A Guerra dos Judeus - Livro VII 8
Livro VII: o triunfo em Roma e Massada
Sobre Massada e os sicários que a mantinham; e como Silva se dispôs a montar o cerco daquela cidadela. Os discursos de Eleazar aos sitiados.
Quando Baso morreu na Judeia, Flávio Silva o sucedeu como procurador da província [por volta do ano 73 d.C.]. Ao ver que todo o restante do país já fora subjugado nesta guerra e que restava apenas uma única fortaleza ainda em rebelião, ele reuniu todo o seu exército, que estava espalhado por vários lugares, e marchou contra ela. Essa fortaleza se chamava Massada. Quem a havia tomado era Eleazar, homem poderoso e comandante daqueles sicários. Ele descendia daquele Judas que, como já narramos antes, convenceu uma multidão de judeus a não se submeter ao recenseamento, quando Cirênio foi enviado à Judeia para realizá-lo. Foi então que os sicários se uniram contra os que estavam dispostos a se submeter aos romanos e os trataram em tudo como inimigos: saqueavam seus bens, levavam embora seu gado e ateavam fogo às suas casas. Diziam que esses judeus em nada se distinguiam de estrangeiros, pois de modo tão covarde traíam a liberdade que os judeus julgavam digna de ser defendida até o fim, e confessavam preferir a escravidão sob os romanos a uma luta como essa. Na verdade, isso não passava de pretexto, um disfarce para a barbárie que praticavam e um modo de encobrir a própria ganância, como logo deixaram claro com suas ações. Os que partilhavam da rebelião com eles também se uniram a eles na guerra contra os romanos, e foram ainda mais longe nas investidas insolentes contra esse povo. Quando de novo eram desmascarados em sua dissimulação, atacavam com ainda mais violência os que com justiça os censuravam por sua perversidade. De fato, aquele foi um tempo fertilíssimo em toda sorte de práticas malignas, a ponto de não restar nenhum tipo de maldade por cometer. Ninguém conseguia sequer imaginar algo ruim que fosse novo, tão profundamente todos estavam corrompidos. E competiam entre si, individualmente e em grupos, sobre quem iria mais longe na impiedade contra Deus e na injustiça contra o próximo. Os homens de poder oprimiam o povo, e o povo se empenhava em destruir os homens de poder. Uns queriam tiranizar os outros, e os outros queriam usar de violência e saquear os que eram mais ricos que eles. Foram os sicários que primeiro começaram essas transgressões e primeiro se tornaram bárbaros com os de seu próprio povo. Não deixaram de dizer nenhuma palavra de ultraje nem de tentar nenhuma obra de destruição contra aqueles que suas tramas atingiam. Mas João mostrou com seus atos que esses sicários eram mais moderados do que ele. Pois ele não só matava todos os que lhe davam bons conselhos para agir com justiça, como os tratava da pior maneira possível, como se fossem os inimigos mais cruéis que tinha entre todos os cidadãos. Encheu o país inteiro com dez mil exemplos de perversidade, como faria naturalmente um homem já bastante endurecido em sua impiedade contra Deus. A comida que punha à sua mesa era ilícita, e ele rejeitava as purificações que a lei de seu país havia estabelecido. Não era mais de admirar, então, que alguém tão insano em sua impiedade contra Deus não observasse nenhuma regra de bondade nem de afeto comum para com os homens. E quanto a Simão bar Giora, que mal ele deixou de fazer? De que tipo de abusos ele se absteve, mesmo em relação àqueles homens livres que o haviam erguido a tirano? Que amizade ou laço de parentesco não o tornava mais ousado em seus assassinatos diários? Eles consideravam fazer o mal apenas a estranhos como algo indigno de sua coragem, mas julgavam que a crueldade contra seus parentes mais próximos seria uma prova gloriosa dela. Os idumeus também competiam com esses homens sobre quem seria culpado da maior loucura. Pois todos eles, miseráveis como eram, degolaram os sumos sacerdotes, para que não se preservasse nem mesmo um resquício de respeito religioso a Deus. Daí passaram a destruir por completo os menores vestígios de um governo civil e introduziram a cena mais consumada de iniquidade, em tudo o que era possível praticar. Sob essa cena cresceu aquela espécie de gente chamada zelotes, que de fato correspondia ao nome. Pois imitavam toda obra perversa. E se a memória lhes sugeria algum mal que outros já tivessem feito, não deixavam de persegui-lo com afinco. Embora se dessem esse nome por seu zelo pelo que era bom, ele só lhes cabia por ironia, dada a injustiça com que tratavam os outros, fruto de sua disposição selvagem e brutal, ou por julgarem que as maiores maldades eram o maior bem. Por isso todos tiveram o fim que Deus, com justiça, fez recair sobre eles como castigo. Pois todas as misérias que a natureza humana é capaz de suportar foram lançadas sobre eles, até o último instante de suas vidas, e até que a morte os alcançasse por vários modos de tormento. Ainda assim, com justiça se poderia dizer que sofreram menos do que mereciam, pois era impossível castigá-los à altura de suas faltas. Mas fazer um lamento à medida do que mereceram os que caíram sob a barbárie desses homens não é o lugar próprio para isso. Volto, portanto, à parte restante desta narrativa.
