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Contra as Heresias - Livro IV

Autoria e Data

Contra as Heresias, cujo título grego original era A Detecção e Refutação do Falso Conhecimento, foi escrita por Irineu, bispo de Lyon, na Gália. A obra é datada por volta de 180 d.C.; a margem precisa fica entre 174 e 189 d.C., porque a lista dos bispos de Roma que Irineu apresenta inclui Eleutério, mas ainda não o seu sucessor Vítor. O texto sobreviveu quase inteiro numa tradução latina antiga, com partes em grego conservadas por citações de autores posteriores. Os cinco livros foram concebidos como uma só obra: os dois primeiros expõem e refutam o sistema dos valentinianos e dos demais gnósticos, o terceiro argumenta a partir dos apóstolos, e o quarto, este, reúne as provas tiradas das palavras do próprio Senhor.

O Argumento do Livro IV

O Livro IV tem um eixo único: provar, pelas palavras de Cristo, que há um só Deus, o Criador do céu e da terra, que é ao mesmo tempo o Pai anunciado no Evangelho. Irineu escreve contra Marcião e os gnósticos, que dividiam a divindade em dois, um Criador inferior do Antigo Testamento e um Pai superior e desconhecido revelado por Jesus. A estratégia do livro é mostrar que o próprio Jesus, ao ensinar a chamar a um só Ser de Pai, ao confessar o Senhor do céu e da terra, e ao citar Moisés e os profetas como suas próprias palavras, identifica o seu Pai com o Criador. Para reforçar o ponto, Irineu cita uma obra hoje perdida de Justino Mártir contra Marcião.

O segundo grande tema é a unidade das duas alianças. Irineu sustenta que o Antigo e o Novo Testamento procedem do mesmo autor, que entregou uma lei de servidão aos escravos e uma lei de liberdade aos filhos, ampliando e cumprindo a primeira em vez de aboli-la. Trata também dos sacrifícios, dos tipos e da leitura figurada do Antigo Testamento, lendo episódios como Ló, Raabe e os patriarcas como prefigurações de Cristo e da Igreja.

O terceiro tema, e o mais influente, é a antropologia de Irineu. É aqui que se encontra a base do que os estudiosos modernos chamam de teodiceia irenaica, a ideia de que Deus criou o homem imperfeito e em crescimento, de propósito, para que amadurecesse rumo à perfeição pela própria escolha. Irineu insiste no livre-arbítrio: Deus não coage ninguém, criou o homem livre desde o princípio, e o mal e o juízo decorrem dessa liberdade. Deste livro vem a frase mais citada de Irineu, que a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem consiste em contemplar a Deus.

Conteúdo Principal

“Pois a glória de Deus é o homem vivente; e a vida do homem consiste em contemplar a Deus.”

Irineu de Lyon, Contra as Heresias - Livro IV 3:4

Recepção e Relevância

O Livro IV importa por dois motivos. Primeiro, é uma das defesas mais completas, no século II, da continuidade entre os dois Testamentos contra a tentativa de Marcião de separar o Deus criador do Pai de Jesus, debate que moldou a formação do cânon cristão. Segundo, a sua antropologia teve longa influência: a leitura de Irineu sobre o livre-arbítrio e o crescimento humano foi retomada no século XX como o modelo da teodiceia que leva o seu nome, oposto ao modelo agostiniano da queda a partir de um estado perfeito. Convém registrar que essa rotulação é moderna: Irineu não usava o termo, e há disputa erudita sobre quanto do esquema atribuído a ele corresponde ao que de fato escreveu e quanto é reconstrução posterior.