Contra as Heresias - Livro II 4
Refutacao dos gnosticos pela razao
O conhecimento, as parábolas e os limites do saber
É, portanto, melhor e mais proveitoso pertencer à classe simples e sem instrução e, por meio do amor, alcançar a proximidade de Deus, do que, imaginando-nos sábios e habilidosos, sermos encontrados entre os que blasfemam contra o seu próprio Deus, na medida em que inventam outro Deus como Pai. E por essa razão Paulo exclamou: O conhecimento incha, mas o amor edifica; não que ele quisesse atacar o verdadeiro conhecimento de Deus, pois nesse caso estaria acusando a si mesmo, mas porque sabia que alguns, inflados pela pretensão de conhecimento, se afastam do amor de Deus e imaginam que eles próprios são perfeitos, e por isso apresentam um Criador imperfeito, com o objetivo de pôr fim ao orgulho que sentem por causa de conhecimento desse tipo, ele diz: O conhecimento incha, mas o amor edifica. Ora, não pode haver presunção maior do que esta: que alguém imagine ser melhor e mais perfeito do que Aquele que o fez e o formou, lhe deu o sopro de vida e ordenou que esta mesma coisa viesse a existir. É, portanto, melhor, como eu disse, que alguém não tenha conhecimento algum de nenhuma razão pela qual uma única coisa na criação foi feita, mas creia em Deus e permaneça no seu amor, do que, inflado por conhecimento desse tipo, se afaste daquele amor que é a vida do homem; e que ele não busque nenhum outro conhecimento além do de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que foi crucificado por nós, do que cair em impiedade por meio de perguntas sutis e expressões que dividem cabelos em quatro. Pois como seria, se alguém, gradualmente exaltado por tentativas do tipo mencionado, viesse a investigar o número de cabelos da cabeça de cada pessoa, porque o Senhor disse que até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados, e se esforçasse por descobrir a razão pela qual um homem tem tantos e outro tantos, já que nem todos têm o mesmo número, mas se encontram muitos milhares e milhares com números sempre variados, pelo fato de uns terem cabeças maiores e outros menores, alguns terem cabeleiras cheias, outros ralas e outros quase nenhum cabelo, e então aqueles que imaginam ter descoberto o número dos cabelos se esforçassem por aplicar isso em louvor da própria seita que conceberam? Ou ainda, se alguém, por causa daquela expressão que ocorre no Evangelho, Não se vendem dois pardais por um ceitil? E nem um deles cai por terra sem a vontade do vosso Pai, tomasse ocasião para calcular o número de pardais capturados diariamente, seja em todo o mundo seja em alguma região específica, e fizesse investigação sobre a razão de tantos terem sido capturados ontem, tantos anteontem e tantos de novo hoje, e então ligasse o número de pardais à sua hipótese particular, não estaria nesse caso enganando totalmente a si mesmo e levando à mais absoluta insanidade os que concordam com ele, já que os homens, em tais assuntos, estão sempre ansiosos por serem considerados como tendo descoberto algo mais extraordinário do que os seus mestres? Mas se alguém nos perguntar se todo número de todas as coisas que foram feitas e que são feitas é conhecido de Deus, e se cada um desses números recebeu, segundo a sua providência, aquela quantidade específica que contém; e, concordando nós que assim é, e reconhecendo que nenhuma das coisas que foram, são ou serão feitas escapa ao conhecimento de Deus, mas que, por sua providência, cada uma delas obteve a sua natureza, posição, número e quantidade específica, e que absolutamente nada foi ou é produzido em vão ou por acaso, mas com extrema adequação ao propósito pretendido e no exercício de um conhecimento transcendente, e que foi um intelecto admirável e verdadeiramente divino o que pôde tanto distinguir quanto produzir as causas próprias de tal sistema: se, repito, alguém, tendo obtido a nossa adesão e consentimento a isso, passasse a contar a areia e os seixos da terra, e também as ondas do mar e as estrelas do céu, e se esforçasse por imaginar as causas do número que supõe ter descoberto, não seria o seu trabalho em vão, e não seria tal homem com justiça declarado louco e destituído de razão por todos os que têm bom senso? E quanto mais ele se ocupasse, além dos outros, de questões desse tipo, e quanto mais imaginasse descobrir além dos outros, chamando-os de inábeis, ignorantes e seres animais, porque não entram no seu trabalho tão inútil, tanto mais ele estaria, na realidade, insano, tolo, fulminado por assim dizer, já que de fato em nenhum ponto se reconhece inferior a Deus; mas, pelo conhecimento que imagina ter descoberto, ele muda o próprio Deus e exalta a própria opinião acima da grandeza do Criador.