A Guerra dos Judeus - Livro VII 7
Livro VII: o triunfo em Roma e Massada
Sobre a calamidade que se abateu sobre Antíoco, rei de Comagena. E também sobre os alanos, e os grandes danos que causaram aos medos e aos armênios.
No quarto ano do reinado de Vespasiano, aconteceu que Antíoco, rei de Comagena, com toda a sua família, caiu em grandes calamidades. A causa foi a seguinte. Cesênio Peto, que naquela época era governador da Síria, enviou uma carta ao imperador (não se sabe se por respeito à verdade ou por ódio a Antíoco, pois o verdadeiro motivo nunca ficou totalmente claro). Nela, dizia que Antíoco, junto com seu filho Epifânio, havia decidido se rebelar contra os romanos e havia firmado uma aliança com o rei da Pártia para esse fim. Por isso, era preciso agir primeiro contra eles, para que não agissem primeiro contra os romanos e iniciassem uma guerra capaz de provocar perturbação geral em todo o Império. O imperador resolveu cuidar do assunto, já que essa denúncia fora feita, pois a proximidade dos reinos tornava a questão digna de maior atenção. Samósata, a capital de Comagena, fica às margens do Eufrates. Diante de um plano como esse, ela ofereceria aos partos passagem fácil sobre o rio e também um refúgio seguro. Peto foi, portanto, acreditado, e recebeu autoridade para fazer o que julgasse conveniente no caso. Assim, agiu sem demora e atacou Comagena antes que Antíoco e seu povo esperassem sua chegada. Levou consigo a décima legião, além de algumas coortes e tropas de cavalaria. Estes reis também vieram em seu auxílio: Aristóbulo, rei da região chamada Calcidene, e Soemo, chamado rei de Emesa. Não houve resistência às suas forças quando entraram no reino, pois ninguém daquele país sequer levantou a mão contra eles. Quando Antíoco soube dessa notícia inesperada, nem cogitou guerrear contra os romanos. Decidiu deixar todo o reino no estado em que se encontrava e se retirar discretamente com a esposa e os filhos, pensando que assim mostraria aos romanos ser inocente da acusação que lhe fora feita. Saiu então daquela cidade, foi até uma planície a cento e vinte estádios de distância e ali armou as suas tendas.
Peto enviou então alguns de seus homens para tomar Samósata, e por meio deles ocupou aquela cidade, enquanto ele mesmo foi atacar Antíoco com o resto do exército. Mas o rei, apesar da aflição em que estava, não se deixou levar a empreender nada de guerra contra os romanos. Lamentou seu próprio destino cruel e suportou com paciência o que não conseguia evitar. Seus filhos, no entanto, que eram jovens e inexperientes na guerra, mas de corpos robustos, não aceitaram facilmente sofrer aquela calamidade sem lutar. Epifânio e Calínico, então, recorreram à força das armas. A batalha foi dura e durou o dia inteiro, e eles mostraram sua coragem de modo notável. Só a chegada da noite pôs fim ao combate, e isso sem qualquer perda de suas forças. Mesmo com esse desfecho do confronto, Antíoco não quis de jeito nenhum permanecer ali. Tomou a esposa e as filhas e fugiu com elas para a Cilícia, e ao agir assim desanimou por completo os seus próprios soldados. Por isso eles se revoltaram e passaram para o lado dos romanos, levados pelo desespero de ver que o rei não manteria o reino, e a situação dele foi considerada por todos como totalmente perdida. Era necessário, portanto, que Epifânio e seus soldados escapassem dos inimigos antes de ficarem inteiramente sem aliados. Restavam-lhe apenas dez cavaleiros, que cruzaram com ele o Eufrates. Dali seguiram sem ser molestados até Vologeso, o rei da Pártia, onde não foram tratados com desprezo como fugitivos, mas receberam o mesmo respeito que teriam se ainda mantivessem a antiga prosperidade.
Quando Antíoco chegou a Tarso, na Cilícia, Peto ordenou que um centurião fosse até ele e o enviasse acorrentado a Roma. Vespasiano, no entanto, não suportou ver um rei trazido até ele daquela maneira. Achou mais conveniente respeitar a antiga amizade que houvera entre eles do que manter uma ira inflexível sob o pretexto daquela guerra. Por isso, deu ordens para que lhe tirassem as correntes enquanto ele ainda estava na estrada, e que ele não fosse a Roma, mas passasse a viver em Lacedemônia. Concedeu-lhe também rendas generosas, para que vivesse não só na fartura, mas também como rei. Quando Epifânio, que antes temia muito pelo pai, soube disso, sua mente se libertou da enorme e quase incurável angústia em que estava. Ele também passou a esperar que o imperador se reconciliasse com eles, por intercessão de Vologeso. Pois, embora vivesse na fartura, não sabia como suportar viver fora do Império Romano. O imperador, então, lhe deu permissão de modo cordial, e ele veio a Roma. Como o pai logo veio de Lacedemônia ao seu encontro, ele recebeu ali todo tipo de respeito, e ali permaneceu.
Havia uma nação, a dos alanos, que mencionamos antes em algum lugar como sendo cítios e habitantes da região do lago Meótis. Por volta dessa época, essa nação tramou atacar a Média e as terras além dela para saqueá-las. Com essa intenção, negociaram com o rei da Hircânia, pois ele controlava aquela passagem que o rei Alexandre [o Grande] havia fechado com portões de ferro. Esse rei lhes deu permissão de atravessar por ali. Vieram, então, em grandes multidões, caíram de surpresa sobre os medos e saquearam seu país, que encontraram cheio de gente e repleto de muito gado, sem que ninguém ousasse oferecer resistência. Pois Pácoro, o rei daquela região, havia fugido de medo para lugares onde não podiam alcançá-lo facilmente. Tinha entregado a eles tudo o que possuía, e só conseguiu salvar deles a esposa e as concubinas, e isso com dificuldade, depois que haviam sido capturadas, pagando cem talentos pelo resgate. Os alanos, portanto, saquearam o país sem oposição e com grande facilidade, e avançaram até a Armênia, devastando tudo à sua frente. Tiridates era o rei daquele país. Ele saiu ao encontro deles e os enfrentou, mas quase foi capturado vivo na batalha. Um homem lançou-lhe uma rede de grande distância e logo o teria arrastado até si, se Tiridates não tivesse cortado na hora a corda com a espada e fugido, evitando isso. Os alanos, ainda mais enfurecidos por essa cena, devastaram o país. Levaram consigo uma grande multidão de homens e uma grande quantidade do resto do butim que haviam obtido dos dois reinos, e então recuaram de volta para seu próprio país.