A Guerra dos Judeus - Livro VII 1
Livro VII: o triunfo em Roma e Massada
Como toda a cidade de Jerusalém foi demolida, com exceção de três torres. E como Tito elogiou seus soldados em um discurso que lhes dirigiu, distribuiu recompensas a eles e depois dispensou muitos deles.
Assim que o exército não encontrou mais ninguém para matar ou saquear, porque não restava ninguém sobre quem despejar sua fúria (e eles não teriam poupado ninguém, caso ainda houvesse algo a fazer), César deu ordens para que demolissem a cidade inteira e o templo. No entanto, devia deixar de pé as torres mais imponentes, isto é, Fasael, Hípico e Mariane, e também a parte da muralha que cercava a cidade pelo lado oeste. Essa muralha foi poupada para servir de acampamento aos soldados que ficariam de guarnição. As torres foram poupadas para mostrar à posteridade que tipo de cidade era aquela e quão bem fortificada estava a cidade que o valor romano havia subjugado. Todo o resto da muralha foi tão completamente arrasado até o chão pelos que a escavaram até os alicerces, que nada sobrou para fazer quem chegasse ali acreditar que aquele lugar um dia fora habitado. Esse foi o fim a que Jerusalém chegou, pela loucura dos que queriam novidades. Era, no mais, uma cidade de grande magnificência e de imensa fama entre toda a humanidade.
Mas César decidiu deixar ali, como guarda, a décima legião, com alguns esquadrões de cavalaria e companhias de infantaria. Tendo encerrado por completo esta guerra, ele quis elogiar todo o seu exército pelos grandes feitos que haviam realizado e conceder recompensas adequadas aos que tinham se destacado. Por isso mandou construir um grande tribunal para si no meio do lugar onde antes havia acampado, e subiu nele cercado de seus principais comandantes. Falou de modo a ser ouvido por todo o exército, da seguinte maneira: Agradecia profundamente a boa vontade que haviam demonstrado para com ele. Elogiava-os pela pronta obediência que tinham mostrado durante toda esta guerra, obediência que se manifestara nos muitos e grandes perigos que enfrentaram com coragem. Elogiava também a bravura que haviam exibido, com a qual ampliaram por si mesmos o poder de sua pátria e deixaram claro a todos os homens que nem a multidão de inimigos, nem a força de suas posições, nem o tamanho de suas cidades, nem a audácia precipitada e a fúria brutal de seus adversários jamais bastaram para escapar do valor romano, ainda que alguns deles pudessem contar com a sorte a seu favor em muitos aspectos. Disse ainda que era justo que pusessem fim a esta guerra, agora que ela já durava tanto tempo, pois nada melhor poderiam desejar quando entraram nela. E que isso lhes acontecia de modo mais favorável e mais glorioso, já que todos os romanos haviam aceitado de bom grado, como governadores e administradores de seus domínios, aqueles que tinham sido escolhidos para eles e enviados ao próprio país com esse propósito, e que tais domínios continuavam sob a gestão dos que haviam sido designados, gratos a quem os designou. Por isso, ainda que admirasse e estimasse a todos com carinho, porque sabia que cada um havia cumprido sua tarefa com tanta disposição quanto suas capacidades e oportunidades permitiam, declarava que concederia imediatamente recompensas e honras aos que lutaram com mais bravura e maior vigor, que se destacaram em sua conduta da forma mais gloriosa e tornaram seu exército mais famoso por seus nobres feitos. E que ninguém que estivesse disposto a se esforçar mais do que os outros ficaria sem a justa retribuição por isso. Pois ele tivera enorme cuidado com esse assunto, ainda mais porque preferia recompensar as virtudes de seus companheiros de armas a punir os que cometessem faltas.
Então Tito ordenou aos encarregados que lessem a lista de todos os que tinham realizado grandes feitos nesta guerra. Chamou cada um pelo nome, elogiou-os diante de todos e alegrou-se com eles como um homem se alegraria com seus próprios feitos. Colocou em suas cabeças coroas de ouro e ornamentos de ouro em volta do pescoço, deu-lhes longas lanças de ouro e estandartes feitos de prata, e promoveu cada um deles a um posto mais alto. Além disso, distribuiu entre eles em abundância, dos despojos e do restante do saque que tinham tomado, prata, ouro e roupas. Depois que todos receberam essas honras, conforme o que ele havia determinado a cada um, e que desejou todo tipo de felicidade ao exército inteiro, desceu em meio às grandes aclamações que lhe faziam. Em seguida dedicou-se a oferecer sacrifícios de ação de graças [aos deuses], e de uma só vez sacrificou um número imenso de bois que estavam prontos junto aos altares, distribuindo-os entre o exército para o banquete. Tendo permanecido três dias entre os principais comandantes, festejando com eles durante esse tempo, enviou o restante do exército aos diversos lugares onde cada um ficaria mais bem posicionado, mas permitiu que a décima legião ficasse como guarda em Jerusalém, sem mandá-la de volta para além do Eufrates, onde estivera antes. E como se lembrava de que a décima segunda legião havia cedido aos judeus sob o comando de Cestio Galo, seu general, expulsou-a de toda a Síria, pois antes estivera estacionada em Rafaneia, e enviou-a para um lugar chamado Meletine, perto do Eufrates, na fronteira entre a Armênia e a Capadócia. Achou conveniente também que duas das legiões ficassem com ele até que partisse para o Egito. Depois desceu com seu exército àquela Cesareia que fica à beira-mar, e ali guardou o restante de seus despojos, em grandes quantidades, e deu ordem para que os cativos fossem mantidos lá. Pois a estação do inverno o impediu, naquele momento, de navegar para a Itália.