Contra as Heresias - Livro IV 5
As palavras do Senhor e a unidade das aliancas
Se, no entanto, alguém disser: E então? Não poderia Deus ter exibido o homem como perfeito desde o princípio? saiba ele que, na medida em que Deus é de fato sempre o mesmo e não engendrado quanto a si mesmo, todas as coisas lhe são possíveis. Mas as coisas criadas devem ser inferiores àquele que as criou, pelo próprio fato de sua origem posterior; pois não era possível que coisas recentemente criadas fossem incriadas. Mas, na medida em que não são incriadas, por essa mesma razão ficam aquém do perfeito. Porque, sendo essas coisas de data posterior, são também infantis; são, pois, desacostumadas e inexperientes na disciplina perfeita. Pois, assim como certamente está no poder de uma mãe dar alimento sólido ao seu lactente, mas ela não o faz, porque a criança ainda não é capaz de receber alimento mais substancial; assim também era possível ao próprio Deus ter feito o homem perfeito desde o princípio, mas o homem não podia receber essa perfeição, sendo ainda um lactente. E por essa causa o nosso Senhor, nestes últimos tempos, depois de ter recapitulado todas as coisas em si mesmo, veio a nós não como poderia ter vindo, mas como éramos capazes de contemplá-lo. Ele poderia facilmente ter vindo a nós em sua glória imortal, mas, nesse caso, jamais teríamos podido suportar a grandeza da glória; e por isso foi que ele, que era o pão perfeito do Pai, ofereceu-se a nós como leite, porque éramos como lactentes. Fez isso quando apareceu como homem, para que nós, sendo nutridos, por assim dizer, do seio da sua carne, e tendo, por esse curso de alimentação com leite, nos acostumado a comer e beber o Verbo de Deus, possamos também conter em nós mesmos o Pão da imortalidade, que é o Espírito do Pai. E por isso Paulo declara aos Coríntios: Alimentei-vos com leite, e não com alimento sólido, pois ainda não o podíeis suportar. Isto é: aprendestes, de fato, a vinda do nosso Senhor como homem; contudo, por causa da vossa fraqueza, o Espírito do Pai ainda não repousou sobre vós. Pois, havendo entre vós inveja, contenda e dissensões, diz ele, não sois acaso carnais e andais como homens? Isto é: o Espírito do Pai ainda não estava com eles, por causa da sua imperfeição e das deficiências do seu modo de vida. Assim como, portanto, o apóstolo tinha o poder de lhes dar alimento sólido (pois aqueles sobre quem os apóstolos impunham as mãos recebiam o Espírito Santo, que é o alimento da vida eterna), mas eles não eram capazes de recebê-lo, porque tinham ainda débeis e indisciplinadas as faculdades sensíveis da alma na prática das coisas que dizem respeito a Deus; assim também, de modo semelhante, Deus tinha o poder, no princípio, de conceder a perfeição ao homem; mas, como este fora apenas recentemente criado, não poderia tê-la recebido, ou, mesmo que a tivesse recebido, não poderia tê-la contido, ou, contendo-a, não poderia tê-la retido. Por essa razão o Filho de Deus, embora fosse perfeito, passou pelo estado de infância em comum com o restante da humanidade, participando dele assim, não para seu próprio benefício, mas para o benefício da fase infantil da existência do homem, a fim de que o homem pudesse recebê-lo. Nada, portanto, havia de impossível ou deficiente em Deus pelo fato de o homem não ser um ser incriado; isso se aplicava apenas àquele que fora recentemente criado, isto é, ao homem. Em Deus exibem-se simultaneamente poder, sabedoria e bondade. Seu poder e sua bondade aparecem nisto: que, por sua própria vontade, ele chamou à existência e formou coisas que antes não existiam; a sua sabedoria mostra-se em ter feito das coisas criadas partes de um todo harmonioso e coerente; e aquelas coisas que, por sua bondade sobre-excelente, recebem crescimento e longo período de existência refletem a glória do Incriado, daquele Deus que concede o bem sem reservas. Pois, do próprio fato de essas coisas terem sido criadas, segue-se que não são incriadas; mas, por continuarem a existir ao longo de um longo curso de eras, receberão uma faculdade do Incriado, pela concessão gratuita da existência eterna por parte de Deus. E assim, em todas as coisas, Deus tem a preeminência, ele que é o único incriado, o primeiro de todas as coisas e a causa primária da existência de tudo, enquanto todas as demais coisas permanecem sob a sujeição de Deus. Mas estar em sujeição a Deus é permanecer na imortalidade, e a imortalidade é a glória do Incriado. Por essa disposição, portanto, e por essas harmonias, e por uma sequência dessa natureza, o homem, ser criado e organizado, é feito conforme a imagem e a semelhança do Deus incriado: o Pai planejando tudo bem e dando os seus comandos, o Filho executando-os e realizando a obra da criação, e o Espírito nutrindo e fazendo crescer o que é feito, ao passo que o homem faz progresso dia após dia, e ascende rumo ao perfeito, isto é, aproximando-se do Incriado. Pois o Incriado é perfeito, isto é, Deus. Ora, era necessário que o homem, primeiramente, fosse criado; e, tendo sido criado, recebesse crescimento; e, tendo recebido crescimento, fosse fortalecido; e, tendo sido fortalecido, abundasse; e, tendo abundado, se recuperasse da doença do pecado; e, tendo-se recuperado, fosse glorificado; e, sendo glorificado, visse o seu Senhor. Pois Deus é aquele que ainda há de ser visto, e a contemplação de Deus produz imortalidade, e a imortalidade aproxima de Deus. Irracionais, portanto, em todos os aspectos, são os que não aguardam o tempo do crescimento, mas atribuem a Deus a fraqueza da sua própria natureza. Tais pessoas não conhecem nem a Deus nem a si mesmas, sendo insaciáveis e ingratas, não querendo ser, no início, aquilo para que também foram criadas, homens sujeitos a paixões; mas ultrapassam a lei do gênero humano, e, antes de se tornarem homens, querem já agora ser semelhantes a Deus, o seu Criador; e os que são mais destituídos de razão do que os animais mudos insistem em que não há distinção entre o Deus incriado e o homem, criatura de hoje. Pois estes, os animais mudos, não fazem acusação alguma contra Deus por não os ter feito homens; mas cada um, exatamente como foi criado, dá graças por ter sido criado. Pois nós lançamos culpa sobre ele, porque não fomos feitos deuses desde o princípio, mas a princípio meramente homens, depois, enfim, deuses; embora Deus tenha adotado este curso por sua pura benevolência, para que ninguém lhe impute inveja ou mesquinhez. Ele declara: Eu disse: Sois deuses, e todos sois filhos do Altíssimo. Mas, visto que não pudemos suportar o poder da divindade, ele acrescenta: Mas morrereis como homens; expondo ambas as verdades: a bondade do seu dom gratuito, e a nossa fraqueza, e também que tínhamos poder sobre nós mesmos. Pois, segundo a sua grande bondade, ele graciosamente conferiu o bem sobre nós, e fez os homens semelhantes a si mesmo, isto é, em seu próprio poder; ao mesmo tempo, por sua presciência, conhecia a fraqueza dos seres humanos e as consequências que dela decorreriam; mas, por seu amor e seu poder, há de vencer a substância da natureza criada. Pois era necessário, primeiro, que a natureza fosse exibida; depois disso, que o que era mortal fosse vencido e absorvido pela imortalidade, e o corruptível pela incorruptibilidade, e que o homem fosse feito conforme a imagem e a semelhança de Deus, tendo recebido o conhecimento do bem e do mal.