Contra as Heresias - Livro II 4

Refutacao dos gnosticos pela razao

Tendo, portanto, a própria verdade como nossa regra e o testemunho a respeito de Deus posto claramente diante de nós, não devemos, correndo atrás de respostas numerosas e diversas a questões, lançar fora o conhecimento firme e verdadeiro de Deus. Mas é muito mais conveniente que nós, dirigindo as nossas investigações desse modo, nos exercitemos no estudo do mistério e da administração do Deus vivo, e cresçamos no amor daquele que fez e ainda faz coisas tão grandes por nós; e que nunca abandonemos a pela qual é proclamado com toda a clareza que somente este Ser é verdadeiramente Deus e Pai, aquele que formou este mundo, modelou o homem, concedeu à sua própria criação a faculdade de crescer e o chamou das coisas menores para aquelas maiores que estão na sua própria presença, assim como traz à luz do sol uma criança que foi concebida no ventre, e armazena o trigo no celeiro depois de lhe dar plena força na espiga. Mas é um e mesmo Criador quem formou tanto o ventre quanto criou o sol; e um e mesmo Senhor quem criou a espiga de cereal, aumentou e multiplicou o trigo e preparou o celeiro. Se, no entanto, não pudermos descobrir na Escritura explicações de todas aquelas coisas que são objeto de investigação, nem por isso busquemos algum outro Deus além daquele que realmente existe. Pois esta é a maior de todas as impiedades. Devemos deixar coisas dessa natureza a Deus, que nos criou, estando bem seguros de que as Escrituras são de fato perfeitas, que foram faladas pelo Verbo de Deus e pelo seu Espírito; mas nós, na medida em que somos inferiores ao Verbo de Deus e ao seu Espírito, e posteriores a eles em existência, estamos por essa mesma razão privados do conhecimento dos seus mistérios. E não motivo de admiração se isso acontece conosco no que diz respeito às coisas espirituais e celestes, e tais que precisam de nos ser dadas a conhecer por revelação, que muitas até daquelas coisas que estão aos nossos próprios pés (refiro-me às que pertencem a este mundo, que manuseamos, vemos e com as quais estamos em contato estreito) transcendem o nosso conhecimento, de modo que também essas devemos deixar a Deus. Pois é justo que ele exceda a todos em conhecimento. Como fica o caso, por exemplo, se nos esforçarmos por explicar a causa da cheia do Nilo? Podemos dizer muita coisa, plausível ou não, sobre o assunto; mas o que é verdadeiro, seguro e incontestável a respeito disso pertence somente a Deus. E ainda, o lugar onde habitam as aves, daquelas, digo, que vêm a nós na primavera, mas voam embora de novo ao chegar o outono, embora seja matéria ligada a este mundo, escapa ao nosso conhecimento. Que explicação, de novo, podemos dar do fluxo e refluxo do oceano, embora todos admitam que deve haver uma certa causa para esses fenômenos? Ou o que podemos dizer sobre a natureza daquelas coisas que estão além dele? Que podemos dizer, além disso, sobre a formação da chuva, do relâmpago, do trovão, da reunião das nuvens, dos vapores, da irrupção dos ventos e coisas semelhantes; ou o que dizer sobre os depósitos da neve, do granizo e de outras coisas parecidas? Que sabemos a respeito das condições necessárias para a preparação das nuvens, ou qual é a natureza real dos vapores no céu? Que dizer da razão por que a lua cresce e mingua, ou da causa da diferença de natureza entre várias águas, metais, pedras e coisas assim? Sobre todos esses pontos podemos de fato dizer muita coisa enquanto investigamos as suas causas, mas Deus, que as fez, pode declarar a verdade a respeito delas. Se, portanto, mesmo no que diz respeito à criação algumas coisas cujo conhecimento pertence somente a Deus, e outras que estão ao alcance do nosso próprio conhecimento, que motivo para queixa se, quanto àquelas coisas que investigamos nas Escrituras (que são inteiramente espirituais), conseguimos pela graça de Deus explicar algumas delas, enquanto temos de deixar outras nas mãos de Deus, e isso não no presente mundo, mas também no que está por vir, de modo que Deus ensine para sempre e o homem aprenda para sempre as coisas que lhe são ensinadas por Deus? Como o apóstolo disse sobre este