Contra as Heresias - Livro II 2
Refutacao dos gnosticos pela razao
Muito mais próxima da verdade, e mais agradável, é a narrativa que Antífanes, um dos antigos poetas cômicos, dá na sua Teogonia sobre a origem de todas as coisas. Pois ele fala do Caos como produzido da Noite e do Silêncio; relata que então o Amor brotou do Caos e da Noite; deste, de novo, a Luz; e que desta, na sua opinião, derivaram todos os demais da primeira geração dos deuses. Depois destes, ele introduz uma segunda geração de deuses e a criação do mundo; em seguida, narra a formação da humanidade pela segunda ordem dos deuses. Estes homens (os hereges), adotando essa fábula como sua, dispuseram as suas opiniões em torno dela, como que por um processo natural, mudando apenas os nomes das coisas referidas, e expondo exatamente o mesmo princípio da geração de todas as coisas e da sua produção. No lugar da Noite e do Silêncio, eles põem Bythos e Sige; no lugar do Caos, põem Nous; e, em vez do Amor (por quem, diz o poeta cômico, todas as outras coisas foram postas em ordem), apresentam o Verbo; enquanto, no lugar dos primeiros e maiores deuses, formaram os Éons; e, no lugar dos deuses secundários, falam-nos daquela criação feita pela mãe deles fora do Pleroma, chamando-a de segunda Ogdóade. Proclamam-nos, como o escritor referido, que desta Ogdóade veio a criação do mundo e a formação do homem, sustentando que só eles conhecem esses mistérios inefáveis e desconhecidos. Aquelas coisas que por toda parte são encenadas nos teatros pelos comediantes com vozes bem claras, eles transferem para o seu próprio sistema, ensinando-as, sem dúvida, por meio dos mesmos argumentos, e apenas mudando os nomes. E não só ficam convictos de apresentar como se fossem ideias próprias e originais aquelas que se encontram entre os poetas cômicos, mas também juntam o que foi dito por todos aqueles que ignoravam a Deus e que são chamados de filósofos; e, costurando, por assim dizer, um manto remendado a partir de um monte de farrapos miseráveis, eles, pelo seu modo sutil de se expressar, providenciaram para si uma capa que de fato não é deles. É verdade que introduzem um novo tipo de doutrina, na medida em que, por uma nova espécie de artifício, ela foi substituída no lugar da antiga. Mas, na realidade, é tanto velha como inútil, já que essas mesmas opiniões foram costuradas a partir de antigos dogmas que cheiram a ignorância e irreligião. Por exemplo, Tales de Mileto afirmou que a água era o princípio gerador e inicial de todas as coisas. Ora, é a mesma coisa dizer água ou Bythos. O poeta Homero, por sua vez, sustentava a opinião de que Oceano, junto com a mãe Tétis, era a origem dos deuses: essa ideia estes homens transferiram para Bythos e Sige. Anaximandro estabeleceu que o infinito é o primeiro princípio de todas as coisas, tendo em si, como semente, a geração de todas elas, e dele declara que se formaram os imensos mundos que existem: também isto eles vestiram de novo e atribuíram a Bythos e aos seus Éons. Anaxágoras, por sua vez, que também foi apelidado de Ateu, deu como sua opinião que os animais se formaram de sementes que caem do céu sobre a terra. Também esse pensamento estes homens transferiram para a semente da sua Mãe, que sustentam ser eles próprios; reconhecendo assim, de uma só vez, no juízo dos que têm bom senso, que eles mesmos são a prole do irreligioso Anaxágoras. De novo, tomando de Demócrito e Epicuro as ideias de sombra e vazio, eles as ajustaram às suas próprias visões, seguindo aqueles mestres que já tinham falado muito sobre o vazio e os átomos, um dos quais chamavam de aquilo que é, e o outro de aquilo que não é. Do mesmo modo, estes homens chamam de existências reais as coisas que estão dentro do Pleroma, tal como aqueles filósofos chamavam os átomos; enquanto sustentam que as que estão fora do Pleroma não têm existência verdadeira, tal como aqueles diziam do vazio. Eles se baniram, assim, neste mundo (já que aqui estão fora do Pleroma), para um lugar que não tem existência. De novo, quando sustentam que estas coisas de baixo são imagens daquelas que têm existência verdadeira lá em cima, repetem, mais uma vez de modo bem evidente, a doutrina de Demócrito e de Platão. Pois Demócrito foi o primeiro a sustentar que figuras numerosas e diversas eram cunhadas, por assim dizer, com as formas das coisas de cima, e desciam do espaço universal para este