Contra as Heresias - Livro IV 1
As palavras do Senhor e a unidade das aliancas
Já que, portanto, isto é certo e firme, que nenhum outro Deus ou Senhor foi anunciado pelo Espírito, exceto aquele que, como Deus, governa sobre tudo, junto com o seu Verbo, e os que recebem o Espírito de adoção, isto é, os que creem no único e verdadeiro Deus, e em Jesus Cristo, o Filho de Deus; e, da mesma forma, que os apóstolos por si mesmos não chamaram a ninguém mais de Deus, nem nomearam a nenhum outro como Senhor; e, o que é muito mais importante, já que é verdade que o nosso Senhor agiu do mesmo modo, ele que também nos ordenou não confessar a ninguém como Pai, exceto àquele que está nos céus, que é o único Deus e o único Pai, ficam claramente mostradas como falsas as coisas que esses enganadores e sofistas perversíssimos apresentam, sustentando que o ser que eles mesmos inventaram é por natureza tanto Deus quanto Pai; mas que o Demiurgo não é por natureza nem Deus nem Pai, e que recebe esse nome apenas por cortesia (verbo tenus), por causa do seu domínio sobre a criação. Isto afirmam esses mitólogos perversos, dispondo os seus pensamentos contra Deus; e, pondo de lado a doutrina de Cristo, e adivinhando por si mesmos falsidades, disputam contra toda a dispensação de Deus. Pois sustentam que os seus Éons, e deuses, e pais, e senhores são ainda chamados de céus, junto com a sua Mãe, a quem também chamam de Terra, e Jerusalém, dando-lhe ainda muitos outros nomes. Ora, a quem não fica claro que, se o Senhor conhecesse muitos pais e deuses, não teria ensinado os seus discípulos a conhecer apenas um Deus e a chamar somente a ele de Pai? Mas ele preferiu distinguir os que são chamados de deuses apenas de nome (verbo tenus) daquele que é verdadeiramente Deus, para que eles não errassem quanto à sua doutrina, nem tomassem um pelo outro. E, se de fato nos ensinou a chamar a um só Ser de Pai e Deus, enquanto ele próprio, de tempos em tempos, confessa outros pais e deuses no mesmo sentido, então ele vai parecer impor aos seus discípulos um caminho diferente daquele que ele mesmo segue. Tal conduta, contudo, não revela o bom mestre, mas um mestre enganoso e malicioso. Os apóstolos, também, segundo a tese desses homens, ficam provados como transgressores do mandamento, já que confessam o Criador como Deus, e Senhor, e Pai, conforme mostrei, se ele não é o único Deus e Pai. Jesus, portanto, será para eles o autor e mestre de tal transgressão, na medida em que ordenou que apenas um Ser fosse chamado de Pai, impondo-lhes assim a necessidade de confessar o Criador como seu Pai, como já se apontou.