Contra as Heresias - Livro IV 3

As palavras do Senhor e a unidade das aliancas

Quanto à sua grandeza, portanto, não é possível conhecer a Deus, pois é impossível que o Pai seja medido; mas, quanto ao seu amor (pois é ele que nos conduz a Deus pelo seu Verbo), quando lhe obedecemos, aprendemos sempre que um Deus tão grande, e que é ele quem por si mesmo estabeleceu, escolheu, adornou e contém todas as coisas; e, entre todas as coisas, a nós mesmos e a este nosso mundo. Nós também, então, fomos feitos, juntamente com aquelas coisas que são contidas por ele. E este é aquele de quem a Escritura diz: E Deus formou o homem, tomando o barro da terra, e soprou em seu rosto o fôlego da vida. Não foram, portanto, anjos que nos fizeram, nem que nos formaram, nem tinham os anjos poder de fazer uma imagem de Deus, nem ninguém mais, exceto o Verbo do Senhor, nem qualquer Poder remotamente distante do Pai de todas as coisas. Pois Deus não precisou desses seres para realizar o que ele mesmo havia determinado consigo antecipadamente que deveria ser feito, como se não possuísse as suas próprias mãos. Pois com ele estavam sempre presentes o Verbo e a Sabedoria, o Filho e o Espírito, por quem e em quem, livre e espontaneamente, ele fez todas as coisas, a quem também ele fala, dizendo: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; tomando ele de si mesmo a substância das criaturas formadas, e o modelo das coisas feitas, e o tipo de todos os ornamentos do mundo. Verdadeiramente, então, declarou a Escritura, que diz: Antes de tudo, crê que um Deus, que estabeleceu todas as coisas e as completou, e que, fazendo com que do que não tinha ser todas as coisas viessem à existência, contém todas as coisas e por ninguém é contido. Com razão também disse Malaquias entre os profetas: Não é um Deus que nos estabeleceu? Não temos todos um Pai? De acordo com isso, também, diz o apóstolo: um Deus, o Pai, que está acima de todos e em todos nós. Do mesmo modo, o Senhor também diz: Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; manifestamente por aquele que fez todas as coisas; pois ele não lhe entregou as coisas de outro, mas as suas próprias. Mas em todas as coisas está implícito que nada lhe foi retido; e por essa razão a mesma pessoa é o Juiz dos vivos e dos mortos, tendo a chave de Davi: Ele abrirá, e ninguém fechará; ele fechará, e ninguém abrirá. Pois ninguém era capaz, nem no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, de abrir o livro do Pai ou de contemplá-lo, com exceção do Cordeiro que foi morto, e que nos redimiu com o seu próprio sangue, recebendo poder sobre todas as coisas do mesmo Deus que fez todas as coisas pelo Verbo, e as adornou pela sua Sabedoria, quando o Verbo se fez carne; para que, assim como o Verbo de Deus tinha a soberania nos céus, assim também tivesse ele a soberania na terra, visto que era um homem justo, que não cometeu pecado, nem se achou engano em sua boca; e para que tivesse a preeminência sobre as coisas que estão debaixo da terra, sendo ele mesmo feito o primogênito dentre os mortos; e para que todas as coisas, como disse, contemplassem o seu Rei; e para que a luz paterna se encontrasse com a carne do nosso Senhor e nela repousasse, e viesse a nós da sua carne resplandecente, e que assim o homem alcançasse a imortalidade, tendo sido revestido da luz paterna. Demonstrei também amplamente que o Verbo, isto é, o Filho, esteve sempre com o Pai; e que a Sabedoria, que é o Espírito, esteve com ele, anterior a toda criação, ele o declara por Salomão: Deus, pela Sabedoria, fundou a terra, e pelo entendimento estabeleceu o céu. Pelo seu conhecimento irromperam os abismos, e as nuvens destilaram o orvalho. E, novamente: O Senhor me criou no princípio dos seus caminhos, na sua obra. Ele me estabeleceu desde a eternidade, no princípio, antes de fazer a terra, antes de estabelecer os abismos, e antes que brotassem as fontes das