Capítulos

Contra as Heresias - Livro II

Autoria e Data

Contra as Heresias foi escrita por Ireneu, bispo de Lugduno (a atual Lyon, na Gália), por volta de 180 d.C. O título grego original era Elenchos kai anatropé tés pseudónymou gnóseos, ou seja, Refutação e Demolição do Falso Conhecimento. A datação se apoia numa referência interna a Eleutério como bispo de Roma em exercício. A obra foi composta em grego, mas o texto completo só sobreviveu numa tradução latina, de data disputada, somada a fragmentos gregos preservados em citação por autores posteriores. São cinco livros ao todo. Este é o segundo. No primeiro, Ireneu expôs em detalhe o sistema dos valentinianos e de outros grupos chamados gnósticos; aqui ele passa a derrubá-lo.

O Argumento do Livro II

O Livro I descreve. O Livro II refuta, e refuta antes de tudo pela razão, não pela Escritura. Ireneu adia deliberadamente a prova bíblica: ele a anuncia para os livros seguintes e, neste, escolhe combater o gnosticismo no seu próprio terreno, o da especulação filosófica. O alvo principal são os valentinianos, com seu Pleroma (a Plenitude), os trinta Éons emparelhados, o abismo originário chamado Bythos e o Demiurgo, um criador inferior e ignorante que teria feito o mundo material. O método é levar cada tese deles às últimas consequências lógicas até ela se contradizer.

O eixo é a unicidade de Deus. Se Deus é a Plenitude de todas as coisas, argumenta Ireneu, então ele contém tudo e não pode ser contido por nada. Pôr um Pleroma ou um Deus acima do Criador obriga, pela mesma lógica, a pôr outro acima desse, e outro acima daquele, numa regressão ao infinito de plenitudes e abismos que nunca repousa num primeiro princípio. O sistema se desfaz por dentro. Contra a ideia de que anjos ou um Demiurgo teriam formado o mundo, ele responde que Deus criou tudo pelo seu próprio Verbo, sem precisar de instrumentos ou de auxiliares. E mostra a incoerência aritmética da Tríade e dos Éons, que falha tanto por falta quanto por excesso quando se conta o que os próprios mestres deles afirmam.

Ireneu também ataca o que considera o vício de raiz do sistema: projetar em Deus afetos, paixões e processos mentais humanos (pensamento, intenção, palavra emitida), como se a divindade fosse composta de partes. Para ele, Deus é simples, todo mente e todo Verbo, e fala exatamente o que pensa. E aponta que boa parte da cosmologia gnóstica é, no fundo, material reaproveitado de poetas cômicos e de filósofos gregos (Tales, Anaximandro, Demócrito, Platão, os pitagóricos), com nomes trocados.

Conteúdo Principal

A Crítica da Numerologia e dos Tipos

Uma parte extensa do livro desmonta o uso gnóstico de números, sílabas e letras como prova. Os valentinianos liam o batismo de Jesus aos trinta anos como sinal dos trinta Éons, a traição pelo décimo segundo apóstolo como figura do décimo segundo Éon, e os doze anos da mulher com fluxo de sangue como outro emblema do mesmo sistema. Ireneu responde no detalhe: Judas foi expulso e substituído por Matias, enquanto o Éon teria sido restaurado, de modo que a analogia não fecha; e o Éon em questão, pela conta deles, é o trigésimo, não o décimo segundo. Ele argumenta ainda, a partir das três Páscoas registradas no Evangelho de João, que Jesus pregou por mais de um ano e que, ao morrer, já alcançara a velhice, perto dos cinquenta anos (a tese de Ireneu, hoje minoritária; a cronologia mais aceita situa a morte de Jesus por volta dos trinta e poucos). Sobre os cálculos de letras, observa que o nome grego Soter (Salvador) e o hebraico de Jesus não batem com os valores que o sistema exige, e que com qualquer número se pode achar confirmação em alguma parte das Escrituras, o que prova que o método não prova nada.

“O conhecimento incha, mas o amor edifica; e por isso é melhor e mais proveitoso pertencer à classe simples e sem instrução e, por meio do amor, alcançar a proximidade de Deus, do que, imaginando-nos sábios e habilidosos, sermos encontrados entre os que blasfemam contra o seu próprio Deus.”

Ireneu de Lyon, Contra as Heresias - Livro II 4:1

Os Limites do Saber

O Livro II contém uma das defesas mais conhecidas da ignorância honesta na teologia cristã antiga. Para Ireneu, a raiz do erro gnóstico é a recusa de deixar qualquer coisa sem explicação. Se nem sabemos a causa da cheia do Nilo, do fluxo das marés ou do número de cabelos numa cabeça, argumenta ele, é presunção pretender expor a geração do Verbo a partir do Pai como se a tivéssemos testemunhado. Ele aplica a si mesmo a regra que cobra dos adversários: conhecemos em parte, e o que excede a nossa medida deve ficar nas mãos de Deus. O livro fecha com a refutação da transmigração das almas (ninguém se lembra de vidas anteriores, logo não houve vidas anteriores) e dos 365 céus de Basílides, e com a tese de que os vários nomes hebraicos da divindade designam um só e mesmo Ser.