ponto: que, quando as outras coisas tiverem passado, então estas três, a fé, a esperança e a caridade, hão de permanecer. Pois a fé, que diz respeito ao nosso Mestre, permanece imutável, assegurando-nos que um Deus verdadeiro e que devemos amá-lo verdadeiramente para sempre, visto que ele é o nosso Pai; enquanto esperamos receber sempre mais e mais de Deus, e aprender dele, porque ele é bom e possui riquezas sem limite, um reino sem fim e um ensino que nunca se esgota. Se, portanto, segundo a regra que enunciei, deixamos algumas questões nas mãos de Deus, tanto preservaremos a nossa sem dano como continuaremos sem perigo; e toda a Escritura, que nos foi dada por Deus, será por nós encontrada perfeitamente coerente; e as parábolas hão de harmonizar com aquelas passagens que são perfeitamente claras; e aquelas afirmações cujo sentido é claro hão de servir para explicar as parábolas; e por meio das muitas e variadas declarações da Escritura se ouvirá em nós uma única melodia harmoniosa, louvando em hinos aquele Deus que criou todas as coisas. Se, por exemplo, alguém pergunta: O que fazia Deus antes de fazer o mundo?, respondemos que a resposta a tal pergunta cabe ao próprio Deus. Pois que este mundo foi formado perfeito por Deus, recebendo um começo no tempo, as Escrituras nos ensinam; mas nenhuma Escritura nos revela com o que Deus se ocupava antes desse acontecimento. A resposta, portanto, a essa pergunta permanece com Deus, e não é próprio que nós nos proponhamos a apresentar suposições tolas, temerárias e blasfemas em resposta a ela; de modo que, ao alguém imaginar que descobriu a origem da matéria, na realidade ponha de lado o próprio Deus que fez todas as coisas. Pois considerai, todos vós que inventais tais opiniões, que o próprio Pai é o único chamado Deus, aquele que tem existência real, mas a quem chamais de Demiurgo; que, além disso, as Escrituras o reconhecem somente a ele como Deus; e ainda, que o Senhor confessa somente a ele como seu próprio Pai e não conhece nenhum outro, como mostrarei a partir das suas próprias palavras; quando chamais este mesmo Ser de fruto de um defeito e descendente da ignorância, e o descreveis como ignorante daquelas coisas que estão acima dele, com as várias outras alegações que fazeis a respeito dele, considerai a terrível blasfêmia de que sois assim culpados contra Aquele que verdadeiramente é Deus. Pareceis afirmar com gravidade e bastante honestidade que credes em Deus; mas então, como sois totalmente incapazes de revelar qualquer outro Deus, declarais este mesmo Ser em quem professais crer fruto de um defeito e descendente da ignorância. Ora, esta cegueira e este falar tolo fluem para vós do fato de que nada reservais para Deus, mas quereis proclamar a natividade e a produção tanto do próprio Deus, como da sua Ennœa, do seu Logos, da sua Vida e do seu Cristo; e formais a ideia destes a partir de nada mais do que uma mera experiência humana; não compreendendo, como eu disse antes, que é possível, no caso do homem, que é um ser composto, falar desse modo da mente do homem e do pensamento do homem; e dizer que o pensamento (ennœa) brota da mente (sensus), a intenção (enthymesis) de novo do pensamento, e a palavra (logos) da intenção (mas qual logos? pois entre os gregos um logos que é o princípio que pensa, e outro que é o instrumento por meio do qual o pensamento é expresso); e dizer que um homem às vezes está em repouso e em silêncio, enquanto outras vezes fala e está em atividade. Mas, que Deus é toda mente, toda razão, todo espírito ativo, toda luz, e sempre existe um e o mesmo, como é tanto benéfico para nós pensar em Deus, quanto aprendemos a respeito dele pelas Escrituras, tais sentimentos e divisões de operação não podem ser-lhe atribuídos de modo adequado. Pois a nossa língua, sendo carnal, não basta para servir à rapidez da mente humana, na medida em que esta é de natureza espiritual, razão pela qual a nossa palavra fica contida dentro de nós e não é expressa de imediato como foi concebida pela mente, mas é proferida por esforços sucessivos, conforme a língua é capaz de servir a ela. Mas Deus, sendo toda Mente e todo Logos, tanto fala exatamente o que