Foi então que o general romano chegou e conduziu seu exército contra Eleazar e os sicários que com ele mantinham a fortaleza de Massada. Logo dominou toda a região vizinha e colocou guarnições nos pontos mais adequados dela. Mandou também construir um muro em torno de toda a fortaleza, para que nenhum dos sitiados pudesse escapar com facilidade, e distribuiu seus homens para guardar as várias partes desse muro. Montou o acampamento no lugar que escolhera como mais conveniente para o cerco, onde a rocha da fortaleza chegava mais perto da montanha vizinha. Mas era um lugar difícil para se conseguir provisões em abundância. Não só o alimento precisava ser trazido de muito longe [para o exército], com grande esforço dos judeus encarregados disso, como também era preciso levar água ao acampamento, porque não havia nenhuma fonte por perto. Depois de organizar essas coisas de antemão, Silva começou o cerco do lugar, que exigiria muita perícia e muito esforço, por causa da força da fortaleza, cuja natureza vou agora descrever.
Havia uma rocha de circunferência nada pequena e muito alta. Era cercada por vales de profundidade tão imensa, descendo para baixo, que o olho não alcançava o fundo deles. Eram abruptos, tais que nenhum animal podia caminhar por eles, exceto em dois pontos da rocha onde ela se rebaixa, formando uma passagem para a subida, embora não sem dificuldade. Dos caminhos que levam até lá, um vem do lago Asfaltite, na direção do nascer do sol, e outro fica a oeste, onde a subida é mais fácil. O primeiro se chama "a serpente", por se parecer com esse animal em sua estreiteza e em suas curvas contínuas. Ele se interrompe nos despenhadeiros salientes da rocha, volta com frequência sobre si mesmo e, alongando-se de novo aos poucos, avança com muita dificuldade. Quem quiser percorrê-lo precisa primeiro firmar uma perna, depois a outra. E há apenas destruição caso o pé escorregue. De cada lado há um abismo profundíssimo e um precipício, suficiente para abater a coragem de qualquer um pelo terror que infunde na mente. Depois que um homem percorre esse caminho por trinta estádios, o restante é o topo do monte, que não termina num ponto estreito, mas é uma planície na parte mais alta da montanha. Sobre esse topo do monte, Jônatas, o sumo sacerdote, foi o primeiro a construir uma fortaleza, e a chamou de Massada. Depois, a reconstrução desse lugar ocupou em grande medida os cuidados do rei Herodes. Ele ergueu um muro em torno de todo o topo do monte, com sete estádios de comprimento. Era feito de pedra branca. Sua altura era de doze côvados e sua largura, de oito. Sobre esse muro foram erguidas também trinta e oito torres, cada uma com cinquenta côvados de altura. A partir delas se podia passar para construções menores, edificadas no lado interno, ao longo de todo o muro. Pois o rei reservou o topo do monte, de solo fértil, de terra melhor que a de qualquer vale, para a agricultura, para que aqueles que confiassem nessa fortaleza para se proteger não ficassem ali totalmente sem alimento, caso algum dia lhes faltasse o que vinha de fora. Construiu também ali um palácio, na subida ocidental. Ficava por dentro e abaixo dos muros da cidadela, mas inclinado para o lado norte dela. O muro desse palácio era muito alto e forte, e tinha em seus quatro cantos torres de sessenta côvados de altura. O mobiliário dos edifícios, dos