A Guerra dos Judeus - Livro VII 6

Livro VII: o triunfo em Roma e Massada

Sobre Maquero, e como Lúcio Baso tomou aquela cidadela e outros lugares.

Lúcio Baso foi enviado como legado à Judeia. Ali recebeu o exército das mãos de Cerialis Vitelliano e tomou a cidadela que ficava em Herodião, junto com a guarnição que havia nela. Em seguida reuniu toda a tropa que estava na região (um contingente grande, mas espalhado em vários grupos) e, com a décima legião, decidiu fazer guerra contra Maquero. Era muito necessário demolir aquela cidadela, para que sua força não servisse de pretexto a uma rebelião que arrastasse muita gente. A natureza do lugar era plenamente capaz de dar as mais firmes esperanças de segurança a quem o ocupasse, e de impor demora e medo a quem o atacasse. O recinto murado era em si um morro muito rochoso, elevado a grande altura, o que por si tornava o lugar muito difícil de submeter. A natureza também o dispôs de modo que não se podia escalá-lo com facilidade. Ele é como que cercado por vales tão fundos em todos os lados que a vista não alcança o fundo deles. Não se atravessam facilmente, e é impossível enchê-los de terra. O vale que o corta a oeste estende-se por sessenta estádios e termina ao chegar ao lago Asfaltite. Foi também desse lado que Maquero teve o topo mais alto de seu morro erguido acima dos demais. Quanto aos vales que ficam ao norte e ao sul, embora não sejam tão amplos quanto o descrito, é igualmente impraticável pensar em transpô-los. E o vale que fica do lado leste tem profundidade não menor que cem côvados. Ele se estende até um monte situado defronte de Maquero, onde encontra seu limite.
Quando Alexandre [Janeu], o rei dos judeus, observou a natureza desse lugar, foi o primeiro a construir uma cidadela ali, a qual depois foi demolida por Gabínio, quando ele fez guerra contra Aristóbulo. Mas quando Herodes se tornou rei, julgou o lugar digno do máximo cuidado e de ser edificado da forma mais sólida, sobretudo por ficar tão perto da Arábia. Ele está situado em local conveniente para esse fim e tem vista para aquele país. Herodes então cercou um amplo espaço de terreno com muralhas e torres, e construiu ali uma cidade. Dessa cidade partia um caminho que subia até a própria cidadela, no alto do monte. Mais que isso: ele ergueu uma muralha em volta do topo do morro e levantou torres nos cantos, com cento e sessenta côvados de altura. No meio desse espaço construiu um palácio de modo magnífico, com edifícios grandes e belos. Fez também muitos reservatórios para captar água, de modo que houvesse fartura dela pronta para todo uso, e os colocou nos lugares mais apropriados que o terreno oferecia. Assim ele como que disputou com a natureza do lugar, para superar a força e a segurança naturais (que por si tornavam o local difícil de tomar) por meio das fortificações feitas por mãos humanas. Além disso, guardou ali grande quantidade de dardos e outras máquinas de guerra, e tratou de levar para tudo o que de algum modo pudesse contribuir para a segurança dos habitantes no mais longo cerco possível.