mundo. Mas Platão, por sua vez, fala de matéria, de modelo e de Deus. Estes homens, seguindo essas distinções, deram aquilo que ele chama de ideias e modelo o nome de imagens das coisas que estão acima; e, por mera mudança de nome, gabam-se de ser descobridores e inventores desse tipo de ficção imaginária. Também esta opinião que sustentam, de que o Criador formou o mundo a partir de matéria preexistente, tanto Anaxágoras como Empédocles e Platão a expressaram antes deles; como, ao que parece, sabemos que eles também o fazem por inspiração da sua Mãe. Depois, de novo, quanto à opinião de que tudo necessariamente perece para aquilo de que sustentam que também foi formado, e de que Deus é escravo dessa necessidade, de modo que não pode conceder imortalidade ao que é mortal, nem dar incorrupção ao que é corruptível, mas cada coisa passa para uma substância de natureza semelhante à sua, tanto os que são chamados de estoicos a partir do pórtico (στοά) como, na verdade, todos os que ignoram a Deus, poetas e historiadores por igual, fazem a mesma afirmação. Aqueles hereges que sustentam o mesmo sistema de infidelidade atribuíram, sem dúvida, aos seres espirituais a sua própria região, a saber, a que está dentro do Pleroma; aos seres animais, o espaço intermediário; e aos corpóreos, aquilo que é material. E afirmam que o próprio Deus não pode fazer de outro modo, e sim que cada uma das diferentes espécies de substância mencionadas passa para aquilo que é da mesma natureza que ela. Além disso, quanto a dizerem que o Salvador foi formado de todos os Éons, depositando cada um deles, por assim dizer, nele a sua própria flor especial, não trazem nada de novo que não se encontre na Pandora de Hesíodo. Pois o que ele diz a respeito dela, estes homens insinuam a respeito do Salvador, apresentando-o a nós como Pandoros (dotado de todos os dons), como se cada um dos Éons lhe tivesse concedido aquilo que possuía na maior perfeição. De novo, a opinião que exibem sobre a indiferença de comer carnes e de outras ações, e o pensamento de que, pela nobreza da sua natureza, de modo algum podem contrair impureza, qualquer que seja o que comam ou façam, eles a derivaram dos cínicos, já que de fato pertencem à mesma sociedade que esses filósofos. Também se esforçam por transferir para o tratamento das questões de fé aquele modo sutil e capcioso de manejar as questões, que é, de fato, uma cópia de Aristóteles. De novo, quanto ao desejo que exibem de referir todo este universo a números, eles o aprenderam dos pitagóricos. Pois estes foram os primeiros a apresentar os números como o princípio inicial de todas as coisas, e a descrever esse princípio inicial deles como sendo ao mesmo tempo igual e desigual, a partir de cujas duas propriedades concebiam que tanto as coisas sensíveis como as imateriais derivavam a sua origem. E sustentavam que um conjunto de primeiros princípios deu origem à matéria das coisas, e outro à sua forma. Afirmam que desses primeiros princípios todas as coisas foram feitas, assim como uma estátua se faz do seu metal e da sua forma particular. Ora, os hereges adaptaram isso às coisas que estão fora do Pleroma. Os pitagóricos sustentavam que o princípio do intelecto é proporcional à energia com que a mente, como receptora do compreensível, prossegue as suas indagações, até que, exausta, por fim se resolve no Indivisível e no Uno. Afirmam ainda que Hen, isto é, o Um, é o primeiro princípio de todas as coisas, e a substância de tudo o que foi formado. Deste, de novo, procederam a Díade, a Tétrade, a Pêntade e a múltipla geração das demais. Estas coisas os hereges repetem, palavra por palavra, em referência ao seu Pleroma e a Bythos. Da mesma fonte, também, esforçam-se por pôr em voga aquelas conjunções que procedem da unidade. Marcos se vangloria de tais visões como se fossem dele, e como se tivesse descoberto algo mais novo que os outros, quando simplesmente expõe a Tétrade de Pitágoras como o princípio originário e mãe de todas as coisas. Mas direi apenas, em oposição a estes homens: todos aqueles que foram mencionados, com quem se provou que coincidis na linguagem, conheciam ou não conheciam a verdade? Se a conheciam, então a descida do Salvador a este mundo foi supérflua. Pois, nesse caso, por que ele desceu? Foi para levar ao conhecimento dos que já a conheciam aquela verdade que já era conhecida? Se, por outro lado, esses