águas; antes que os montes fossem firmados, e antes de todos os outeiros, ele me gerou. E, novamente: Quando ele preparou o céu, eu estava com ele, e quando estabeleceu as fontes do abismo; quando firmou os fundamentos da terra, eu estava com ele, preparando-os. Eu era aquele em quem ele se deleitava, e por todo o tempo eu me alegrava diariamente diante da sua face, quando ele se regozijava na conclusão do mundo e se deleitava nos filhos dos homens. Há, portanto, um Deus, que pelo Verbo e pela Sabedoria criou e ordenou todas as coisas; mas este é o Criador (Demiurgo) que concedeu este mundo à raça humana, e que, quanto à sua grandeza, é de fato desconhecido de todos os que por ele foram feitos (pois nenhum homem sondou a sua altura, nem entre os antigos que descansaram, nem entre qualquer dos que agora vivem); mas, quanto ao seu amor, ele é sempre conhecido por meio daquele através de quem ordenou todas as coisas. Ora, este é o seu Verbo, o nosso Senhor Jesus Cristo, que nos últimos tempos se fez homem entre os homens, para que unisse o fim ao princípio, isto é, o homem a Deus. Por isso os profetas, recebendo o dom profético do mesmo Verbo, anunciaram a sua vinda segundo a carne, pela qual se deu a mistura e a comunhão de Deus e do homem segundo o bom prazer do Pai, predizendo o Verbo de Deus, desde o princípio, que Deus seria visto pelos homens e conviveria com eles sobre a terra, conferenciaria com eles, e estaria presente com a sua própria criação, salvando-a, e tornando-se capaz de ser percebido por ela, e livrando-nos das mãos de todos os que nos odeiam, isto é, de todo espírito de maldade; e fazendo com que o sirvamos em santidade e justiça todos os nossos dias, para que o homem, tendo abraçado o Espírito de Deus, passasse para a glória do Pai. Estas coisas os profetas as expuseram de maneira profética; mas eles não proclamaram, como alguns alegam, que aquele que foi visto pelos profetas fosse um Deus diferente, sendo o Pai de todos invisível. Contudo, é isso o que declaram aqueles hereges que são totalmente ignorantes da natureza da profecia. Pois a profecia é uma predição de coisas futuras, isto é, uma exposição antecipada daquelas coisas que hão de vir. Os profetas, então, indicaram de antemão que Deus seria visto pelos homens; como também diz o Senhor: Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus. Mas, quanto à sua grandeza e à sua glória admirável, nenhum homem verá a Deus e viverá, pois o Pai é incompreensível; mas, quanto ao seu amor, à sua bondade e ao seu poder infinito, mesmo isto ele concede aos que o amam, isto é, ver a Deus, coisa que os profetas também predisseram. Pois as coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus. Pois o homem não a Deus por suas próprias forças; mas, quando lhe apraz, é ele visto pelos homens, por quem ele quer, quando quer e como quer. Pois Deus é poderoso em todas as coisas, tendo sido visto naquele tempo de modo profético pelo Espírito, e visto, também, de modo adotivo pelo Filho; e ele será visto também de modo paterno no reino dos céus, preparando o Espírito o homem no Filho de Deus, e conduzindo o Filho o homem ao Pai, enquanto o Pai, por sua vez, lhe confere a incorrupção para a vida eterna, a qual vem a cada um pelo fato de ver a Deus. Pois, assim como os que veem a luz estão dentro da luz e participam do seu brilho, do mesmo modo os que veem a Deus estão em Deus e recebem do seu esplendor. E esse esplendor os vivifica; aqueles, portanto, que veem a Deus, recebem a vida. E por essa razão, ele, ainda que esteja além da compreensão, e seja sem limites e invisível, tornou-se visível, compreensível e ao alcance dos que creem, para vivificar os que o recebem e o contemplam pela fé. Pois, assim como a sua grandeza é insondável, assim também a sua bondade é inexprimível; pela qual, tendo sido visto, ele concede vida aos que o veem. Não é possível viver à parte da vida, e o meio da