Moloque e as crianças queimadas no Tofete

Tenda-santuário de nicho vazio sobre varas de transporte, com o alto de pedras enegrecido pelo fogo e brasas ainda acesas

Moloque é o nome sob o qual a Bíblia hebraica condena o sacrifício de crianças pelo fogo, praticado no Tofete, no vale de Ben-Hinom, junto a Jerusalém. Se Moloque era um deus com esse nome, ou se a palavra hebraica mlk designava o próprio tipo de oferenda, é a maior disputa acadêmica sobre a entidade: está aberta desde 1935 e continua sem consenso. O texto bíblico o trata como destinatário de culto. Proíbe entregar filhos a ele, atribui a Salomão a construção de um alto para ele, e faz Estêvão citá-lo diante do Sinédrio.

21 E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloque; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor.

Levítico volta ao assunto no capítulo 20 e escala a pena: dar da descendência a Moloque é crime capital por apedrejamento, e a culpa alcança quem finge não ver. O verbo que atravessa as passagens é he'evir, fazer passar, às vezes acompanhado de ba'esh, pelo fogo, às vezes não. Levítico 18:21 traz só "fazer passar", sem menção de fogo; Levítico 20 usa outro verbo, natan, dar da descendência; e é em 2 Reis e Jeremias que a fórmula aparece completa. Ela ocorre com o nome de Moloque colado e também sozinha, sem destinatário nomeado, quando os reis Acaz e Manassés fazem o próprio filho passar pelo fogo. Nenhuma passagem descreve o rito. Nenhuma descreve uma imagem.

2 Também dirás aos filhos de Israel: Qualquer que, dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam em Israel, der da sua descendência a Moloque, certamente morrerá; o povo da terra o apedrejará.

3 E eu porei a minha face contra esse homem, e o extirparei do meio do seu povo, porquanto deu da sua descendência a Moloque, para contaminar o meu santuário e profanar o meu santo nome.

4 E, se o povo da terra de alguma maneira esconder os seus olhos daquele homem, quando der, da sua descendência a Moloque, para não o matar,

5 Então eu porei a minha face contra aquele homem, e contra a sua família, e o extirparei do meio do seu povo, bem como a todos que forem após ele, prostituindo-se com Moloque.

Tofete é o nome do lugar, não do deus. Fica no vale do filho de Hinom (ge ben-hinnom), a ravina que contorna Jerusalém pelo oeste e pelo sul, e o topônimo, chegado ao grego pelo aramaico, virou geenna, a palavra do Novo Testamento para inferno. Josias profana o Tofete na reforma que 2 Reis situa no fim do século VII a.C., justamente para inviabilizar o rito. Jeremias descreve o mesmo lugar e nomeia os altos dali de maneira instável: em 7:31 são "os altos de Tofete", em 19:5 e 32:35 são "os altos de Baal". Em Jeremias 32:35 os dois nomes aparecem no mesmo versículo, um como dono do alto e outro como destinatário das crianças.

1 Reis atribui a Salomão um alto no monte a leste de Jerusalém, e aqui o próprio texto hebraico embaralha os nomes. O versículo 5 diz que Salomão seguiu Milcom, o deus dos amonitas. O versículo 7 diz que ele construiu o alto para Quemós, de Moabe, e para Moloque, dos filhos de Amom. Dois nomes para o deus do mesmo povo, a dois versículos de distância. A Septuaginta não lê um nome próprio no versículo 7, e sim "o rei deles", forma que corresponde a Milcom, e parte da tradição textual e das traduções católicas segue essa leitura. Parte dos comentadores conclui que Moloque e Milcom são a mesma divindade amonita sob grafias distintas; outra parte insiste que a Bíblia os distingue de propósito, já que 1 Reis 11:33 e Sofonias 1:5 nomeiam Milcom sem qualquer menção a fogo ou criança.

7 Então edificou Salomão um alto a Quemós, a abominação dos moabitas, sobre o monte que está diante de Jerusalém, e a Moloque, a abominação dos filhos de Amom.