homens não a conheciam, então como é que, expressando-vos nos mesmos termos que os que não conheciam a verdade, vos gabais de que só vós possuís aquele conhecimento que está acima de todas as coisas, embora os que ignoram a Deus também o possuam? Assim, então, por uma completa perversão da linguagem, eles chamam de conhecimento a ignorância da verdade; e Paulo bem diz deles que se valem de novidades de palavras de um falso conhecimento. Pois aquele conhecimento deles se acha, de fato, ser falso. Se, no entanto, tomando um rumo desavergonhado a respeito desses pontos, declaram que os homens, de fato, não conheciam a verdade, mas que a sua Mãe, a semente do Pai, proclamou os mistérios da verdade por meio de tais homens, assim como também por meio dos profetas, enquanto o Demiurgo o ignorava, então respondo, em primeiro lugar, que as coisas preditas não eram de tal natureza que fossem ininteligíveis a todos; pois os próprios homens sabiam o que diziam, como também os seus discípulos, e os que de novo sucederam a estes. E, em seguida, se ou a Mãe ou a sua semente conheciam e proclamavam as coisas que eram da verdade (e o Pai é a verdade), então, pela teoria deles, o Salvador falou falsamente quando disse: "Ninguém conhece o Pai senão o Filho" (Mt 11:27), a não ser que sustentem que a sua semente ou Mãe é Ninguém. Até aqui, pois, ao atribuir aos seus Éons sentimentos humanos, e pelo fato de coincidirem em grande parte, na sua linguagem, com muitos dos que ignoram a Deus, viu-se que eles, com certa plausibilidade, desviam um certo número de pessoas da verdade. Conduzem-nas, por meio daquelas expressões que lhes eram familiares, àquele tipo de discurso que trata de todas as coisas, expondo a produção do Verbo de Deus, e de Zoe, e de Nous, e trazendo ao mundo, por assim dizer, as sucessivas emanações da Divindade. As visões, por sua vez, que propõem, sem plausibilidade nem alarde, são simplesmente mentiras do começo ao fim. Assim como aqueles que, para atrair e capturar qualquer espécie de animais, põem diante deles o alimento a que estão acostumados, atraindo-os aos poucos por meio do alimento familiar, até que por fim o agarram, mas, quando os tomaram cativos, sujeitam-nos à mais amarga servidão e os arrastam à força para onde lhes apraz; assim também estes homens, aos poucos e com brandura, persuadindo os outros, por meio dos seus discursos plausíveis, a aceitar a emissão que foi mencionada, então trazem à tona coisas que não são coerentes, e formas das demais emissões que não são tais como seria de esperar. Declaram, por exemplo, que dez Éons foram emitidos por Logos e Zoe, ao passo que de Anthropos e Ecclesia procederam doze, embora não tenham prova, nem testemunho, nem probabilidade, nem coisa alguma de tal natureza para sustentar essas afirmações; e, com igual tolice e audácia, querem que se creia que de Logos e Zoe, sendo Éons, foram emitidos Bythos e Mixis, Ageratos e Henosis, Autophyes e Hedone, Acinetos e Syncrasis, Monogenes e Macaria. Além disso, segundo afirmam, foram emitidos, de modo semelhante, de Anthropos e Ecclesia, sendo Éons, Paracletus e Pistis, Patricos e Elpis, Metricos e Agape, Ainos e Synesis, Ecclesiasticus e Macariotes, Theletos e Sophia. As paixões e o erro dessa Sophia, e como ela correu o risco de perecer pela sua investigação da natureza do Pai, segundo relatam, e o que aconteceu fora do Pleroma, e de que tipo de defeito ensinam que foi produzido o Criador do mundo, eu expus no livro anterior, descrevendo ali, com toda diligência, as opiniões destes hereges. Também detalhei as visões deles a respeito de Cristo, que descrevem como tendo sido produzido depois de todos estes, e também a respeito de Soter, que, segundo eles, derivou o seu ser daqueles Éons que se formaram dentro do Pleroma. Mas mencionei os nomes deles agora, por necessidade, para que a partir deles se torne manifesto o absurdo da sua falsidade, e também a natureza confusa da nomenclatura que inventaram. Pois eles mesmos rebaixam a dignidade dos seus Éons com uma multidão de nomes desse tipo. Atribuem nomes plausíveis e críveis aos pagãos, semelhantes aos dos que são chamados de seus doze deuses, e querem que até estes sejam imagens dos seus doze Éons. Mas as supostas imagens podem produzir nomes próprios muito mais convenientes, e mais fortes pela sua etimologia para indicar a divindade, do que os dos seus imaginados protótipos.