vida acha-se na comunhão com Deus; mas a comunhão com Deus é conhecer a Deus e desfrutar da sua bondade. Os homens, portanto, verão a Deus, para que vivam, sendo tornados imortais por aquela visão, e alcançando até Deus; o que, como disse, foi declarado figuradamente pelos profetas: que Deus seria visto pelos homens que trazem em si o seu Espírito e que sempre aguardam pacientemente a sua vinda. Como também diz Moisés no Deuteronômio: Veremos naquele dia que Deus falará com o homem, e ele viverá. Pois alguns desses homens costumavam ver o Espírito profético e as suas influências ativas derramadas para todo tipo de dons; outros, novamente, contemplaram a vinda do Senhor, e aquela dispensação que vigorou desde o princípio, pela qual ele cumpriu a vontade do Pai com respeito às coisas tanto celestiais quanto terrestres; e outros contemplaram as glórias paternas adaptadas aos tempos, e aos que então as viram e ouviram, e a todos os que posteriormente as haveriam de ouvir. Assim, portanto, Deus foi revelado; pois Deus, o Pai, é manifestado por todas essas operações, operando de fato o Espírito, e ministrando o Filho, enquanto o Pai aprovava e a salvação do homem se realizava. Como ele também declara pelo profeta Oseias: Eu, diz ele, multipliquei visões e usei semelhanças pelo ministério (in manibus) dos profetas. Mas o apóstolo expôs justamente essa passagem, quando disse: Ora, diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; e diferenças de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; e diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil. Mas, sendo Deus aquele que opera tudo em todos, quanto à sua natureza e à sua grandeza, ele é invisível e indescritível a todas as coisas que por ele foram feitas, mas de modo algum é desconhecido; pois todas as coisas aprendem, por meio do seu Verbo, que um Deus, o Pai, que contém todas as coisas e que concede existência a tudo, como está escrito no Evangelho: Ninguém jamais viu a Deus, exceto o Filho unigênito, que está no seio do Pai; ele o revelou. Portanto, o Filho do Pai o revela desde o princípio, visto que estava com o Pai desde o princípio, ele que também mostrou à raça humana visões proféticas, diversidades de dons, os seus próprios ministérios e a glória do Pai, em ordem e conexão regulares, no tempo apropriado para o benefício da humanidade. Pois onde uma sucessão regular, também firmeza; e onde firmeza, adequação ao período; e onde adequação, também utilidade. E por essa razão o Verbo se tornou o dispensador da graça paterna para o benefício dos homens, em favor de quem fez tão grandes dispensações, revelando de fato Deus aos homens, mas apresentando o homem a Deus, e preservando ao mesmo tempo a invisibilidade do Pai, para que o homem em tempo algum se tornasse desprezador de Deus, e para que sempre tivesse algo em direção ao qual pudesse avançar; mas, por outro lado, revelando Deus aos homens por meio de muitas dispensações, para que o homem, afastando-se inteiramente de Deus, não deixasse de existir. Pois a glória de Deus é o homem vivente; e a vida do homem consiste em contemplar a Deus. Pois, se a manifestação de Deus que se faz por meio da criação vida a todos os que vivem na terra, muito mais aquela revelação do Pai que vem pelo Verbo vida aos que veem a Deus. Visto, então, que o Espírito de Deus apontou pelos profetas as coisas que haviam de vir, formando-nos e adaptando-nos de antemão para o fim de sermos feitos sujeitos a Deus, mas era ainda uma coisa futura que o homem, pelo bom prazer do Espírito Santo, visse a Deus, era necessário que aqueles por cujo instrumento as coisas futuras eram anunciadas vissem a Deus, o qual eles davam a entender que seria visto pelos homens; a fim de que Deus, e o Filho de Deus, e o Filho, e o Pai, não fossem proferticamente anunciados, mas também fosse ele visto por todos os seus membros que são santificados e instruídos nas coisas de