pórticos e dos banhos era de grande variedade e muito custoso, e essas construções eram sustentadas em todos os lados por colunas feitas de pedra única. As paredes e os pisos dos edifícios eram revestidos de pedras de várias cores. Ele também mandou escavar na rocha muitas e grandes cisternas, como reservatórios de água, em cada um dos lugares habitados, tanto no alto como ao redor do palácio e diante do muro. Com esse engenho procurou ter água para diversos usos, como se houvesse ali fontes. Havia também um caminho escavado a partir do palácio, levando ao próprio topo da montanha, que não podia ser visto pelos que estavam fora [dos muros]. Nem os inimigos podiam usar facilmente os caminhos abertos. Pois o caminho do lado leste, como já mencionamos, não podia ser percorrido, por sua própria natureza. E quanto ao caminho do oeste, ele construiu uma grande torre em seu ponto mais estreito, a uma distância de nada menos que mil côvados do topo do monte. Essa torre não podia de modo algum ser ultrapassada, nem podia ser tomada com facilidade. Nem mesmo os que caminhassem por ali sem qualquer medo, tão hábil era a sua construção, conseguiriam chegar facilmente ao fim dele. Assim foi fortificada essa cidadela, tanto pela natureza como pelas mãos dos homens, para frustrar os ataques dos inimigos.
Quanto às provisões guardadas dentro dessa fortaleza, eram ainda mais admiráveis por sua abundância e por sua longa conservação. Pois ali estava armazenado trigo em grandes quantidades, suficiente para sustentar homens por muito tempo. Havia também vinho e azeite em abundância, com todo tipo de legumes e tâmaras amontoados. Tudo isso Eleazar encontrou ali quando ele e seus sicários tomaram a fortaleza por traição. Esses alimentos estavam frescos e bem maduros, em nada inferiores aos recém-armazenados, ainda que tivessem passado pouco menos de cem anos desde que essas provisões foram guardadas [por Herodes] até o lugar ser tomado pelos romanos. De fato, quando os romanos tomaram posse dos alimentos que restavam, encontraram-nos não estragados durante todo esse tempo. E não erraríamos se supuséssemos que o ar foi a causa de durarem tanto, por estar essa fortaleza tão alta e livre da mistura de todas as partículas terrosas e lamacentas da matéria. Encontrou-se ali também uma grande quantidade de armas de guerra de todo tipo, que tinham sido acumuladas por aquele rei e bastavam para dez mil homens. Havia ferro, bronze e estanho, o que mostra que ele teve muito trabalho para ter tudo ali pronto para as maiores emergências. Pois conta-se que Herodes preparou essa fortaleza por conta própria, como refúgio contra dois tipos de perigo. Um era o medo da multidão dos judeus, com receio de que o depusessem e restituíssem ao governo seus antigos reis. O outro perigo era maior e mais terrível, e vinha de Cleópatra, rainha do Egito, que não escondia suas intenções, mas falava com frequência a Antônio, pedindo que eliminasse Herodes e suplicando que lhe concedesse o reino da Judeia. Certamente é grande maravilha que Antônio nunca tenha atendido a ela nesse ponto, sendo ele tão miseravelmente escravo de sua paixão por ela. E ninguém deveria ter se admirado se ela tivesse sido satisfeita em tal pedido. Foi o medo desses perigos que levou Herodes a reconstruir Massada, deixando-a, assim, para o golpe final dos romanos nesta guerra judaica.