pensa quanto pensa exatamente o que fala. Pois o seu pensamento é Logos, e o Logos é Mente, e a Mente que abrange todas as coisas é o próprio Pai. Aquele, portanto, que fala da mente de Deus e lhe atribui uma origem própria e especial, declara-o um Ser composto, como se Deus fosse uma coisa e a Mente original outra. Assim, de novo, com respeito ao Logos, quando alguém lhe atribui o terceiro lugar de produção a partir do Pai; com base nessa suposição ele ignora a sua grandeza; e assim o Logos foi separado bem para longe de Deus. Quanto ao profeta, ele declara a respeito dele: Quem descreverá a sua geração? Mas vós pretendeis expor a sua geração a partir do Pai, e transferis a produção da palavra dos homens, que se por meio de uma língua, ao Verbo de Deus, e assim sois, com justiça, expostos por vós mesmos como não conhecendo nem as coisas humanas nem as divinas. Mas, inflados de razão além da medida pela vossa própria sabedoria, sustentais com presunção que conheceis os mistérios inefáveis de Deus; ao passo que até o Senhor, o próprio Filho de Deus, admitiu que somente o Pai conhece o exato dia e a hora do juízo, quando declara com clareza: Mas daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem o Filho, mas o Pai. Se, então, o Filho não se envergonhou de atribuir o conhecimento daquele dia somente ao Pai, mas declarou o que era verdadeiro a respeito da matéria, também nós não nos envergonhemos de reservar para Deus aquelas questões maiores que nos possam ocorrer. Pois ninguém é superior ao seu mestre. Se alguém, portanto, nos diz: Como, então, foi o Filho produzido pelo Pai?, respondemos-lhe que ninguém compreende aquela produção, ou geração, ou chamamento, ou revelação, ou seja qual for o nome com que se descreva a sua geração, que de fato é totalmente indescritível. Nem Valentim, nem Marcião, nem Saturnino, nem Basílides, nem anjos, nem arcanjos, nem principados, nem potestades possuem esse conhecimento, mas o Pai que gerou e o Filho que foi gerado. Visto, portanto, que a sua geração é inefável, os que se empenham em expor gerações e produções não podem estar em seu juízo perfeito, na medida em que se propõem a descrever coisas que são indescritíveis. Pois que uma palavra é proferida ao comando do pensamento e da mente, todos os homens de fato bem entendem. Aqueles, portanto, que excogitaram a teoria das emissões não descobriram nada de grande nem revelaram nenhum mistério profundo, quando simplesmente transferiram o que todos entendem para o Verbo unigênito de Deus; e, embora o chamem inefável e inominável, contudo expõem a produção e a formação da sua primeira geração, como se eles próprios tivessem assistido ao seu nascimento, assimilando-o assim à palavra da humanidade formada por emissões. Mas não erraremos se afirmarmos a mesma coisa também a respeito da substância da matéria, que Deus a produziu. Pois aprendemos das Escrituras que Deus detém a supremacia sobre todas as coisas. Mas de onde ou de que modo ele a produziu, nem a Escritura o declarou em parte alguma, nem nos convém conjeturar, de modo a, conforme as nossas próprias opiniões, formar conjeturas sem fim a respeito de Deus, mas devemos deixar tal conhecimento nas mãos do próprio Deus. Do mesmo modo, também, devemos deixar a causa por que, embora todas as coisas tenham sido feitas por Deus, certas das suas criaturas pecaram e se revoltaram de um estado de submissão a Deus, enquanto outras, na verdade a grande maioria, perseveraram e ainda perseveram em submissão voluntária Àquele que as formou, e também de que natureza são os que pecaram e de que natureza os que perseveram; devemos, repito, deixar a causa dessas coisas a Deus e ao seu Verbo, somente a quem ele disse: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. Mas, quanto a nós, ainda habitamos sobre a terra e ainda não nos assentamos sobre o seu trono. Pois, embora o Espírito do Salvador que está nele esquadrinhe todas as coisas, até as profundezas de Deus, no entanto, quanto a nós, diversidades de dons, diferenças de administrações e diversidades de operações; e nós, enquanto sobre a terra, como também Paulo declara, conhecemos em parte e profetizamos em parte. Visto, portanto, que