A Guerra dos Judeus - Livro VII 10
Livro VII: o triunfo em Roma e Massada
Como muitos sicários também fugiram para Alexandria e os perigos que ali enfrentaram. Por causa disso, aquele templo que havia sido construído antes pelo sumo sacerdote Onias foi destruído.
Tomada Massada dessa maneira, o general deixou uma guarnição na fortaleza para mantê-la e partiu para Cesareia. Já não restava nenhum inimigo no país, mas a região inteira estava arruinada por uma guerra tão longa. Mesmo assim, essa guerra provocou distúrbios e desordens perigosas até em lugares muito distantes da Judeia. Aconteceu, por exemplo, que muitos judeus foram mortos em Alexandria, no Egito. Todos os sicários que conseguiram fugir para lá, escapando das guerras sediciosas da Judeia, não se contentaram em ter salvado a própria vida. Insistiram em provocar novas perturbações e convenceram muitos daqueles que os acolheram a reivindicar a liberdade, a considerar os romanos não melhores que eles mesmos e a ver em Deus o seu único Senhor e Mestre. Parte dos judeus de reputação se opôs a eles. Os sicários mataram alguns desses homens e pressionaram fortemente os outros, exortando-os a se rebelar contra os romanos. Quando os principais membros do conselho viram a que loucura aqueles tinham chegado, julgaram que já não era seguro fechar os olhos para o caso. Reuniram, então, todos os judeus em assembleia, denunciaram a loucura dos sicários e demonstraram que eles tinham sido os autores de todos os males que haviam recaído sobre o povo. Disseram ainda: "Esses homens fugiram da Judeia e não têm nenhuma esperança segura de escapar, porque, assim que forem identificados, logo serão destruídos pelos romanos. Vêm para cá e nos enchem das calamidades que pertencem a eles, sem que tenhamos participado de qualquer um de seus crimes." Por isso exortaram a multidão a tomar cuidado para não acabar destruída por causa deles, e a se justificar diante dos romanos pelo que fora feito, entregando esses homens. Cientes da gravidade do perigo em que estavam, os judeus concordaram com a proposta. Avançaram com grande violência sobre os sicários e os prenderam. Seiscentos deles foram capturados imediatamente. Quanto a todos os que fugiram para o Egito e para a Tebas egípcia, não demorou muito até que também fossem capturados e trazidos de volta. A coragem deles, ou, se assim devemos chamar, a loucura, ou a obstinação em suas convicções, deixou todo mundo espantado. Usaram contra eles toda sorte de tormentos e torturas corporais que se pôde inventar, e mesmo assim não conseguiram fazer um único deles ceder a ponto de confessar, ou sequer aparentar confessar, que César era o seu senhor. Eles mantiveram a própria convicção apesar de todo o sofrimento a que foram submetidos, como se recebessem aqueles tormentos, e o próprio fogo, com corpos insensíveis à dor e com uma alma que, de certo modo, se alegrava sob eles. O que mais espantou os que assistiam foi a coragem das crianças. Nem uma só delas se deixou vencer pelos tormentos a ponto de chamar César de senhor. A tal ponto a força da coragem da alma prevalece sobre a fraqueza do corpo.
Lupo governava então Alexandria. Ele logo mandou avisar César dessa agitação. César, que suspeitava do temperamento inquieto dos judeus e de sua tendência à inovação, temendo que voltassem a se reunir e convencessem outros a se juntar a eles, deu ordens a Lupo para demolir aquele templo judaico que ficava na região chamada Ônion, no Egito. Esse templo foi construído e recebeu seu nome pela seguinte ocasião. Onias, filho de Simão, um dos sumos sacerdotes judeus, fugiu de Antíoco, rei da Síria, quando este fez guerra contra os judeus, e chegou a Alexandria. Ptolomeu o recebeu com muita bondade, por causa de seu ódio a Antíoco. Onias garantiu ao rei que, se atendesse à sua proposta, traria todos os judeus em seu auxílio. O rei concordou em fazer isso na medida de suas forças. Onias então lhe pediu permissão para construir um templo em algum lugar do Egito e adorar a Deus segundo os costumes do seu próprio país. Dizia que assim os judeus ficariam muito mais dispostos a lutar contra Antíoco, que havia devastado o templo de Jerusalém, e que viriam a ele com maior boa vontade. Concedendo-lhes liberdade de consciência, acrescentava, muitos deles passariam para o lado do rei.
Ptolomeu atendeu às propostas e lhe deu um lugar a cento e oitenta estádios de distância de Mênfis. Aquele Nomo se chamava o Nomo de Heliópolis. Ali Onias construiu uma fortaleza e um templo, não parecido com o de Jerusalém, mas semelhante a uma torre. Edificou-o com pedras grandes, até a altura de sessenta côvados. Fez a estrutura do altar à imitação da que existe em nosso próprio país, e a ornamentou da mesma forma com presentes, com exceção da feitura do candelabro. Ele não fez um candelabro, mas mandou forjar uma única lâmpada de uma peça de ouro, que iluminava o lugar com seus raios e que ele suspendeu por uma corrente de ouro. O templo inteiro era cercado por um muro de tijolo cozido, embora tivesse portões de pedra. O rei também lhe deu um vasto território como renda em dinheiro, para que os sacerdotes tivessem um sustento farto e para que Deus tivesse grande abundância das coisas necessárias ao seu culto. Onias, no entanto, não fez isso por uma disposição sóbria de espírito. Tinha a intenção de rivalizar com os judeus de Jerusalém e não conseguia esquecer a indignação que sentia por ter sido banido de lá. Por isso pensava que, construindo esse templo, atrairia para si um grande número de pessoas, tirando-as deles. Havia também uma certa profecia antiga, feita por um profeta chamado Isaías cerca de seiscentos anos antes, de que esse templo seria construído por um homem judeu no Egito. E essa é a história da construção daquele templo.
Lupo, o governador de Alexandria, ao receber a carta de César, foi até o templo, retirou de lá algumas das oferendas a ele dedicadas e fechou o próprio templo. Como Lupo morreu pouco depois [por volta de 75 d.C.], Paulino o sucedeu. Esse homem não deixou ali nenhuma daquelas oferendas e ameaçou severamente os sacerdotes, caso não as trouxessem todas para fora. Tampouco permitiu que ninguém que desejasse adorar a Deus naquele lugar chegasse sequer perto de todo o recinto sagrado. Depois de fechar os portões, tornou o lugar inteiramente inacessível, de modo que não restou mais o menor vestígio de qualquer culto divino que houvera ali. A duração do tempo desde a construção desse templo até ser fechado de novo foi de trezentos e quarenta e três anos.