PassagemUma leituraA outra leituraO que está em jogo
1 Reis 11:7ACF, ARA, NVI, BKJF e TNM: "Moloque"Ave-Maria e Bíblia Pastoral: "Melcom"Seguir o texto massorético (Moloque) ou a Septuaginta, que lê ali "o rei deles", isto é, Milcom, o deus nacional de Amom
Amós 5:26ACF: "a tenda de vosso Moloque"; BKJF: "o tabernáculo de vosso Moloque"ARA: "Sicute, vosso rei"; NVI: "o seu rei Sicute"; TNM: "seu rei Sicute"; Ave-Maria: "o tabernáculo de Sacut, vosso rei"Ler as consoantes mlk como nome divino ou como o substantivo comum "vosso rei", ao lado de Sicute ou Sacut, provável forma do deus mesopotâmico Sakkut
Levítico 18:21ACF: "para fazer passar pelo fogo perante Moloque"; BKJF: "passar pelo fogo perante Moloque"ARA: "para dedicar-se a Moloque"; NVI: "para serem sacrificados a Moloque"; TNM: "seja oferecido a Moloque"Se o rito matava a criança ou apenas a consagrava. O hebraico deste versículo traz só "fazer passar" (he'evir), sem o "pelo fogo" (ba'esh) que aparece em 2 Reis

Nome de deus ou nome de oferenda?

As consoantes são m-l-k, a raiz semítica de melek, rei. A vocalização massorética molek não combina com essa raiz: ela carrega as vogais de bosheth, vergonha, o mesmo tratamento que os escribas deram a nomes formados com Baal (Isbosete, Mefibosete). Pela explicação padrão, difundida desde o século XIX, os massoretas mandaram ler "rei" como "vergonha"; há quem conteste, alegando que a vogal o pode ser original, dado o molk atestado no oeste fenício. A consequência é técnica e pesada de qualquer modo: o texto consonantal, sozinho, diz apenas mlk, e em vários lugares poderia ser vertido "ao rei". Isaías 30:33 é o caso mais visível, com uma Tofete "preparada para o rei" (lammelek) que parte dos comentadores lê como "preparada para Moloque".

Em 1935 Otto Eissfeldt publicou Molk als Opferbegriff im Punischen und Hebräischen und das Ende des Gottes Moloch e propôs que o deus nunca existiu. O argumento vem de Cartago. Centenas de estelas púnicas usam mlk como termo técnico de sacrifício, não como nome divino, em construções do tipo mlk 'mr (molk de cordeiro) e mlk 'dm (molk de homem, ou seja, de criança). Transcrições latinas de inscrições do norte da África, como o molchomor das estelas de N'gaous, registram o termo com vogais, forma que sustenta a leitura molk. Se o hebraico usa a mesma palavra no mesmo sentido, Levítico 18:21 não proíbe entregar filhos a um deus chamado Moloque, e sim oferecê-los como sacrifício molk. Um dado reforça a tese: as estelas do tofete de Cartago são dedicadas a Baal Hamon e a Tanit. Nenhuma é dedicada a um deus Moloque.

A resposta principal veio de George Heider (1985) e John Day (1989). Eles observam que a gramática bíblica trata Moloque como pessoa: "prostituindo-se com Moloque" (Lv 20:5) é a linguagem reservada a deuses, não a ritos, e é improvável que redatores hostis confundissem o nome de um sacrifício com o de uma divindade. Há ainda um deus Malik ou Milku atestado em Ebla, Mari e Ugarite, associado ao mundo dos mortos e equiparado a Nergal em listas de deuses acádicas, embora a ligação direta dele com o mlk bíblico seja ela mesma discutida. Heider aceita metade da tese adversária: em contexto fenício e púnico mlk é mesmo um tipo de oferenda, só que, para ele, crescida do culto de um deus mais antigo. A arqueologia, por sua vez, sustenta menos do que se costuma dizer. Os tofetes púnicos existem e são inquestionáveis, com urnas de ossos cremados de recém-nascidos aos milhares em Cartago, Mótia, Sulcis e Tarros, mas o que eles significam está em disputa: a equipe de Jeffrey Schwartz argumentou (PLOS ONE, 2010; Antiquity, 2012) que as idades apontam para natimortos e mortalidade perinatal comum, isto é, cemitério infantil; em resposta, a equipe de Patricia Smith sustentou que a cremação encolhe o osso e que as idades foram subestimadas, e a de Paolo Xella reuniu a evidência textual e epigráfica a favor do sacrifício (ambas em Antiquity, 2013). A leitura hoje mais comum combina as duas pontas: houve sacrifício, e o recinto também recebeu crianças mortas por outras causas. Para o lado bíblico o dado incômodo é outro. Nenhuma instalação de tofete foi escavada no vale de Ben-Hinom, nem em qualquer sítio fenício do Levante; os tofetes conhecidos são todos do Mediterrâneo central. O rito que Levítico proíbe está atestado por texto, não por escavação. Heath Dewrell (2017) conclui que houve sacrifício infantil real em Israel e que ele teve mais de uma forma. O campo segue dividido, sem vencedor declarado.