Dentro desse palácio crescia uma espécie de arruda digna de admiração pelo tamanho. Não era de modo algum inferior a qualquer figueira, seja em altura, seja em grossura. Conta-se que ela durava desde os tempos de Herodes, e provavelmente teria durado muito mais se não fosse cortada pelos judeus que depois tomaram o lugar. No vale que cerca a cidade pelo lado norte um certo lugar chamado Baaras, que produz uma raiz com o mesmo nome. Sua cor é parecida com a da chama, e ao anoitecer emite um certo raio semelhante a um relâmpago. Não é fácil de colher por quem tenta, pois recua das mãos e não se deixa apanhar com tranquilidade, a menos que se derrame sobre ela urina de mulher ou seu sangue menstrual. E mesmo então é morte certa para quem a toca, a não ser que a pessoa pegue a raiz e a deixe pendurada da mão, carregando-a assim. ainda outro modo de colhê-la sem perigo, que é este: cavam uma vala em volta dela até que a parte oculta da raiz fique bem fina. Depois amarram um cão a ela. Quando o cão se esforça por seguir quem o amarrou, a raiz é facilmente arrancada, mas o cão morre na hora, como se morresse no lugar do homem que ia retirar a planta. Depois disso ninguém precisa ter medo de pegá-la nas mãos. Apesar de todo esse trabalho para obtê-la, ela vale por uma virtude que possui: se for apenas levada aos doentes, logo expulsa os chamados demônios, que nada mais são que os espíritos dos maus, que entram em pessoas vivas e as matam, a menos que estas consigam algum socorro contra eles. também ali fontes de água quente que brotam desse lugar, e têm sabor muito diferente umas das outras. Algumas são amargas, outras claramente doces. também muitos jorros de águas frias, e isso não nos lugares mais baixos, onde as fontes ficam próximas umas das outras, mas, o que é ainda mais admirável, vê-se ali perto uma certa gruta, cuja cavidade não é profunda, coberta por uma rocha saliente. Acima dessa rocha erguem-se dois [montes ou] seios, por assim dizer, um pouco afastados um do outro. Um deles lança uma fonte muito fria, e o outro lança uma muito quente. Essas águas, quando se misturam, formam um banho dos mais agradáveis. São de fato medicinais para outras enfermidades, mas especialmente boas para fortalecer os nervos. Esse lugar também tem minas de enxofre e de alúmen.
Quando Baso examinou bem o lugar, decidiu sitiá-lo enchendo o vale que ficava do lado leste. Pôs-se então a um trabalho árduo e se esforçou muito para erguer suas rampas o mais rápido possível, e assim tornar o cerco fácil. Quanto aos judeus que estavam presos no local, eles se separaram dos estrangeiros que estavam com eles. Obrigaram esses estrangeiros, como uma multidão de resto inútil, a ficar na parte baixa da cidade e a enfrentar os principais perigos, enquanto eles mesmos tomavam a cidadela superior e a mantinham, tanto por causa de sua força quanto para garantir a própria segurança. Supunham também que poderiam obter perdão caso [afinal] entregassem a cidadela. Mas quiseram primeiro testar se a esperança que tinham de evitar o cerco daria em algo. Com essa intenção faziam investidas todos os dias e lutavam com quem os encontrasse. Nesses combates muitos deles morriam, assim como ali matavam muitos romanos. A vitória de cada lado dependia sobretudo das oportunidades que surgiam. Os judeus venciam quando caíam sobre os romanos desprevenidos; os romanos venciam quando, nas investidas dos outros contra as rampas, previam a chegada deles e estavam de guarda ao recebê-los. Mas o desfecho do cerco não dependeu dessas escaramuças. Um certo acidente surpreendente, ligado ao que se passou no cerco, forçou os judeus a entregar a cidadela. Havia entre os sitiados um jovem de grande audácia e de mão muito ágil. Seu nome era Eleazar. Ele se destacava muito nessas investidas e animava os judeus a sair em grande número para impedir a construção das rampas, e causava enorme dano aos romanos quando se chegava ao combate. Ele conduzia as coisas de modo que os que saíam atacavam com facilidade e voltavam sem perigo, pois ele mesmo ficava por último cobrindo a retaguarda. Aconteceu certa vez que, terminada a luta, os dois lados se separaram e recolheram. Eleazar, em desprezo ao inimigo e achando que nenhum deles recomeçaria a luta naquele momento, ficou fora dos portões conversando com os que estavam sobre a muralha. Sua mente estava toda voltada para o que diziam. Então um certo homem do acampamento romano, de nome Rufo, egípcio de nascimento, correu sobre ele de