Contra as Heresias - Livro II 1

Refutacao dos gnosticos pela razao

Os que dizem, ademais, que o mundo foi formado por anjos, ou por qualquer outro fazedor, contra a vontade daquele que é o Pai Supremo, erram, antes de tudo, neste ponto mesmo: que sustentam que anjos formaram uma criação tão grande e tão poderosa, contra a vontade do Deus Altíssimo. Isso implicaria que os anjos eram mais poderosos do que Deus; ou, se não, que ele ou foi descuidado, ou inferior, ou não deu atenção alguma àquilo que se passava entre as suas próprias posses, quer desse mal quer bem, de modo a poder afastar e impedir uma coisa, ao passo que louvaria e se alegraria com a outra. Mas se ninguém atribuiria tal conduta nem mesmo a um homem de alguma habilidade, quanto menos a Deus! A seguir, que nos digam se estas coisas foram formadas dentro dos limites contidos por ele, no seu próprio território, ou em regiões pertencentes a outros e situadas além dele. Mas se disserem que foram feitas além dele, então todos os absurdos mencionados os enfrentarão, e o Deus Supremo será encerrado por aquilo que está além dele, no qual também será necessário que ele encontre o seu fim. Se, por outro lado, foram feitas dentro do seu próprio território, será muito tolo dizer que o mundo foi assim formado dentro do seu próprio território, contra a sua vontade, por anjos que estão eles mesmos sob o seu poder, ou por qualquer outro ser, como se ele próprio não contemplasse todas as coisas que se passam entre as suas próprias posses, ou não estivesse ciente das coisas a serem feitas pelos anjos. Se, contudo, as coisas referidas foram feitas não contra a sua vontade, mas com o seu consentimento e conhecimento, como alguns desses homens pensam, então os anjos, ou o Formador do mundo, quem quer que tenha sido, não serão a causa dessa formação, mas sim a vontade de Deus. Pois se ele é o Formador do mundo, ele também fez os anjos, ou ao menos foi a causa da sua criação; e será considerado como tendo feito o mundo aquele que preparou as causas da sua formação. Embora eles sustentem que os anjos foram feitos por uma longa sucessão para baixo, ou que o Formador do mundo brotou do Pai Supremo, como afirma Basílides, ainda assim aquilo que é a causa das coisas que foram feitas será sempre rastreado até aquele que foi o Autor de tal sucessão. O caso é o mesmo no que toca ao êxito na guerra, que se atribui ao rei que preparou aquilo que é a causa da vitória; e, do mesmo modo, a criação de qualquer estado, ou de qualquer obra, se atribui àquele que preparou os materiais para a realização dos resultados que depois vieram a acontecer. Por isso não dizemos que foi o machado que cortou a madeira, ou a serra que a dividiu; mas com toda propriedade se diria que cortou e dividiu a madeira o homem que formou o machado e a serra para esse fim, e que também formou, em data muito mais antiga, todas as ferramentas pelas quais o próprio machado e a própria serra foram formados. Com justiça, portanto, segundo um processo análogo de raciocínio, o Pai de todos será declarado o Formador deste mundo, e não os anjos, nem qualquer outro suposto formador do mundo, senão aquele que foi o seu Autor e que antes fora a causa do preparo para uma criação deste tipo. Esse modo de falar talvez seja plausível ou persuasivo para os que não conhecem a Deus, e que o assemelham a seres humanos carentes, e àqueles que não podem fazer coisa alguma de imediato e sem auxílio, mas precisam de muitos instrumentos para produzir o que pretendem. Mas não será de modo algum tido por provável pelos que sabem que Deus não tem necessidade de nada, e que ele criou e fez todas as coisas pelo seu Verbo, sem precisar de anjos que o ajudassem na produção das coisas que são feitas, nem de poder algum muito inferior a si mesmo e ignorante do Pai, nem de defeito ou ignorância alguma, para que aquele que viesse a conhecê-lo se tornasse homem. Mas ele mesmo, em si mesmo, de um modo que não podemos descrever nem conceber, predestinando todas as coisas, formou-as como lhe aprouve, concedendo harmonia a todas, e atribuindo a cada uma o seu lugar e o princípio de sua criação. Desse modo conferiu às coisas espirituais uma natureza espiritual e invisível, às coisas supracelestes uma natureza celeste, aos anjos uma natureza angélica, aos animais uma natureza animal, aos seres que nadam uma natureza apropriada à água, e aos que vivem na terra uma adequada à terra; a todos, em suma, uma natureza conveniente ao caráter da vida que lhes foi designada; ao passo que formou todas as coisas que foram feitas pelo seu Verbo, que nunca se cansa. Pois esta é uma particularidade da preeminência de Deus: não ter necessidade de outros instrumentos para a criação das coisas que são chamadas à existência. O seu próprio Verbo é ao mesmo tempo apropriado e suficiente para a formação de todas as coisas, assim como João, o discípulo do Senhor, declara a respeito dele: Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Ora, entre as todas as coisas de estar abrangido o nosso mundo. Ele também, portanto, foi feito pelo seu Verbo, como a Escritura nos conta no livro de Gênesis, que ele fez pelo seu Verbo todas as coisas ligadas ao nosso mundo. Davi também exprime a mesma verdade quando diz: Pois ele falou, e elas foram feitas; ele ordenou, e elas foram criadas. A quem, portanto, havemos de crer quanto à criação do mundo: a esses hereges que foram mencionados, que tagarelam de modo tão tolo e incoerente sobre o assunto, ou aos discípulos do Senhor, e a Moisés, que foi tanto fiel servo de Deus quanto profeta? Ele, de início, narrou a formação do mundo com estas palavras: No princípio Deus criou o céu e a terra, e todas as demais coisas em sucessão; mas nem deuses nem anjos tiveram parte alguma na obra. Ora, que este Deus é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Paulo, o apóstolo, também declarou, dizendo: um Deus, o Pai, que está acima de tudo, e através de todas as coisas, e em todos nós. provei, na verdade, que um Deus; mas o demonstrarei ainda mais a partir dos próprios apóstolos e dos discursos do Senhor. Pois que espécie de conduta seria a nossa, se abandonássemos as palavras dos profetas, do Senhor e dos apóstolos, para dar atenção a esses homens, que não falam uma palavra de bom senso?