Contra as Heresias - Livro II 5
Refutacao dos gnosticos pela razao
Podemos derrubar a doutrina deles a respeito da transmigração de corpo em corpo por este fato: que as almas não se lembram absolutamente de nada dos acontecimentos que se deram em seus estados anteriores de existência. Pois, se foram enviadas com este objetivo, que tivessem experiência de toda sorte de ação, elas teriam necessariamente de reter uma lembrança daquilo que já haviam realizado antes, para que pudessem completar aquilo em que ainda estavam deficientes, e não, pairando sempre, sem interrupção, em torno das mesmas ocupações, desperdiçar miseravelmente o seu labor em vão (pois a mera união de um corpo com uma alma não poderia extinguir por completo a memória e a contemplação daquilo que antes fora experimentado), sobretudo porque vieram ao mundo justamente com esse propósito. Pois, assim como, quando o corpo está adormecido e em repouso, todas as coisas que a alma vê por si mesma, e faz numa visão, ela, recordando muitas delas, também as comunica ao corpo; e assim como acontece que, ao despertar, talvez muito tempo depois, alguém relata o que viu num sonho, assim também ele sem dúvida se lembraria das coisas que fez antes de vir a este corpo em particular. Pois, se aquilo que se vê apenas por um espaço muito breve de tempo, ou foi concebido simplesmente num fantasma, e somente pela alma, por meio de um sonho, é lembrado depois que ela se misturou de novo ao corpo, e se difundiu por todos os membros, muito mais ela se lembraria daquelas coisas em meio às quais permaneceu por tão longo tempo, durante todo o período de uma vida passada. Com referência a essas objeções, Platão, aquele antigo ateniense, que também foi o primeiro a introduzir essa opinião, quando não conseguiu afastá-las, inventou a noção de uma taça do esquecimento, imaginando que desse modo escaparia desse tipo de dificuldade. Não tentou nenhuma espécie de prova da sua suposição, mas simplesmente respondeu de modo dogmático à objeção em questão, que, quando as almas entram nesta vida, são levadas a beber do esquecimento por aquele demônio que vigia a sua entrada no mundo, antes de efetuarem a entrada nos corpos que lhes são atribuídos. Escapou-lhe que, ao falar assim, caía em outra perplexidade maior. Pois, se a taça do esquecimento, depois de bebida, pode apagar a memória de todos os feitos que foram realizados, como sabes tu disso, ó Platão (já que a tua alma está agora no corpo), que, antes de ela entrar no corpo, foi levada a beber pelo demônio uma droga que causava esquecimento? Pois, se tens lembrança do demônio, e da taça, e da entrada na vida, deverias conhecer também as outras coisas; mas se, por outro lado, as ignoras, então não há verdade na história do demônio, nem na taça do esquecimento preparada com arte. Em oposição, novamente, aos que afirmam que o próprio corpo é a droga do esquecimento, pode-se fazer esta observação: como, então, acontece que tudo o que a alma vê por seu próprio instrumento, tanto em sonhos quanto pela reflexão ou pelo empenho mental aplicado, enquanto o corpo está passivo, ela se lembra, e relata aos que estão ao seu redor? Mas, novamente, se o próprio corpo fosse a causa do esquecimento, então a alma, por existir no corpo, não poderia lembrar nem mesmo aquelas coisas que foram percebidas há muito tempo, seja por meio dos olhos, seja por meio dos ouvidos; mas, tão logo o olho se afastasse das coisas observadas, a memória delas também sem dúvida seria destruída. Pois a alma, por existir na própria causa do esquecimento, não poderia ter conhecimento de nada além apenas daquilo que via no momento presente. Como, também, ela poderia familiarizar-se com as coisas divinas, e reter uma lembrança delas enquanto existisse no corpo, já que, como eles sustentam, o próprio corpo é a causa do esquecimento? Mas também os profetas, quando estavam sobre a terra, lembravam-se igualmente, ao retornarem ao seu estado normal de mente, de todas as coisas que viram ou ouviram espiritualmente em visões de objetos celestiais, e as relatavam aos outros. O corpo, portanto, não faz a alma esquecer aquelas coisas que foram espiritualmente testemunhadas; mas a alma ensina o corpo, e partilha com ele a visão espiritual que desfrutou. Pois o corpo não é dotado de maior poder que a alma, já que de fato o primeiro é inspirado, e vivificado, e aumentado, e mantido coeso pela segunda; mas a alma possui e governa o corpo. Ela é, sem dúvida, retardada na sua velocidade, justamente na exata proporção em que o corpo participa do seu movimento; mas nunca perde o conhecimento que propriamente lhe pertence. Pois o corpo pode ser comparado a um instrumento; mas a alma é dotada da razão de um artista. Assim como, portanto, o artista descobre a ideia de uma obra surgir rapidamente na sua mente, mas só pode realizá-la lentamente por meio de um instrumento, por causa da falta de perfeita maleabilidade na matéria sobre a qual atua, e assim a rapidez da sua operação mental, misturada à ação lenta do instrumento, dá origem a um tipo moderado de movimento em direção ao fim contemplado; assim também a alma, por estar misturada ao corpo que lhe pertence, é, em certa medida, impedida, com a sua rapidez misturada à lentidão do corpo. Contudo, ela não perde de modo algum os seus próprios poderes peculiares; mas, ao mesmo tempo em que, por assim dizer, partilha a vida com o corpo, ela própria não cessa de viver. Assim também, ao comunicar outras coisas ao corpo, ela não perde nem o conhecimento delas, nem a memória das coisas que foram testemunhadas. Se, portanto, a alma não se lembra de nada do que se deu num estado anterior de existência, mas tem percepção das coisas que estão aqui, segue-se que ela nunca existiu em outros corpos, nem fez coisas das quais não tem conhecimento, nem outrora conheceu coisas que agora não pode contemplar mentalmente. Mas, assim como cada um de nós recebe o seu corpo pela obra habilidosa de Deus, assim também possui a sua alma. Pois Deus não é tão pobre ou destituído de recursos a ponto de não poder conferir a sua própria alma a cada corpo individual, assim como lhe dá também o seu caráter especial. E por isso, quando o número fixado estiver completo, esse número que ele predeterminara no seu próprio conselho, todos os que foram inscritos para a vida eterna ressuscitarão, tendo os seus próprios corpos, e tendo também as suas próprias almas, e os seus próprios espíritos, nos quais agradaram a Deus. Os outros, por outro lado, que são dignos de castigo, irão para ele, também eles tendo as suas próprias almas e os seus próprios corpos, nos quais se apartaram da graça de Deus. Ambas as classes cessarão então de gerar e de ser geradas, de casar e de ser dadas em casamento; de modo que o número da humanidade, correspondente à predeterminação de Deus, estando completo, possa realizar plenamente o plano formado pelo Pai.