Visto, então, que o comandante romano Silva já havia construído por fora um muro em torno de todo esse lugar, como já dissemos, e com isso tomado as mais precisas precauções para impedir a fuga de qualquer um dos sitiados, ele empreendeu o próprio cerco. Mas encontrou apenas um único lugar que permitia erguer as rampas que precisava levantar. Atrás daquela torre que protegia o caminho que levava ao palácio e ao topo do monte, vindo do oeste, havia uma certa saliência da rocha, muito larga e muito proeminente, mas trezentos côvados abaixo da parte mais alta de Massada. Era chamada "o promontório branco". Silva subiu sobre essa parte da rocha e ordenou que o exército trouxesse terra. Como se puseram à obra com entusiasmo e em grande número, a rampa foi erguida e ficou sólida, com duzentos côvados de altura. Mas essa rampa não foi considerada alta o bastante para o uso das máquinas que iam ser colocadas sobre ela. Por isso, ainda outra estrutura elevada, de grandes pedras encaixadas, foi levantada sobre essa rampa. Tinha cinquenta côvados tanto de largura quanto de altura. As demais máquinas que então prepararam eram semelhantes às que tinham sido idealizadas primeiro por Vespasiano e depois por Tito para os cercos. Foi feita também uma torre de sessenta côvados de altura, toda revestida de ferro. De cima dela os romanos lançavam dardos e pedras com as máquinas, e logo obrigaram a recuar os que combatiam das muralhas do lugar, sem deixar que erguessem a cabeça acima das defesas. Ao mesmo tempo, Silva ordenou que se trouxesse para ali aquele grande aríete que havia mandado fazer, que fosse posto contra o muro e o golpeasse repetidas vezes. Com alguma dificuldade, isso derrubou uma parte do muro e a lançou por terra. No entanto, os sicários se apressaram e logo construíram outro muro por dentro daquele, que não estivesse sujeito ao mesmo infortúnio diante das máquinas. Fizeram-no flexível e maleável, capaz, assim, de absorver os golpes terríveis que tinham afetado o outro. Foi montado da seguinte maneira: dispunham juntas grandes vigas de madeira, no sentido do comprimento, a ponta de uma junto à da outra, no mesmo sentido em que tinham sido cortadas. Havia duas dessas fileiras paralelas entre si, dispostas a uma distância uma da outra igual à largura que o muro exigia, e enchiam de terra o espaço entre essas fileiras. Para que a terra não caísse à medida que a estrutura subia a maior altura, colocaram ainda outras vigas atravessadas sobre elas, e assim amarraram as vigas que estavam no sentido do comprimento. Essa obra deles era como um edifício de verdade. E quando as máquinas eram aplicadas, os golpes se enfraqueciam por causa da flexibilidade, e como os materiais, com esse impacto, se compactavam mais, a estrutura ficava por isso mais firme do que antes. Quando Silva viu isso, julgou melhor tentar tomar esse muro ateando-lhe fogo. Por isso deu ordem aos soldados para lançarem sobre ele um grande número de tochas acesas. Como era feito principalmente de madeira, logo pegou fogo, e uma vez incendiado, sua estrutura oca fez o fogo se espalhar numa enorme labareda. Logo no início desse incêndio, um vento norte que então soprava mostrou-se terrível para os romanos. Pois, trazendo a chama para baixo, jogava-a sobre eles, e quase ficaram em desespero de êxito, com medo de que suas máquinas fossem queimadas. Mas depois disso, de repente, o vento mudou para o sul, como se fosse obra da providência divina, e soprou com força na direção contrária, levando a chama e jogando-a contra o muro, que agora ardia em toda a sua espessura. Assim, os romanos, tendo agora a ajuda de Deus, voltaram para o acampamento com alegria, decididos a atacar o inimigo no dia seguinte. Naquela ocasião, montaram guarda com mais cuidado durante a noite, para que nenhum dos judeus fugisse sem ser percebido.