repente, quando ninguém esperava tal coisa, e o levou embora junto com a própria armadura. Enquanto isso, os que viam aquilo da muralha ficaram tão pasmos que Rufo lhes tomou a frente antes que pudessem socorrê-lo e levou Eleazar para o acampamento romano. O general dos romanos então ordenou que ele fosse despido, posto diante da cidade para ser visto e duramente açoitado aos olhos de todos. Diante desse triste acidente que se abateu sobre o jovem, os judeus ficaram terrivelmente abalados, e a cidade, a uma voz, lamentou-o profundamente. O luto foi maior do que se poderia supor pela desgraça de uma única pessoa. Quando Baso percebeu isso, começou a pensar em usar um estratagema contra o inimigo, e quis agravar a dor deles para levá-los a entregar a cidade em troca da preservação daquele homem. E não falhou em sua esperança. Mandou erguer uma cruz, como se fosse enforcar Eleazar nela na mesma hora. A visão disso provocou amarga dor nos que estavam na cidadela. Eles gemeram com força e gritaram que não suportavam vê-lo destruído daquele modo. Então Eleazar lhes suplicou que não o abandonassem, agora que ia sofrer uma morte miserabilíssima, e os exortou a se salvarem rendendo-se ao poder e à boa fortuna dos romanos, que todos os outros povos agora estavam vencidos por eles. Esses homens ficaram muito comovidos com o que ele disse. Havia também muitos dentro da cidade que intercediam por ele, por ser de uma família ilustre e muito numerosa. Assim, cederam à sua compaixão, ao contrário do seu costume habitual. Enviaram então logo certos mensageiros e trataram com os romanos a entrega da cidadela, pedindo permissão para partir e levar Eleazar consigo. Os romanos e seu general aceitaram esses termos. Mas a multidão de estrangeiros que estava na parte baixa da cidade, ao ouvir do acordo que os judeus tinham feito para si, resolveu fugir secretamente durante a noite. Assim que abriram seus portões, os que tinham feito acordo com Baso o avisaram disso. Não se sabe se foi por inveja da salvação dos outros, ou por medo de que sua fuga desse motivo de queixa contra eles. Os mais corajosos daqueles homens que saíram tomaram a frente do inimigo, escaparam e fugiram. Mas os homens apanhados dentro foram mortos, em número de mil e setecentos, e as mulheres e crianças foram feitas escravas. Como Baso achou que devia cumprir o acordo que fizera com os que tinham entregado a cidadela, deixou-os ir e devolveu Eleazar a eles.
Acertados esses assuntos, Baso marchou às pressas para a floresta de Jardes, como é chamada. Ele tinha ouvido que muitos dos que antes haviam fugido de Jerusalém e de Maquero estavam ali reunidos. Ao chegar ao lugar e entender que a notícia anterior não era engano, primeiro cercou toda a área com seus cavaleiros, para que os judeus que tivessem coragem de tentar romper não tivessem nenhum caminho possível de fuga, por causa da posição desses cavaleiros. E aos soldados de infantaria ordenou que cortassem as árvores do bosque para onde os judeus tinham fugido. Os judeus ficaram então na necessidade de realizar algum feito glorioso e de se expor muito numa batalha, que talvez por isso escapassem. Fizeram um ataque geral e, com grande grito, caíram sobre os que os cercavam, que os receberam com grande coragem. Como um lado lutava desesperadamente e o outro não cedia, a luta se prolongou por causa disso. Mas o resultado da batalha não correspondeu à expectativa dos atacantes. Aconteceu que não mais que doze caíram do lado romano, com alguns feridos. Mas nenhum dos judeus escapou desta batalha: todos foram mortos, num total não inferior a três mil, junto com Judas, filho de Jairo, seu general, de quem falamos antes, dizendo que ele tinha sido capitão de um certo bando no cerco de Jerusalém e que, descendo a um certo subterrâneo, escapara em segredo.
Por volta dessa época, César enviou uma carta a Baso e a Libério Máximo, que era o procurador [da Judeia], e deu ordem para que toda a Judeia fosse posta à venda. Ele não fundou nenhuma cidade ali, mas reservou o território para si. No entanto, designou um lugar apenas para oitocentos homens que havia dispensado de seu exército, e deu-lhes esse lugar para morada. Chama-se Emaús e dista de Jerusalém sessenta estádios. Ele também impôs um tributo aos judeus onde quer que estivessem, e ordenou que cada um deles trouxesse duas dracmas todos os anos ao Capitólio, do mesmo modo que costumavam pagar essa quantia ao Templo em Jerusalém. E este era o estado dos assuntos judaicos nessa época.