Estêvão, diante do Sinédrio, cita Amós 5:25-27 e produz a única menção a Moloque no Novo Testamento. Ele cita pela Septuaginta, e é aí que os nomes se formam. O hebraico de Amós traz sikkut malkekem, que rende "Sicute, vosso rei", e kiyyun, provavelmente o nome babilônico do planeta Saturno (kayamanu, o constante). A Septuaginta tomou malkekem por nome próprio e escreveu Moloque; e kiyyun aparece nela como Raiphan, alteração que se costuma explicar por confusão gráfica entre as letras kaf e resh. Daí sai o "Renfã" que as Bíblias brasileiras imprimem em Atos e não imprimem em Amós, onde o mesmo nome aparece como Quium ou Caivã. A frase que a tradição leu como prova de um culto a Moloque no deserto é, tecnicamente, uma leitura grega de um texto hebraico difícil.

43 Antes tomastes o tabernáculo de Moloque,E a estrela do vosso deus Renfã, figuras que vós fizestes para as adorar.Transportar-vos-ei, pois, para além da Babilônia.

O Testamento de Salomão, obra grega de datação disputada (as propostas vão do século I ao V, com camadas posteriores evidentes), dá a Moloque um papel narrativo que a Bíblia não dá. No capítulo 28, Salomão se apaixona por uma jebuseia e os sacerdotes de Moloque põem o preço: adorar Remphan, o Renfã de Atos, e Moloque. Salomão recusa. A moça então o convence a esmagar cinco gafanhotos em nome de Moloque, um gesto mínimo, quase irrisório. Basta. O Espírito de Deus se retira, o rei fica "fraco e tolo", e termina construindo o templo dos ídolos. É uma releitura de 1 Reis 11 que desloca a causa da queda: não o harém político, e sim um único ato de culto ínfimo. Vale notar que o autor herda os nomes da Septuaginta, Moloque e Remphan juntos, o que indica dependência do texto grego de Amós ou de Atos, e não de uma tradição independente sobre a divindade.

9 Mas os sacerdotes de Moloque me disseram: “Se você ama esta donzela,

10 entre e adore nossos deuses, o grande deus Remphan e o deus chamado Moloque”.

11 Eu, portanto, estava com medo de que a glória de Deus desaparecesse de mim e não segui para o culto de adoração .

12 E eu disse a eles: “Não adorarei um deus estranho. Que proposta é essa, que tanto me obrigas a fazer?”

13 Mas eles disseram: “( Se realmente deseja ter a Aliana), você deve fazer o que pedimos se deseja tomar esta mulher como esposa, pois este costume foi estabelecido por nossos pais.”

14 E quando eu respondi que de forma alguma adoraria deuses estranhos,

15 eles disseram à donzela para não dormir comigo até que eu concordasse e sacrificasse aos deuses.

16 Então fiquei comovido, mas a astut a Aliana trouxe e colocou para mim cinco gafanhotos, dizendo:

17 “Pegue esses gafanhotos e esmague-os juntos em nome do deus Moloque; e então dormirei com você."

18 E isso eu realmente fiz.

19 E imediatamente o Espírito de Deus se afastou de mim e tornei-me fraco e tolo em minhas palavras.

20 E depois disso fui obrigado por ela a construir um templo de ídolos para Baal, e para os espíritos malignos, e para Moloque, e para os outros ídolos.

Resta separar texto de folclore. A tradição rabínica minimiza o rito: a Mixná (Sanedrin 7:7) só responsabiliza quem entrega ao culto e faz passar pelo fogo, Rashi explica a cena como o pai entregando a criança aos sacerdotes, que a conduzem entre duas fogueiras, sem morte, e Maimônides descreve entrega simbólica, com devolução. É leitura minoritária entre os historiadores atuais, que na maioria aceitam sacrifício de fato, mas é antiga e moldou séculos de exegese judaica. Já a estátua de bronze de braços estendidos que despeja crianças na fornalha não tem base bíblica nenhuma: vem de Diodoro Sículo (20.14) e de Clitarco, este preservado num escólio a Platão, que descrevem Cartago e um Cronos de bronze. Chega ao imaginário moderno por dois caminhos: o Moloque de John Milton em Paraíso Perdido (1667), no livro I, "rei horrendo, sujo do sangue de sacrifício humano", e o ídolo de cabeça monstruosa e peito escancarado do filme italiano Cabiria (1914), que fixou a imagem no cinema. Nenhuma fonte antiga descreve como era, ou se existia, uma imagem de Moloque em Jerusalém. O argumento mais amplo, de como os deuses das nações vizinhas passaram a ser lidos como demônios, é tratado em outra página deste tema.