A Guerra dos Judeus - Livro VII 9
Livro VII: o triunfo em Roma e Massada
Como as pessoas que estavam na fortaleza foram convencidas pelas palavras de Eleazar, com a exceção apenas de duas mulheres e cinco crianças, e todos consentiram em ser mortos uns pelos outros.
Eleazar ainda prosseguia em sua exortação quando todos o interromperam e se apressaram a executar a tarefa, tomados por um ardor invencível e movidos por uma fúria desvairada. Saíram, então, cada um tentando chegar antes do outro, como se essa pressa fosse a prova da própria coragem e do bom desempenho, pois ninguém queria ficar para o último grupo. Tão grande era o zelo com que se dispunham a matar as esposas, os filhos e a si mesmos. E, ao chegar a hora de agir, a coragem não os abandonou, como seria de esperar. Mantiveram firme, sem vacilar, a mesma resolução que tinham assumido ao ouvir o discurso de Eleazar, embora cada um ainda conservasse o amor natural por si mesmo e pela própria família. É que o raciocínio que os guiava lhes parecia inteiramente justo, mesmo em relação às pessoas que lhes eram mais caras. Os maridos abraçaram ternamente as esposas, tomaram os filhos nos braços e lhes deram os últimos beijos de despedida, com lágrimas nos olhos. Ainda assim, levaram a cabo o que tinham decidido, como se a execução estivesse sendo feita por mãos estranhas. Não tinham outro consolo a não ser a necessidade de praticar aquela morte, para evitar o quadro de sofrimentos que esperavam padecer das mãos dos inimigos. E, no fim, não se encontrou um único homem entre eles que hesitasse em cumprir o seu papel naquela terrível execução: cada um deu cabo dos parentes mais queridos. Homens de fato miseráveis, cuja aflição os obrigou a matar com as próprias mãos as esposas e os filhos, tomando isso como o mais leve dos males que tinham pela frente. Incapazes de suportar por mais tempo a dor pelo que tinham feito, e julgando uma ofensa aos que haviam matado continuar vivos sequer por um instante depois deles, logo amontoaram tudo o que possuíam e atearam fogo. Em seguida, escolheram dez homens por sorteio, dentre eles, para matar todos os demais. Cada um se deitou no chão ao lado da esposa e dos filhos, lançou os braços ao redor deles e ofereceu o pescoço ao golpe daqueles que o sorteio designara para cumprir aquele triste ofício. Depois que esses dez mataram a todos sem medo, estabeleceram entre si a mesma regra de sorteio: aquele a quem coubesse a sorte mataria primeiro os outros nove e, por último, se mataria a si mesmo. Todos tinham coragem suficiente para não ficar atrás uns dos outros, fosse no agir, fosse no morrer. Assim, para concluir, os nove ofereceram o pescoço ao executor. E o último de todos examinou os demais corpos, com receio de que, entre tantos mortos, algum ainda precisasse de sua ajuda para morrer por completo. Ao perceber que estavam todos mortos, ateou fogo ao palácio e, com toda a força do braço, atravessou a si mesmo com a espada de lado a lado, caindo morto junto aos próprios parentes. Esses homens morreram, então, com o propósito de não deixar viva sequer uma única alma entre todos eles que viesse a ficar sujeita aos romanos. Mas havia uma mulher idosa, e outra que era parente de Eleazar e superava a maioria das mulheres em prudência e instrução, com cinco crianças, que tinham se escondido em cavernas subterrâneas. Elas haviam levado água para lá, para beber, e ali ficaram ocultas enquanto os outros estavam concentrados em matar uns aos outros. Os demais somavam novecentos e sessenta pessoas, incluídas nesse cálculo as mulheres e as crianças. Esse trágico massacre ocorreu no décimo quinto dia do mês de Xântico [Nisã].
Os romanos, por sua vez, esperavam ter de combater pela manhã. Por isso, vestiram a armadura, lançaram pontes de pranchas sobre as escadas, a partir dos aterros, para dar o assalto à fortaleza. E assim fizeram. Mas não viram nenhum inimigo, apenas uma solidão aterradora por toda parte, com um incêndio dentro do lugar e um silêncio absoluto. Ficaram sem saber o que tinha acontecido. Por fim, deram um grito, como se fosse o golpe do aríete, para ver se conseguiam fazer sair alguém de dentro. As mulheres ouviram esse ruído, saíram da caverna subterrânea e contaram aos romanos o que havia sido feito, tal como aconteceu. A segunda delas descreveu com clareza tudo, o que foi dito e o que foi feito, e de que maneira. Mesmo assim, os romanos não deram crédito com facilidade a um empreendimento tão desesperado e não acreditaram que pudesse ter sido como elas diziam. Tentaram apagar o fogo e, abrindo rapidamente um caminho por entre as chamas, entraram no palácio e depararam com a multidão de mortos. Não sentiram nenhum prazer com aquilo, ainda que se tratasse de seus inimigos. Não puderam senão admirar a coragem da resolução deles e o desprezo inabalável pela morte que um número tão grande de pessoas demonstrara ao levar adiante uma ação como aquela.