No entanto, Eleazar nem por um instante pensou em fugir, nem permitiria que ninguém mais o fizesse. Mas ao ver o muro deles consumido pelo fogo, e não conseguindo imaginar outro modo de escapar nem espaço para mais resistência, e pondo diante dos olhos o que os romanos fariam a eles, a seus filhos e a suas esposas se os tivessem em seu poder, ele resolveu que todos fossem mortos. Como julgou ser essa a melhor coisa que podiam fazer nas circunstâncias presentes, reuniu os mais corajosos de seus companheiros e os encorajou a seguir esse caminho, com um discurso que lhes fez da seguinte maneira: "Já que há muito, meus generosos amigos, resolvemos nunca servir aos romanos nem a nenhum outro senão ao próprio Deus, que é o único senhor verdadeiro e justo da humanidade, chegou agora o momento que nos obriga a tornar real essa resolução na prática. E não tragamos agora sobre nós a vergonha de nos contradizermos. Antes não quisemos suportar a escravidão, quando ainda era sem perigo, e teríamos agora, junto com a escravidão, de escolher também castigos intoleráveis, no caso de os romanos nos reduzirem ao seu poder enquanto estivermos vivos. Fomos os primeiros a nos revoltar contra eles e somos os últimos a combatê-los. E não posso deixar de considerar um favor que Deus nos concedeu o fato de ainda estar em nosso poder morrer com bravura e em estado de liberdade, o que não aconteceu com outros, vencidos de modo inesperado. É claro que seremos tomados dentro de um dia. Mas ainda é coisa preferível morrer de maneira gloriosa, junto com nossos amigos mais queridos. Isso os próprios inimigos não podem de modo algum impedir, por mais que desejem nos tomar vivos. E não temos como pensar em combatê-los e vencê-los outra vez. Teria sido próprio, na verdade, termos percebido o propósito de Deus muito antes, logo de início, quando estávamos tão ansiosos por defender nossa liberdade, e quando recebíamos tratamento tão duro uns dos outros, e pior ainda de nossos inimigos. E teríamos percebido que o mesmo Deus, que no passado tomou a nação judaica sob o seu favor, agora a havia condenado à destruição. Pois se ele tivesse continuado favorável, ou estivesse apenas em menor grau descontente conosco, não teria deixado passar a destruição de tantos homens, nem entregue sua cidade santíssima para ser queimada e arrasada por nossos inimigos. É claro que esperamos, fracamente, preservar a nós mesmos, e só a nós, ainda em estado de liberdade, como se não tivéssemos sido culpados de nenhum pecado contra Deus, nem participado dos pecados de outros. Ensinamos também a outros homens a preservar a liberdade. Considerem, pois, como Deus nos convenceu de que nossas esperanças eram vãs, trazendo sobre nós tamanha aflição no estado desesperado em que estamos, que está além de tudo o que esperávamos. Pois a natureza desta fortaleza, que era em si mesma inconquistável, não se mostrou meio de nossa libertação. E mesmo tendo ainda grande abundância de alimento, grande quantidade de armas e de outros suprimentos, mais do que precisamos, fomos abertamente privados pelo próprio Deus de toda esperança de salvação. Pois aquele fogo que foi lançado sobre nossos inimigos não se voltou por si mesmo contra o muro que tínhamos construído. Isso foi efeito da ira de Deus contra nós, por nossos muitos pecados, dos quais fomos culpados da maneira mais insolente e desmedida em relação a nossos próprios compatriotas. Que o castigo por eles não o recebamos dos romanos, mas do próprio Deus, executado por nossas próprias mãos. Pois esse será mais moderado do que o outro. Que nossas esposas morram antes de serem ultrajadas, e nossos filhos antes de provarem a escravidão. E depois que os tivermos matado, concedamos esse benefício glorioso uns aos outros, mutuamente, e preservemos a nós mesmos na liberdade, como um excelente monumento fúnebre para nós. Mas primeiro destruamos nosso dinheiro e a fortaleza pelo fogo. Pois estou bem certo de que será grande pesar para os romanos não poderem se apoderar de nossos corpos e ficarem também sem nossa riqueza. E não poupemos nada exceto nossas provisões. Pois elas serão um testemunho, quando estivermos mortos, de que não fomos vencidos por falta do necessário, mas que, conforme nossa resolução original, preferimos a morte à escravidão."
