Jó 41
Na terra não há coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor.
'Na terra não há coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor': o Leviatã é uma criatura, foi 'feito' por Deus. Aqui está a diferença crucial entre Jó e os mitos vizinhos. Nos textos ugaríticos de Ras Shamra (séc. XIV-XIII a.C.), o monstro marinho é um adversário divino que o deus tem de matar em combate (o chamado Chaoskampf, a luta contra o caos). No poema ugarítico do Ciclo de Baal, Mot lembra a Baal: 'Se você ferir Lotan, a serpente fugidia, destruir a serpente tortuosa, Shalyat das sete cabeças...', e em outra passagem a deusa Anat se vangloria: 'Não amordacei eu o Dragão? Esmaguei a serpente tortuosa, Shalyat, a de sete cabeças'. O nome ugarítico 'Lotan' corresponde linguisticamente ao hebraico 'liwyatan' (Leviatã), e is27:1 ('a serpente veloz... a serpente tortuosa') reproduz quase palavra por palavra os mesmos epítetos. A diferença teológica é que, em Jó, o monstro não é um rival do Criador a ser combatido; é mais um item do bestiário que YHWH exibe a Jó como obra sua e sob seu controle.
Ele vê tudo que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba.
'É rei sobre todos os filhos da soberba': o Leviatã coroa a criação dos seres altivos, e a leitura mais comum é que, se até essa fera suprema é súdita de Deus, então toda altivez humana (a de Jó incluída) está abaixo dele. O discurso encerra aqui, sem que o sofrimento de Jó tenha sido explicado: a resposta de YHWH é o tamanho da criação, não a razão da dor. O epílogo em prosa (cap. 42) é que trará a reviravolta, com Deus declarando que Jó 'falou o que é reto' e os amigos não (42:7), e restaurando-lhe os bens em dobro. Vale lembrar que as falas dos amigos ao longo do livro (a doutrina de que o sofrimento é castigo do pecado) são justamente o que o desfecho repudia, e não devem ser tomadas como a mensagem da obra.