Deus, para que o homem fosse disciplinado de antemão e previamente exercitado para uma recepção naquela glória que depois se de revelar nos que amam a Deus. Pois os profetas não costumavam profetizar apenas com palavras, mas também por visões, e pelo seu modo de vida, e pelas ações que realizavam, segundo as sugestões do Espírito. Desse modo invisível, portanto, eles viram a Deus, como também diz Isaías: Vi com os meus olhos o Rei, o Senhor dos exércitos, apontando que o homem haveria de contemplar a Deus com os seus olhos e ouvir a sua voz. Desse modo, portanto, eles também viram o Filho de Deus como um homem que convivia com os homens, enquanto profetizavam o que haveria de acontecer, dizendo que aquele que ainda não havia vindo estava presente, proclamando também o impassível como sujeito ao sofrimento, e declarando que aquele que então estava no céu havia descido ao da morte. Além disso, quanto aos outros arranjos relativos à recapitulação que ele havia de realizar, alguns deles eles contemplaram por visões, outros proclamaram por palavra, enquanto outros indicaram tipicamente por meio de ações, vendo visivelmente as coisas que haviam de ser vistas; anunciando de viva voz as que haviam de ser ouvidas; e realizando por operação efetiva o que haveria de acontecer pela ação; mas, ao mesmo tempo, anunciando tudo profeticamente. Por isso também Moisés declarou que Deus era de fato um fogo consumidor (igneum) para o povo que transgredia a lei, e ameaçou que Deus traria sobre eles um dia de fogo; mas, aos que tinham o temor de Deus, ele disse: O Senhor Deus é misericordioso e clemente, longânimo e de grande compaixão, e verdadeiro, e guarda justiça e misericórdia para milhares, perdoando a injustiça, as transgressões e os pecados. E o Verbo falou a Moisés, aparecendo diante dele, tal como alguém poderia falar ao seu amigo. Mas Moisés desejou ver abertamente aquele que falava com ele, e assim lhe foi dito: Põe-te no lugar profundo da rocha, e com a minha mão eu te cobrirei. Mas, quando o meu esplendor passar, então verás as minhas costas, mas a minha face não verás; pois nenhum homem a minha face e vive. Duas coisas são assim significadas: que é impossível ao homem ver a Deus; e que, pela sabedoria de Deus, o homem o verá nos últimos tempos, na profundeza de uma rocha, isto é, na sua vinda como homem. E por essa razão o Senhor conferenciou com ele face a face no topo de um monte, estando também presente Elias, como relata o Evangelho; cumprindo ele assim, no fim, a antiga promessa. Os profetas, portanto, não contemplaram abertamente a verdadeira face de Deus, mas viram as dispensações e os mistérios pelos quais o homem viria depois a ver a Deus. Como também foi dito a Elias: Sairás amanhã e te porás na presença do Senhor; e eis um vento grande e forte, que fenderá os montes e despedaçará as rochas diante do Senhor. E o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto; e depois do terremoto um fogo, mas o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo uma voz quase inaudível (vox auræ tenuis). Pois, por tais meios, foi o profeta, muito indignado por causa da transgressão do povo e do massacre dos profetas, tanto ensinado a agir de modo mais brando, quanto se apontou a vinda do Senhor como homem, que haveria de ser posterior àquela lei dada por Moisés, branda e tranquila, na qual ele não quebraria a cana trincada, nem apagaria o pavio que ainda fumega. Indicou-se igualmente o repouso brando e pacífico do seu reino. Pois, depois do vento que fende os montes, e depois do terremoto, e depois do fogo, vêm os tempos tranquilos e pacíficos do seu reino, em que o espírito de Deus, do modo mais brando, vivifica e faz crescer a humanidade. Isso, também, foi tornado ainda mais claro por Ezequiel: que os profetas viram as dispensações de Deus em parte, mas não a Deus mesmo de fato. Pois, quando esse homem viu a visão de Deus, e os querubins, e as