A Guerra dos Judeus - Livro VII 11

Livro VII: o triunfo em Roma e Massada

Sobre Jônatas, um dos sicários, que provocou uma revolta em Cirene e foi um falso acusador [de inocentes].

Nessa altura, a loucura dos sicários, como uma doença, chegou até as cidades de Cirene. Um certo Jônatas, um homem desprezível e tecelão de profissão, foi para e convenceu um número considerável de gente pobre a lhe dar ouvidos. Levou esses homens para o deserto, prometendo que lhes mostraria sinais e aparições. Quanto aos demais judeus de Cirene, escondeu deles a sua trapaça e os enganou. Mas os homens de maior dignidade entre eles informaram a Catulo, governador da Pentápolis da Líbia, sobre a marcha de Jônatas para o deserto e os preparativos que ele havia feito. Catulo então enviou atrás dele cavaleiros e infantes, e os venceu com facilidade, porque eram homens desarmados. Muitos foram mortos no combate, mas alguns foram capturados vivos e levados a Catulo. Quanto a Jônatas, o cabeça do complô, ele fugiu naquele momento. Depois de uma busca grande e minuciosa, feita por toda a região atrás dele, acabou sendo capturado. Quando foi levado a Catulo, ele bolou um plano pelo qual escapou do castigo e ainda deu a Catulo a oportunidade de causar muito mal. Acusou falsamente os homens mais ricos entre os judeus, dizendo que eles o haviam incitado a fazer o que fez.
Catulo aceitou facilmente essas calúnias, exagerou muito os fatos e fez exclamações teatrais, para que também ele fosse tido como alguém que tivera parte no encerramento da guerra contra os judeus. O que era ainda pior: ele não apenas deu crédito fácil demais a essas histórias, mas ensinou os sicários a acusar homens falsamente. Mandou então esse Jônatas dar o nome de um certo Alexandre, judeu (com quem Catulo havia antes tido uma desavença, declarando abertamente que o odiava). Conseguiu também que ele apontasse a esposa de Alexandre, Berenice, como cúmplice. Catulo ordenou que esses dois fossem mortos primeiro. Depois deles, mandou matar todos os judeus ricos e abastados, num total de não menos que três mil. Achava que poderia fazer isso impunemente, porque confiscava os bens deles e os acrescentava às receitas de César.
Para que nenhum judeu que vivia em outros lugares pudesse denunciar essa vilania, ele estendeu ainda mais as suas falsas acusações. Persuadiu Jônatas, e alguns outros que haviam sido capturados com ele, a levantar acusações de tentativas de revolta contra os judeus de melhor reputação, tanto em Alexandria quanto em Roma. Um daqueles contra quem essa acusação traiçoeira foi feita era Josefo, o autor destes livros. Mas o plano arquitetado por Catulo não teve o sucesso que ele esperava. Embora viesse pessoalmente a Roma, trazendo Jônatas e seus companheiros acorrentados, e achasse que não haveria mais nenhuma investigação sobre as mentiras forjadas sob o seu governo ou por meio dele, Vespasiano desconfiou do caso e mandou apurar até que ponto aquilo era verdade. Quando entendeu que a acusação feita contra os judeus era injusta, ele os inocentou dos crimes que lhes imputavam, e isso por causa do interesse de Tito no assunto. E aplicou a Jônatas o castigo que ele merecia: primeiro foi torturado e depois queimado vivo.
Quanto a Catulo, os imperadores foram tão brandos com ele que não sofreu nenhuma condenação severa naquele momento. Mas não demorou muito para que caísse numa doença complexa e quase incurável, e morresse miseravelmente. Não sofria apenas no corpo: o mal da mente pesava sobre ele ainda mais que o do corpo. Vivia terrivelmente perturbado e gritava sem parar que via diante de si os fantasmas daqueles que havia matado. Por causa disso não conseguia se conter, e saltava da cama como se tormentos e fogo estivessem sendo trazidos contra ele. A sua doença piorava cada vez mais, sem cessar, e suas próprias entranhas ficaram tão corroídas que caíram do corpo. Foi nessa condição que ele morreu. Assim, tornou-se um dos maiores exemplos da providência divina que houve, e demonstrou que Deus castiga os homens perversos.
Aqui colocamos um fim a esta nossa história. Nela prometemos antes entregar o relato com toda a exatidão a quem desejasse compreender de que maneira foi conduzida esta guerra dos romanos contra os judeus. Quanto à qualidade do estilo desta obra, isso deve ser deixado ao julgamento dos leitores. Mas quanto à sua fidelidade aos fatos, não tenho receio de dizer, e digo com ousadia, que a verdade foi a única coisa que busquei em toda a sua composição.