Capítulos

A Guerra dos Judeus - Livro VII

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas judaicas da Galileia na revolta contra Roma iniciada em 66. O general Vespasiano o capturou no cerco de Jotapata, e Josefo teria predito a ele a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

A Guerra dos Judeus é uma história da revolta judaica contra Roma em sete livros. Josefo a redigiu primeiro num idioma do Oriente, descrito por ele como a língua paterna, em geral entendido como aramaico, e depois preparou a versão grega que chegou até nós. A obra foi composta e publicada em etapas, provavelmente entre 75 e 79 d.C., sob o patrocínio direto de Vespasiano e de seu filho Tito, ambos protagonistas da guerra e do triunfo que ela narra.

O Livro VII na Obra

O Livro VII encerra a obra e cobre o desfecho da guerra, depois que o Templo já havia sido incendiado e a cidade tomada no Livro VI. A narrativa começa com a demolição de Jerusalém e se desloca para Roma, onde Vespasiano e Tito celebram o grande triunfo flaviano, exibindo os despojos do Templo e executando o chefe rebelde Simão. Em seguida acompanha a redução das últimas fortalezas que ainda resistiam, Maquero e Massada, e os focos remanescentes de sicários no Egito e em Cirene. É o livro do epílogo: a guerra militar já está decidida, e o que resta é o encerramento político e simbólico do conflito.

Conteúdo do Livro

    O fim de Jerusalém e o destino dos chefes rebeldes

  • A demolição de Jerusalém, poupadas apenas três torres, o discurso de Tito aos soldados, a distribuição de recompensas e a dispensa de boa parte das tropas(A Guerra dos Judeus - Livro VII 1)
  • Os espetáculos oferecidos por Tito em Cesareia de Filipe e a captura do líder rebelde Simão, reservado para a cerimônia do triunfo em Roma(A Guerra dos Judeus - Livro VII 2)
  • Os jogos pelos aniversários do pai e do irmão de Tito, com a morte de muitos prisioneiros judeus, e o perigo corrido pelos judeus de Antioquia depois das acusações de um deles, chamado Antíoco(A Guerra dos Judeus - Livro VII 3)
  • Roma vitoriosa e o triunfo flaviano

  • A recepção de Vespasiano em Roma, a revolta dos germanos contra os romanos e a devastação da Mésia pelos sármatas, ambas contidas(A Guerra dos Judeus - Livro VII 4)
  • O rio sabático observado por Tito na Síria, a recusa do pedido dos antioquenos contra os judeus e o relato do grande triunfo de Vespasiano e Tito em Roma(A Guerra dos Judeus - Livro VII 5)
  • Cidadelas remanescentes e revoltas nas fronteiras

  • A tomada da fortaleza de Maquero e de outros pontos resistentes por Lúcio Baso(A Guerra dos Judeus - Livro VII 6)
  • A desgraça que se abateu sobre Antíoco, rei de Comagena, e a incursão dos alanos, com os danos que causaram aos medos e aos armênios(A Guerra dos Judeus - Livro VII 7)
  • O cerco de Massada

  • A fortaleza de Massada e os sicários que a mantinham, o cerco montado por Flávio Silva e os discursos de Eleazar aos sitiados(A Guerra dos Judeus - Livro VII 8)
  • A adesão dos defensores às palavras de Eleazar e a decisão de morrerem uns pelas mãos dos outros, com a sobrevivência apenas de duas mulheres e cinco crianças(A Guerra dos Judeus - Livro VII 9)
  • Os últimos focos de resistência

  • A fuga de muitos sicários para Alexandria, os perigos que enfrentaram lá e a destruição do templo judaico que o sumo sacerdote Onias havia erguido antes no Egito(A Guerra dos Judeus - Livro VII 10)
  • Jônatas, um dos sicários, que provocou uma revolta em Cirene e atuou como falso acusador de inocentes, encerrando a obra(A Guerra dos Judeus - Livro VII 11)

O Triunfo em Roma

Uma das passagens mais detalhadas da obra é a descrição do triunfo celebrado em Roma por Vespasiano e Tito. Josefo, presente na cidade como cliente da corte, descreve o cortejo, os quadros que retratavam as batalhas e os despojos do Templo de Jerusalém levados em desfile, entre eles a mesa de ouro e o candelabro de sete braços. No ponto culminante, o líder rebelde Simão, filho de Giora, é conduzido na procissão com uma corda ao pescoço e executado no fórum, segundo o costume romano. O relato funciona como peça oficial da propaganda flaviana, que usou a vitória sobre a Judeia para legitimar a nova dinastia, e convém lê-lo com essa moldura em mente.

Massada

O episódio mais conhecido do Livro VII é o cerco de Massada, fortaleza no deserto da Judeia defendida por um grupo de sicários sob Eleazar ben Yair. Josefo descreve a rampa de assalto construída pelos romanos sob Flávio Silva e, diante da queda iminente, dois discursos de Eleazar exortando os sitiados a se matarem em vez de cair como escravos. Pelo relato, os homens mataram as próprias famílias e depois uns aos outros por sorteio, restando vivas apenas duas mulheres e cinco crianças, que teriam transmitido a história. A historicidade desse desfecho é debatida. As escavações de Yigael Yadin, nos anos 1960, confirmaram a fortaleza, a rampa romana e o acampamento, mas não encontraram os quase mil corpos que Josefo menciona, e alguns dos detalhes que ele dá sobre o local não batem com a arqueologia. Parte dos estudiosos questiona se houve de fato um suicídio coletivo nos moldes narrados, ou se a cena foi em boa medida construção literária de Josefo. Não há consenso.

Fontes e Método

Para a guerra, Josefo é em larga medida testemunha ocular. Foi comandante na Galileia no início do conflito, depois prisioneiro e, por fim, esteve no séquito de Tito durante o cerco de Jerusalém. Para a parte romana, ele afirma ter usado os comentários de campanha de Vespasiano e Tito, além de informações de prisioneiros e desertores. Esse acesso é o que dá ao relato sua riqueza de detalhe, mas é também a origem de seu viés. Josefo escreve como cliente da dinastia que venceu a guerra, com interesse claro em poupar os romanos da culpa pela destruição do Templo e em atribuir o desastre às facções judaicas radicais. O leitor deve descontar esse programa ao avaliar julgamentos e motivações que ele atribui aos personagens.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego da Guerra dos Judeus sobrevive em manuscritos medievais, e a edição crítica de referência é a de Benedikt Niese, do fim do século XIX. No Ocidente latino circulou também uma reelaboração livre conhecida como De excidio Hierosolymitano, atribuída ao Pseudo-Hegésipo, do século IV, que moldou parte da recepção cristã medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

A Guerra dos Judeus é a fonte primária insubstituível sobre a revolta judaica e a queda de Jerusalém. Sem ela, saberíamos muito pouco sobre o conflito. Ainda assim, exige cautelas conhecidas. Josefo tende a inflar números de combatentes e de mortos, recurso retórico comum na historiografia antiga. Seu relato é moldado por um programa apologético duplo, que defende os romanos e responsabiliza os rebeldes. E episódios como Massada são construídos com forte carga dramática, mais como exemplo moral do que como crônica fria. Apesar disso, a arqueologia ancora o núcleo da narrativa: a fortaleza de Massada e as obras de cerco romanas, o sítio de Jotapata onde Josefo foi capturado e os vestígios da destruição do Templo de Jerusalém são compatíveis com o que ele descreve, o que dá base material ao essencial do livro mesmo onde os detalhes são duvidosos.