Esse foi o discurso de Eleazar a eles. Mas as opiniões de todos os ouvintes não concordaram com isso. Embora alguns deles estivessem muito ansiosos por pôr em prática o conselho dele, e de certo modo cheios de prazer com a ideia, julgando a morte coisa boa, os mais frágeis sentiam compaixão por suas esposas e famílias. E quando esses homens se comoviam sobretudo diante da perspectiva da própria morte certa, olhavam fixamente uns para os outros, e pelas lágrimas que tinham nos olhos declaravam seu desacordo com a opinião dele. Quando Eleazar viu essa gente em tal temor, e que suas almas estavam abatidas diante de uma proposta tão prodigiosa, teve medo de que talvez esses homens frágeis, com seus lamentos e lágrimas, enfraquecessem os que tinham ouvido com coragem o que ele dissera. Por isso não parou de exortá-los, mas, animando-se e reunindo argumentos próprios para erguer a coragem deles, dispôs-se a falar de modo mais vigoroso e completo, e a respeito da imortalidade da alma. Soltou então um gemido lamentoso e, fixando os olhos atentamente nos que choravam, falou assim: "Na verdade, eu me enganei muito quando pensei estar ajudando homens valentes, que lutavam com afinco por sua liberdade, e que estavam decididos ou a viver com honra ou a morrer. Mas vejo que vocês são gente em nada melhor do que os outros, seja em virtude, seja em coragem, e têm medo de morrer, ainda que com isso sejam libertados das maiores misérias. Vocês não deveriam ter nenhuma demora nesta questão, nem esperar que alguém lhes dê bom conselho. Pois as leis de nosso país, e do próprio Deus, desde os tempos antigos, desde o momento em que pudemos usar a razão, continuamente nos ensinaram, e nossos antepassados confirmaram a mesma doutrina com seus atos e com a bravura de seu espírito, que é a vida que é uma calamidade para os homens, e não a morte. Pois esta última concede liberdade às nossas almas e as envia, por uma passagem, ao seu próprio lugar de pureza, onde ficam insensíveis a toda sorte de miséria. Pois enquanto as almas estão presas a um corpo mortal, participam das misérias dele, e na verdade, para dizer a verdade, elas mesmas estão mortas. Pois a união do que é divino com o que é mortal é incompatível. É verdade que o poder da alma é grande, mesmo quando está aprisionada num corpo mortal. Pois, movendo-o de um modo invisível, ela faz do corpo um instrumento sensível e o leva a avançar mais em suas ações do que a natureza mortal poderia fazer por si só. No entanto, quando ela se livra desse peso que a arrasta para a terra e a prende a ela, obtém o seu próprio lugar e passa então a participar daquele poder bem-aventurado e daquelas faculdades que de todo modo não podem mais ser impedidas em suas operações. Ela permanece, de fato, invisível aos olhos dos homens, assim como o próprio Deus. Pois certamente ela mesma não é vista enquanto está no corpo. Pois ali está de modo invisível, e quando se livra dele, continua sem ser vista. É essa alma que tem uma só natureza, e ela é incorruptível. Mas é a causa da mudança que se faz no corpo. Pois tudo aquilo que a alma toca vive e floresce. E tudo de que ela se afasta murcha e morre. Tal é o grau de imortalidade que há nela. Deixem-me apresentar o estado do sono como demonstração mais evidente da verdade do que digo. Nele, as almas, quando o corpo não as perturba, têm o mais doce repouso, dependendo de si mesmas, e conversam com Deus, por seu parentesco com ele. Elas então vão a toda parte e preveem de antemão muitos acontecimentos futuros. E por que temer a morte, se nos agrada o repouso que temos no sono? E como é absurdo buscar a liberdade enquanto estamos vivos, e ainda assim recusá-la a nós mesmos justo onde ela será eterna? Nós, portanto, que fomos educados numa disciplina própria, devemos nos tornar exemplo para os outros de nossa prontidão para morrer. Mas se precisarmos de estrangeiros para nos apoiar nesta questão, olhemos para aqueles indianos que professam a prática da filosofia. Pois esses homens de bem suportam o tempo da vida apenas a contragosto, e a encaram como uma servidão necessária, e se apressam a soltar suas almas dos corpos. E mais: mesmo quando nenhuma desgraça os força nem os impele a isso, têm um tal desejo de uma vida de imortalidade que avisam aos outros homens de antemão que estão prestes a partir. E ninguém os