A Guerra dos Judeus - Livro VII 3

Livro VII: o triunfo em Roma e Massada

Como Tito, na celebração dos aniversários de seu irmão e de seu pai, mandou matar muitos judeus. A respeito do perigo em que estiveram os judeus de Antioquia por causa da transgressão e da impiedade de um judeu chamado Antíoco.

Enquanto estava em Cesareia, Tito celebrou de maneira esplêndida o aniversário de seu irmão [Domiciano] e, em sua honra, executou boa parte das punições destinadas aos judeus. O número dos que então morreram lutando contra as feras, foram queimados ou foram obrigados a lutar uns contra os outros passou de dois mil e quinhentos. Ainda assim, mesmo destruídos por mil maneiras diferentes, os romanos achavam que esse castigo ficava aquém do que mereciam. Depois disso, César seguiu para Berito, uma cidade da Fenícia e colônia romana. Ficou ali por mais tempo e ofereceu uma celebração ainda mais pomposa pelo aniversário de seu pai, tanto na magnificência dos espetáculos quanto nos enormes gastos que fez com todos os arranjos. Assim, uma grande multidão de cativos foi morta ali da mesma forma que antes.
Aconteceu também, por essa época, que os judeus que viviam em Antioquia se viram acusados e em risco de morte, por causa das agitações que os habitantes de Antioquia levantaram contra eles. Isso se deu tanto pelas calúnias espalhadas naquele momento quanto por certos atos que haviam cometido pouco antes. Sou obrigado a descrever esses fatos, mesmo que de modo breve, para ligar melhor o relato dos acontecimentos seguintes aos que vieram antes.
A nação judaica está amplamente espalhada por toda a terra habitada, entre seus moradores. Por causa da vizinhança, mistura-se especialmente com a Síria, e tinha o maior número de habitantes em Antioquia, devido ao tamanho da cidade. Ali, os reis que vieram depois de Antíoco lhes haviam concedido moradia com a mais tranquila paz. Pois, embora Antíoco, chamado Epifânio, tivesse devastado Jerusalém e saqueado o templo, seus sucessores no reino restituíram aos judeus de Antioquia todas as oferendas de bronze que haviam sido tomadas, dedicaram-nas à sinagoga deles e concederam que tivessem os mesmos direitos de cidadania que os próprios gregos. Como os reis seguintes os trataram da mesma maneira, eles se multiplicaram em grande número e enfeitaram seu templo com belos ornamentos e grande magnificência, usando o que lhes havia sido dado. Também faziam continuamente prosélitos de muitos gregos, e assim, de certo modo, os incorporavam ao seu próprio corpo. Mas, por volta dessa época, quando a guerra começou e Vespasiano tinha acabado de chegar de barco à Síria, todos passaram a nutrir grande ódio contra os judeus. Foi então que um certo homem, chamado Antíoco, da nação judaica e muito respeitado por causa de seu pai, que era líder dos judeus em Antioquia, subiu ao teatro num momento em que o povo de Antioquia estava reunido. Ali se tornou delator contra o próprio pai e acusou tanto a ele quanto a outros de terem decidido incendiar a cidade inteira numa noite. Entregou ainda alguns judeus estrangeiros, como cúmplices desse plano. Quando o povo ouviu isso, não conseguiu conter a fúria e mandou que trouxessem fogo para queimar os que lhes haviam sido entregues. Todos foram imediatamente queimados ali no teatro. O povo também se lançou com violência sobre a multidão dos judeus, supondo que, punindo-os de imediato, salvaria a própria cidade. Quanto a Antíoco, ele atiçava ainda mais a raiva deles e quis dar uma demonstração da própria conversão e do seu ódio aos costumes judaicos, oferecendo sacrifícios à maneira dos gregos. Convenceu também os demais a obrigarem os outros judeus a fazerem o mesmo, pois assim descobririam quem havia conspirado contra eles, que estes se recusariam. Quando o povo de Antioquia fez o teste, alguns poucos cederam, mas os que não cederam foram mortos. Quanto ao próprio Antíoco, ele conseguiu soldados do comandante romano e se tornou um senhor cruel sobre os próprios concidadãos, não permitindo que descansassem no sétimo dia, mas forçando-os a fazer tudo o que costumavam fazer nos outros dias. A tal ponto de aflição os levou nesse assunto que o repouso do sétimo dia foi abolido, não em Antioquia. O mesmo, que teve ali sua origem, foi feito também em outras cidades, da mesma forma, por um breve período.
Depois de os judeus de Antioquia terem passado por essas desgraças, uma segunda calamidade os atingiu. Foi a descrição dela que anunciamos no relato anterior, ao começar a tratar do assunto. Pois neste episódio, em que a praça do mercado de quatro lados foi incendiada, junto com os arquivos, o lugar onde se guardavam os registros públicos e os palácios reais, e foi com dificuldade que então conseguiram conter o fogo, que ameaçava, pela fúria com que se alastrava, tomar a cidade inteira, Antíoco acusou os judeus de serem a causa de todo o dano feito. Isso levou o povo de Antioquia, convencido naquele momento, por causa da confusão em que estavam, de que essa calúnia era verdadeira, a acreditar na acusação daquele homem. Eles teriam acreditado nela mesmo que antes não nutrissem vontade contra os judeus, sobretudo quando consideravam o que havia sido feito antes. E isso a tal ponto que todos se lançaram com violência sobre os acusados, como loucos, numa raiva furiosa, como se tivessem visto os próprios judeus ateando fogo à cidade. Foi com dificuldade que um certo Cneu Colega, o legado, conseguiu convencê-los a permitir que o caso fosse levado a César. Quanto a Cesênio Peto, o governador da Síria, Vespasiano o havia enviado para fora, e por isso acontecia que ele ainda não tinha voltado. Mas, quando Colega investigou o assunto com cuidado, descobriu a verdade: nenhum daqueles judeus acusados por Antíoco tinha qualquer participação no fato. Tudo havia sido feito por alguns homens vis, muito endividados, que supunham que, se conseguissem incendiar a praça do mercado e queimar os registros públicos, ninguém mais lhes cobraria as dívidas. Assim, os judeus ficaram em grande perturbação e terror, na incerteza sobre qual seria o desfecho dessas acusações contra eles.