Capítulos
A Guerra dos Judeus - Livro VI
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
A Guerra dos Judeus (em grego Peri tou Ioudaikou polemou) narra a grande revolta contra Roma, de suas raízes até a queda das últimas fortalezas. Josefo conta que redigiu primeiro uma versão na língua dos judeus, provavelmente aramaico, e depois a verteu para o grego com auxílio de colaboradores. A obra tem sete livros e foi publicada por volta de 75 a 79 d.C., ainda sob o imperador Vespasiano, pai de Tito, o general que conduziu o cerco de Jerusalém. É a fonte literária mais próxima dos acontecimentos que possuímos.
O Livro VI na Obra
O Livro VI é o clímax da narrativa. Ele cobre as semanas finais do cerco de Jerusalém no verão de 70 d.C., da tomada da fortaleza Antônia ao incêndio do Templo e à queda da cidade alta. Esse período não tem paralelo na Bíblia hebraica, mas tem enorme peso para o judaísmo e para o cristianismo, já que descreve a destruição do segundo Templo, o mesmo Templo herodiano que aparece nos Evangelhos. Josefo escreve como testemunha do cerco, ainda que do lado romano, o que dá ao relato detalhe raro e, ao mesmo tempo, exige cautela quanto à perspectiva.
Conteúdo do Livro
- As desgraças do cerco se agravam, os combates em torno das obras de assédio e o ataque romano à fortaleza Antônia, ao lado do Templo — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 1)
- Tito manda demolir a Antônia e ordena que Josefo dirija mais um apelo aos sitiados para que se rendam antes do desfecho — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 2)
- A cilada com que os judeus incendiaram muitos romanos e nova descrição da fome extrema que devastava a cidade — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 3)
- Concluídos os aterros e trazidos os aríetes sem resultado, Tito manda incendiar os portões. Logo depois o próprio santuário é queimado, segundo Josefo contra a vontade do general — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 4)
- A aflição dos judeus diante do incêndio da casa sagrada, o relato de um falso profeta e os presságios que, segundo Josefo, anunciaram a destruição — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 5)
- Os romanos levam seus estandartes ao Templo e aclamam Tito. O discurso de Tito aos judeus que pediam misericórdia, a resposta deles e a indignação que ela provocou — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 6)
- O que ocorreu aos rebeldes depois de causarem e sofrerem muitas desgraças, e como Tito se tornou senhor da cidade alta — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 7)
- Tito ergue aterros ao redor da cidade alta, no monte Sião, traz as máquinas de cerco e por fim se apodera de toda a cidade — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 8)
- As ordens de Tito ao entrar na cidade, o número dos cativos e dos mortos no cerco e a captura dos chefes Simão e João, escondidos nas galerias subterrâneas — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 9)
- Um breve apanhado histórico de Jerusalém, tomada cinco vezes antes, sendo esta a segunda vez de sua completa devastação — (A Guerra dos Judeus - Livro VI 10)
O cerco aperta e cai a Antônia
O incêndio do Templo
A queda da cidade alta
Balanço da catástrofe
A Queda do Templo
O coração do Livro VI é a destruição do Templo de Jerusalém. Josefo descreve a tomada da Antônia, os assaltos ao átrio, o incêndio dos portões e, por fim, o fogo que consome o santuário. Ele faz questão de afirmar que Tito teria tentado poupar o edifício e que o incêndio começou contra a vontade do general, atribuindo-o ao ímpeto dos soldados. Essa versão é vista com desconfiança por muitos historiadores, que a leem como esforço para inocentar o patrono flaviano de Josefo. Outras fontes antigas, como uma passagem atribuída ao historiador Tácito por Sulpício Severo, sugerem que Tito decidiu deliberadamente destruir o Templo. O ponto continua em debate.
Fontes e Método
Para a guerra, Josefo é em larga medida testemunha ocular. Foi comandante rebelde na Galileia, caiu prisioneiro em Jotapata e depois acompanhou o exército romano durante o cerco de Jerusalém, servindo de intérprete e negociador. Ele diz ter usado também os comentários, ou diários de campanha, de Vespasiano e de Tito, além de relatos de desertores. Essa posição lhe dá acesso a informações de primeira mão, mas o compromete: já liberto e sustentado pelos Flávios, Josefo escreve com viés favorável a Roma e procura repartir a culpa da catástrofe entre os líderes rebeldes, que chama de tiranos, poupando os generais romanos.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego de A Guerra dos Judeus sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese, cujo volume dedicado à Guerra saiu em 1894 e se apoia no exame dos principais códices conhecidos. No Ocidente latino, além de uma tradução literal antiga, circulou uma adaptação cristã livre conhecida hoje como Pseudo-Hegesipo, o De excidio Hierosolymitano, do final do século IV, que durante séculos correu sob o nome do próprio Josefo. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.
Valor Histórico e Cautelas
Para a primeira guerra judaico-romana, Josefo é a fonte primária insubstituível: nenhum outro relato antigo chega perto de seu detalhe. Isso não o torna neutro. Os números que apresenta, como a cifra de mais de um milhão de mortos no cerco, são quase certamente inflados e maiores do que a população plausível de Jerusalém na época. O relato também serve a um programa apologético, que defende Roma, exalta os Flávios e responsabiliza as facções rebeldes. Mesmo assim, o núcleo dos fatos encontra apoio externo. A arqueologia confirma a violência do conflito em sítios como Jotapata e Massada, e os vestígios de queima e destruição em Jerusalém, somados ao testemunho de moedas e inscrições romanas, ancoram materialmente a tomada da cidade e a destruição do Templo em 70 d.C.