impede. Ao contrário, todos os consideram homens felizes e lhes dão cartas para serem levadas a seus amigos íntimos [que já morreram]. Tão firme e seguramente acreditam que as almas conversam umas com as outras [no outro mundo]. Assim, quando esses homens recebem todas as instruções que lhes devem ser dadas, entregam o corpo ao fogo, e para que sua alma se separe do corpo na maior pureza, morrem em meio a hinos de louvor a eles. Pois seus amigos mais queridos os conduzem à morte com mais prontidão do que qualquer outro homem conduz seus concidadãos quando partem para uma viagem muito longa. Eles, ao mesmo tempo, choram por si mesmos, mas consideram os outros pessoas felizes, por logo serem feitos participantes da ordem imortal dos seres. Não teremos, então, vergonha de ter noções mais baixas que as dos indianos? E de, por nossa própria covardia, lançar uma vil censura sobre as leis de nosso país, tão desejadas e imitadas por toda a humanidade? Mas suponhamos que tivéssemos sido educados sob outra convicção, e ensinados a crer que a vida é o maior bem de que os homens são capazes, e que a morte é uma calamidade. Mesmo assim, a situação em que agora estamos deveria ser um incentivo para suportarmos tal calamidade com coragem. Pois é pela vontade de Deus e por necessidade que vamos morrer. Agora ficou claro que Deus decretou contra toda a nação judaica que sejamos privados desta vida, da qual [ele sabia] que não faríamos bom uso. Pois não atribuam a si mesmos a causa de nossa presente condição, nem pensem que os romanos sejam a verdadeira causa de esta guerra que tivemos com eles ter se tornado tão destrutiva para todos nós. Essas coisas não aconteceram pelo poder deles, mas uma causa mais poderosa interveio e fez com que lhes déssemos ocasião de parecerem vencedores sobre nós. Que armas romanas, eu lhes pergunto, foram aquelas com que os judeus em Cesareia foram mortos? Ao contrário, quando eles não estavam de modo algum dispostos a se revoltar, mas o tempo todo guardavam a festa do sétimo dia, e nem sequer ergueram as mãos contra os cidadãos de Cesareia, ainda assim esses cidadãos avançaram contra eles em grandes multidões e os degolaram, e degolaram suas esposas e filhos, sem nenhuma consideração nem pelos próprios romanos, que nunca nos tomaram por inimigos até que nos revoltássemos contra eles. Mas alguém pode estar pronto a dizer que, na verdade, o povo de Cesareia sempre teve uma rixa com os que viviam entre eles, e que, surgida a oportunidade, apenas satisfizeram o antigo rancor que tinham contra eles. Que diremos, então, dos de Escitópolis, que se atreveram a guerrear contra nós por causa dos gregos? Nem o fizeram para se vingar dos romanos, quando agiram em conjunto com nossos compatriotas. Vejam, pois, de quão pouco nos serviu a boa vontade e a fidelidade para com eles, quando foram mortos, eles e suas famílias inteiras, do modo mais desumano. Esse foi todo o pagamento que receberam pela ajuda que tinham dado aos outros. Pois aquela mesma destruição que tinham impedido de cair sobre os outros, eles próprios a sofreram às mãos deles, como se estivessem prontos a agir contra eles. Seria longo demais para mim falar agora de cada destruição que recaiu sobre nós. Pois vocês bem sabem que não houve uma única cidade síria que não tenha matado seus habitantes judeus, e que não tenha sido inimiga mais cruel para nós do que os próprios romanos. E mais: até os de Damasco, quando não tinham nenhum pretexto aceitável a alegar contra nós, encheram a cidade com as mais bárbaras matanças do nosso povo, e degolaram dezoito mil judeus, com suas esposas e filhos. E quanto à multidão dos que foram mortos no Egito, e isso também com tormentos, fomos informados de que foram mais de sessenta mil. Esses, estando de fato em país estrangeiro, e por isso naturalmente sem nada com que se opor aos inimigos, foram mortos da maneira já mencionada. Quanto a todos nós que guerreamos contra os romanos em nosso próprio país, não tínhamos razão suficiente para ter esperança certa de vitória? Pois tínhamos armas, e muralhas, e fortalezas tão bem preparadas que não eram facilmente tomadas, e uma coragem que nenhum perigo abalava na causa da liberdade, o que nos animou a todos a nos revoltarmos contra os romanos. Mas essas vantagens nos bastaram por pouco tempo e só ergueram nossas esperanças. Na