suas rodas, e quando relatou o mistério de todo aquele desfile, e contemplou a semelhança de um trono acima deles, e sobre o trono uma semelhança como a figura de um homem, e as coisas que estavam sobre os seus lombos como a figura do âmbar, e o que estava abaixo como o aspecto do fogo, e quando expôs todo o restante da visão dos tronos, para que ninguém viesse a pensar que naquelas visões ele tivesse de fato visto a Deus, ele acrescentou: Esta era a aparência da semelhança da glória de Deus. Se, então, nem Moisés, nem Elias, nem Ezequiel, que tiveram todos muitas visões celestiais, viram a Deus; mas, se o que viram eram semelhanças do esplendor do Senhor, e profecias de coisas futuras; é manifesto que o Pai é de fato invisível, daquele de quem também o Senhor disse: Ninguém jamais viu a Deus. Mas o seu Verbo, como ele mesmo quis, e para o benefício dos que o contemplavam, mostrou o brilho do Pai e explicou os seus propósitos (como também disse o Senhor: O Deus unigênito, que está no seio do Pai, ele o revelou; e ele mesmo também interpreta o Verbo do Pai como sendo rico e grande); não em uma figura, nem em um caráter, ele apareceu aos que o viam, mas segundo as razões e os efeitos visados em suas dispensações, como está escrito em Daniel. Pois, em certo momento, ele foi visto com os que estavam ao redor de Ananias, Azarias e Misael, presente com eles na fornalha de fogo, no incêndio, e preservando-os dos efeitos do fogo: E o aspecto do quarto, diz-se, era semelhante ao Filho de Deus. Em outro momento, ele é representado como uma pedra cortada do monte sem mãos, e como ferindo todos os reinos temporais, e como dispersando-os ao vento (ventilans ea), e como ele mesmo enchendo toda a terra. Então, também, esse mesmo indivíduo é contemplado como o Filho do homem vindo nas nuvens do céu, e aproximando-se do Ancião de Dias, e recebendo dele todo o poder, glória e um reino. O seu domínio, diz-se, é um domínio eterno, e o seu reino não perecerá. João também, o discípulo do Senhor, ao contemplar a vinda sacerdotal e gloriosa do seu reino, diz no Apocalipse: Voltei-me para ver a voz que falava comigo. E, voltando-me, vi sete candeeiros de ouro; e no meio dos candeeiros um semelhante ao Filho do homem, vestido com uma veste que chegava aos pés, e cingido pelo peito com um cinto de ouro; e a sua cabeça e os seus cabelos eram brancos, tão brancos como a e como a neve; e os seus olhos eram como chama de fogo; e os seus pés como bronze fino, como se ardessem numa fornalha. E a sua voz era como a voz de muitas águas; e tinha na sua mão direita sete estrelas; e da sua boca saía uma espada afiada de dois gumes; e o seu semblante era como o sol quando brilha na sua força. Pois nessas palavras ele expõe algo da glória que recebeu do seu Pai, como onde menciona a cabeça; algo em referência também ao ofício sacerdotal, como no caso da longa veste que chega aos pés. E foi esta a razão por que Moisés revestiu o sumo sacerdote dessa maneira. Algo também alude ao fim de todas as coisas, como onde fala do bronze fino que arde no fogo, que denota o poder da e a perseverança na oração, por causa do fogo consumidor que de vir no fim do tempo. Mas, quando João não pôde suportar a visão (pois diz: Caí a seus pés como morto; para que se cumprisse o que estava escrito: Nenhum homem a Deus e vive), o Verbo, reanimando-o e lembrando-lhe que era ele em cujo seio se reclinara à ceia, quando fez a pergunta sobre quem o trairia, declarou: Eu sou o primeiro e o último, e aquele que vive, e esteve morto, e eis que estou vivo para todo o sempre, e tenho as chaves da morte e do inferno. E, depois dessas coisas, vendo o mesmo Senhor numa segunda visão, ele diz: Pois vi, no meio do trono, e dos quatro seres viventes, e no meio dos anciãos, um Cordeiro em pé, como se tivesse sido morto, tendo sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus, enviados a toda a terra. E, novamente, diz, falando