Contra as Heresias - Livro II 1
Refutacao dos gnosticos pela razao
É próprio, então, que eu comece pelo primeiro e mais importante tema, isto é, Deus, o Criador, que fez o céu e a terra e tudo o que neles há (a quem esses homens blasfemamente chamam de fruto de um defeito), e que eu demonstre que não há coisa alguma acima dele nem depois dele; nem que ele criou todas as coisas movido por alguém, mas por sua própria livre vontade, visto que ele é o único Deus, o único Senhor, o único Criador, o único Pai, sozinho contendo todas as coisas e ele mesmo ordenando que todas viessem a existir. Pois como poderia haver qualquer outra Plenitude, ou Princípio, ou Poder, ou Deus acima dele, já que é de necessidade que Deus, a Plenitude (o Pleroma) de todas essas coisas, contenha todas as coisas em sua imensidão e não seja contido por ninguém? Mas se há algo além dele, então ele não é a Plenitude de tudo, nem contém tudo. Pois aquilo que eles declaram estar além dele faltará à Plenitude, ou, em outras palavras, àquele Deus que está acima de todas as coisas. Mas aquilo que falta e que de algum modo fica aquém não é a Plenitude de todas as coisas. Nesse caso, ele teria tanto princípio quanto meio e fim, em relação aos que estão além dele. E se ele tem um fim em relação ao que está abaixo, tem também um princípio em relação ao que está acima. Do mesmo modo, há absoluta necessidade de que ele experimente exatamente a mesma coisa em todos os demais pontos, e seja retido, limitado e cercado pelas existências que estão fora dele. Pois aquele ser que é o fim para baixo necessariamente circunscreve e cerca aquele que nele encontra o seu fim. E assim, segundo eles, o Pai de todos (isto é, aquele a quem chamam de Proón e Proarqué), com o seu Pleroma, e o deus bom de Marcião, está estabelecido e encerrado em algum outro, e é cercado por fora por outro Ser poderoso, que necessariamente há de ser maior, visto que aquilo que contém é maior do que aquilo que é contido. Mas então aquilo que é maior é também mais forte, e Senhor em maior grau; e aquilo que é maior, e mais forte, e Senhor em maior grau, há de ser Deus. Ora, já que existe, segundo eles, também algo mais que declaram estar fora do Pleroma, no qual ainda sustentam que desceu aquele poder superior que se desgarrou, é de todo modo necessário que o Pleroma ou contenha aquilo que está além, sendo ele mesmo contido (pois de outro modo não estará além do Pleroma; porque, se há algo além do Pleroma, haverá um Pleroma dentro deste mesmo Pleroma que eles declaram estar fora do Pleroma, e o Pleroma será contido por aquilo que está além; e com o Pleroma se entende também o primeiro Deus); ou então eles devem estar separados um do outro por uma distância infinita, a saber, o Pleroma e aquilo que está além dele. Mas se sustentam isso, haverá então um terceiro tipo de existência, que separa por sua imensidão o Pleroma e aquilo que está além dele. Esse terceiro tipo de existência, portanto, limitará e conterá os dois outros, e será maior tanto do que o Pleroma quanto do que aquilo que está além dele, visto que contém ambos no seu seio. Desse modo, a conversa poderia prosseguir para sempre a respeito do que é contido e do que contém. Pois se essa terceira existência tem o seu princípio acima e o seu fim abaixo, há absoluta necessidade de que seja também limitada nos lados, começando ou cessando em certos outros pontos, onde novas existências começam. Estas, por sua vez, e outras que estão acima e abaixo, terão os seus princípios em certos outros pontos, e assim por diante ao infinito; de modo que os seus pensamentos jamais repousariam em um só Deus, mas, em consequência de buscarem mais do que existe, vagariam para aquilo que não tem existência, e se afastariam do verdadeiro Deus. Estas observações aplicam-se, do mesmo modo, contra os seguidores de Marcião. Pois os dois deuses deles também serão contidos e circunscritos por um intervalo imenso que os separa um do outro. Mas então haverá necessidade de supor uma multidão de deuses separados uns dos outros por uma distância imensa em todos os lados, começando uns nos outros e terminando uns nos outros. Assim, por esse mesmo processo de raciocínio do qual dependem para ensinar que há um certo Pleroma ou Deus acima do Criador do céu e da terra, qualquer um que queira empregá-lo pode sustentar que há outro Pleroma acima do Pleroma, e acima deste ainda outro, e acima de Bythos outro oceano de Divindade, enquanto, do mesmo modo, as mesmas sucessões valem para os lados; e assim, escorrendo a doutrina deles para a imensidão, haverá sempre a necessidade de conceber outros Pleromas e outros Bythos, de modo a nunca em tempo algum parar, mas sempre continuar buscando outros além dos já mencionados. Além disso, ficará incerto se estes que concebemos estão abaixo, ou se são, na verdade, eles mesmos as coisas que estão acima; e, do mesmo modo, ficará duvidoso, quanto às coisas que eles dizem estar acima, se realmente estão acima ou abaixo; e assim as nossas opiniões não terão conclusão fixa nem certeza, mas necessariamente vagarão em busca de mundos sem limites e de deuses que não se podem contar. Sendo assim as coisas, então, cada divindade se contentará com o que possui e não se moverá por curiosidade alguma a respeito dos assuntos das outras; do contrário seria injusta e gananciosa, e deixaria de ser aquilo que Deus é. Cada criação, também, glorificará o seu próprio fazedor e se contentará com ele, não conhecendo nenhum outro; do contrário seria com toda justiça julgada apóstata por todas as demais, e receberia um castigo bem merecido. Pois é necessário ou que haja um só Ser que contenha todas as coisas, e que tenha formado no seu próprio território todas as coisas que foram criadas, segundo a sua própria vontade; ou então que haja numerosos criadores e deuses sem limite, que começam uns dos outros e terminam uns nos outros em todos os lados; e então será necessário admitir que todos os demais sejam contidos por fora por algum que seja maior, e que cada um deles esteja encerrado no seu próprio território e nele permaneça. Nenhum deles todos, portanto, é Deus. Pois faltará muito a cada um deles, possuindo, como há de possuir, apenas uma parte pequeníssima quando comparada a todo o restante. O nome do Onipotente será assim posto fim, e tal opinião necessariamente cairá na impiedade.