verdade, mostraram ser a origem de nossas misérias. Pois tudo o que tínhamos nos foi tomado, e tudo caiu nas mãos de nossos inimigos, como se essas vantagens existissem apenas para tornar a vitória deles sobre nós mais gloriosa, e não para a preservação daqueles que fizeram esses preparativos. E quanto aos que já morreram na guerra, é justo que os consideremos bem-aventurados, pois morreram defendendo, e não traindo, sua liberdade. Mas quanto à multidão dos que agora estão sob os romanos, quem não teria pena da condição deles? E quem não se apressaria a morrer, antes de sofrer as mesmas misérias que eles? Alguns deles foram postos no potro e torturados com fogo e açoites, e assim morreram. Alguns foram meio devorados por feras, e ainda assim foram mantidos vivos para serem devorados por elas uma segunda vez, a fim de servir de riso e diversão a nossos inimigos. E os que entre eles ainda estão vivos devem ser olhados como os mais miseráveis, pois, tão desejosos de morrer, não conseguiram alcançar a morte. E onde está agora aquela grande cidade, a metrópole da nação judaica? A que era fortificada por tantas muralhas em volta, que tinha tantas fortalezas e grandes torres para defendê-la, que mal podia conter os instrumentos preparados para a guerra, e que tinha tantas dezenas de milhares de homens para lutar por ela? Onde está essa cidade que se acreditava ter o próprio Deus habitando nela? Está agora arrasada até os alicerces, e nada lhe restou senão aquele monumento dela que se preservou: refiro-me ao acampamento dos que a destruíram, que ainda permanece sobre suas ruínas. Alguns velhos infelizes também jazem sobre as cinzas do templo, e umas poucas mulheres ali foram poupadas vivas pelo inimigo, para nossa amarga vergonha e censura. Quem é, então, que pondera essas coisas na mente e ainda consegue suportar a visão do sol, mesmo que pudesse viver fora de perigo? Quem é tão inimigo de seu país, ou tão covarde, e tão desejoso de viver, que não se arrependa de ainda estar vivo? Não posso deixar de desejar que todos tivéssemos morrido antes de ver aquela cidade santa arrasada pelas mãos de nossos inimigos, ou os alicerces de nosso templo sagrado escavados de maneira tão profana. Mas já que tivemos uma esperança generosa que nos iludiu, como se talvez pudéssemos nos vingar de nossos inimigos por isso, embora ela tenha se tornado agora vã e nos deixado sozinhos nesta aflição, apressemo-nos a morrer com bravura. Tenhamos pena de nós mesmos, de nossos filhos e de nossas esposas, enquanto está em nosso poder mostrar-lhes piedade. Pois nascemos para morrer, assim como aqueles que geramos. Nem está no poder dos mais felizes de nossa raça evitar isso. Mas os abusos, a escravidão, e a visão de nossas esposas levadas embora de maneira ignominiosa, com seus filhos, esses não são males naturais e necessários entre os homens. Embora aqueles que não preferem a morte a essas misérias, quando está em seu poder fazê-lo, tenham de suportá-las também, por causa de sua própria covardia. Revoltamo-nos contra os romanos com grandes pretensões de coragem, e quando, bem no fim, eles nos convidaram a nos preservarmos, não quisemos atendê-los. Quem, então, não acreditará que certamente ficarão furiosos conosco, caso consigam nos tomar vivos? Miseráveis serão então os jovens, fortes o bastante no corpo para suportar muitos tormentos. Miseráveis também serão os de idade mais avançada, que não conseguirão suportar as calamidades que os jovens aguentariam. Um homem será obrigado a ouvir a voz do filho implorando socorro ao pai, com as mãos atadas. Mas certamente nossas mãos ainda estão livres e têm uma espada nelas. Que elas, então, nos sirvam em nosso glorioso intento. Morramos antes de nos tornarmos escravos de nossos inimigos, e saiamos do mundo, junto com nossos filhos e nossas esposas, em estado de liberdade. É isso que nossas leis nos ordenam fazer. É isso que nossas esposas e filhos pedem de nossas mãos. E mais: o próprio Deus impôs sobre nós esta necessidade, enquanto os romanos desejam o contrário, e têm medo de que algum de nós morra antes de ser tomado. Apressemo-nos, então, e em vez de lhes proporcionar todo o prazer que esperam ao nos pôr sob seu poder, deixemos-lhes um exemplo que ao mesmo tempo cause o espanto deles diante de nossa morte e a admiração deles por nossa firmeza nela."