deste mesmíssimo Cordeiro: E eis um cavalo branco; e o que estava montado nele chamava-se Fiel e Verdadeiro; e em justiça ele julga e faz guerra. E os seus olhos eram como chama de fogo, e sobre a sua cabeça havia muitas coroas; tendo um nome escrito que ninguém conhece senão ele mesmo; e estava vestido com uma veste salpicada de sangue; e o seu nome chama-se O Verbo de Deus. E os exércitos do céu o seguiam sobre cavalos brancos, vestidos de linho branco e puro. E da sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele as regerá (pascet) com vara de ferro; e ele pisa o lagar do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. E tem sobre a sua veste e sobre a sua coxa um nome escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores. Assim o Verbo de Deus sempre preserva, por assim dizer, os contornos das coisas futuras, e aponta aos homens as várias formas (species), por assim dizer, das dispensações do Pai, ensinando-nos as coisas que pertencem a Deus. Contudo, não foi apenas por meio de visões que foram vistas, e de palavras que foram proclamadas, mas também em obras efetivas, que ele foi contemplado pelos profetas, a fim de que, por meio deles, ele prefigurasse e mostrasse de antemão os eventos futuros. Por essa razão o profeta Oseias tomou uma esposa de prostituição, profetizando, por meio da ação, que, ao cometer fornicação, a terra se prostituiria, afastando-se do Senhor, isto é, os homens que estão sobre a terra; e, de homens dessa estirpe, seria do bom prazer de Deus tomar uma Igreja que haveria de ser santificada pela comunhão com o seu Filho, assim como aquela mulher foi santificada pelo convívio com o profeta. E por essa razão Paulo declara que a esposa incrédula é santificada pelo marido crente. Em seguida, o profeta nomes aos seus filhos: Não-Alcançou-Misericórdia e Não-Povo, a fim de que, como diz o apóstolo, o que não era povo viesse a tornar-se povo; e aquela que não alcançou misericórdia viesse a alcançar misericórdia. E acontecerá que, no lugar onde se disse: Vós não sois meu povo, ali serão chamados filhos do Deus vivo. Aquilo que havia sido feito tipicamente, por suas ações, pelo profeta, o apóstolo prova ter sido feito verdadeiramente por Cristo na Igreja. Assim, também, Moisés tomou por esposa uma mulher etíope, a qual ele fez assim uma israelita, mostrando por antecipação que a oliveira brava é enxertada na oliveira cultivada e feita participante da sua seiva. Pois, assim como aquele que nasceu Cristo segundo a carne havia de ser procurado pelo povo a fim de ser morto, mas havia de ser posto em liberdade no Egito, isto é, entre os gentios, para santificar os que ali estavam em estado de infância, dentre os quais ele também aperfeiçoou a sua Igreja naquele lugar (pois o Egito foi gentio desde o princípio, como também a Etiópia); por essa razão, por meio do casamento de Moisés, foi manifestado o casamento do Verbo; e, por meio da noiva etíope, tornou-se manifesta a Igreja tomada dentre os gentios; e aqueles que a depreciam, a acusam e dela zombam não serão puros. Pois ficarão cheios de lepra e serão expulsos do arraial dos justos. Assim, também, Raabe, a prostituta, embora se condenando a si mesma, visto que era gentia e culpada de todos os pecados, ainda assim recebeu os três espias, que espiavam toda a terra, e os escondeu em sua casa (os quais três eram, sem dúvida, um tipo do Pai e do Filho, juntamente com o Espírito Santo). E, quando toda a cidade em que ela vivia caiu em ruínas ao som das sete trombetas, Raabe, a prostituta, foi preservada, quando tudo terminou (in ultimis), juntamente com toda a sua casa, pela no sinal escarlate; como também o Senhor declarou aos que não receberam a sua vinda (os fariseus, sem dúvida, anulam o sinal do fio escarlate, que significava a Páscoa, e a redenção e o êxodo do povo do Egito), quando disse: Os publicanos e as prostitutas vos precedem no reino dos céus.