conhecemos em parte, devemos deixar todo tipo de questões difíceis nas mãos daquele que em certa medida, e nessa, nos concede graça. Que aquele fogo eterno, por exemplo, está preparado para os pecadores, tanto o Senhor declarou com clareza quanto o resto das Escrituras o demonstra. E que Deus previu que isso aconteceria, as Escrituras igualmente o demonstram, que ele preparou o fogo eterno desde o princípio para os que viriam depois a transgredir os seus mandamentos; mas a própria causa da natureza de tais transgressores nem nenhuma Escritura nos informou, nem nenhum apóstolo nos disse, nem o Senhor nos ensinou. Convém-nos, portanto, deixar o conhecimento desta matéria a Deus, assim como o Senhor faz com o dia e a hora do juízo, e não nos precipitarmos a tal extremo de perigo, a ponto de não deixarmos nada nas mãos de Deus, ainda que tenhamos recebido apenas uma medida de graça neste mundo. Mas, quando investigamos pontos que estão acima de nós, e a respeito dos quais não podemos chegar à satisfação, é absurdo que exibamos tal extremo de presunção a ponto de expor Deus, e coisas que ainda não foram descobertas, como se as tivéssemos descoberto, pela conversa sobre emissões, o próprio Deus, Criador de todas as coisas, e afirmar que ele derivou a sua substância da apostasia e da ignorância, de modo a formar uma hipótese ímpia em oposição a Deus. Além disso, eles não possuem prova alguma do seu sistema, que foi por eles inventado recentemente, baseando-se ora em certos números, ora em sílabas, e ora, de novo, em nomes; e ocasiões, também, em que, por meio daquelas letras contidas em letras, por parábolas mal interpretadas, ou por certas conjeturas sem fundamento, se esforçam por estabelecer aquele relato fabuloso que conceberam. Pois, se alguém perguntar a razão por que o Pai, que tem comunhão com o Filho em todas as coisas, foi declarado pelo Senhor o único a conhecer a hora e o dia do juízo, ele não encontrará no presente razão mais adequada, conveniente ou segura do que esta (já que, de fato, o Senhor é o único Mestre verdadeiro): que possamos aprender por meio dele que o Pai está acima de todas as coisas. Pois o Pai, diz ele, é maior do que eu. O Pai, portanto, foi declarado por nosso Senhor como excedendo a todos quanto ao conhecimento; por esta razão, que também nós, enquanto estivermos ligados ao esquema das coisas deste mundo, deixemos a Deus o conhecimento perfeito e tais questões como as mencionadas, e que de modo algum, ao buscarmos investigar a natureza sublime do Pai, caiamos no perigo de levantar a questão se outro Deus acima de Deus. Mas se algum amante de contendas contradisser o que eu disse, e também o que o apóstolo afirma, que conhecemos em parte e profetizamos em parte, e imaginar que adquiriu não um conhecimento parcial, mas universal, de tudo o que existe, sendo alguém como Valentim, Ptolomeu, Basílides ou qualquer outro dos que afirmam ter esquadrinhado as profundezas de Deus, que ele não se gabe (revestindo-se de vanglória) de ter adquirido maior conhecimento do que os outros a respeito daquelas coisas que são invisíveis ou que não podem ser postas sob a nossa observação; mas que ele, fazendo cuidadosa investigação e obtendo informação do Pai, nos diga as razões (que nós não conhecemos) daquelas coisas que estão neste mundo, como, por exemplo, o número de cabelos da sua própria cabeça, e os pardais que são capturados dia após dia, e outros pontos semelhantes que não conhecemos de antemão, de modo que possamos dar-lhe crédito também a respeito de pontos mais importantes. Mas se aqueles que são perfeitos ainda não compreendem as próprias coisas que têm nas mãos, e a seus pés, e diante dos olhos, e na terra, e especialmente a regra seguida quanto aos cabelos da sua cabeça, como podemos crer neles a respeito de coisas espirituais e supracelestes, e daquelas que, com confiança, eles afirmam estar acima de Deus? Eis tudo o que eu disse a respeito de números, nomes, sílabas e questões sobre tais coisas que estão acima da nossa compreensão, e a respeito das suas exposições impróprias das parábolas; nada acrescento mais sobre esses pontos, que tu mesmo poderás desenvolvê-los.