Vale notar o que esse desdobramento faz e o que não faz: ele transforma Beemote em figura escatológica, mas continua tratando-o como criatura sob controle de Deus, jamais como espírito maligno. A associação de Beemote a um demônio é posterior, medieval e europeia, e nasce fora do texto bíblico.