A Guerra dos Judeus - Livro VI 5

Livro VI: a queda do Templo e a tomada de Jerusalém

A grande aflição em que os judeus se viram com o incêndio da casa sagrada. Sobre um falso profeta e os sinais que precederam essa destruição.

Enquanto a casa sagrada ardia, tudo o que estava ao alcance era saqueado, e dez mil dos que foram capturados acabaram mortos. Não havia compaixão por nenhuma idade nem respeito por nenhuma autoridade: crianças, velhos, pessoas profanas e sacerdotes eram todos mortos da mesma maneira. Assim, essa guerra atingiu gente de toda espécie e levou todos à destruição, tanto os que suplicavam pela vida quanto os que se defendiam lutando. As chamas se espalharam por longa distância e produziam um eco, somado aos gemidos dos que morriam. Como o monte era alto e as construções do Templo eram enormes, qualquer um pensaria que a cidade inteira estava em chamas. É impossível imaginar algo maior ou mais terrível do que aquele estrondo. Ao mesmo tempo, ouvia-se o grito das legiões romanas, que marchavam todas juntas, e o clamor desesperado dos sediciosos, agora cercados pelo fogo e pela espada. O povo que ainda restava no alto era empurrado de volta contra o inimigo, tomado por enorme pânico, e lamentava em prantos a calamidade que o atingia. A multidão que estava na cidade juntava sua gritaria à dos que estavam no monte. Além disso, muitos dos que estavam consumidos pela fome, com a boca quase fechada, ao verem o fogo da casa sagrada, reuniram todas as forças que lhes restavam e irromperam de novo em gemidos e gritos. A Pereia também devolvia o eco, assim como as montanhas em volta [da cidade], aumentando a força de todo aquele ruído. Mas a própria desgraça era mais terrível do que aquela confusão. Qualquer um pensaria que o próprio monte em que ficava o Templo estava fervendo, tão cheio de fogo em cada parte. O sangue derramado era em maior quantidade que o fogo, e os mortos eram mais numerosos que os que os matavam. O chão não aparecia em lugar algum por causa dos corpos que jaziam sobre ele, e os soldados passavam por cima de montes de cadáveres enquanto perseguiam os que fugiam. Foi então que a multidão de bandidos foi expulsa [do átrio interno do Templo] pelos romanos, e com muito esforço conseguiu chegar ao átrio externo, e dali para a cidade. O restante do povo refugiou-se na galeria do átrio externo. Quanto aos sacerdotes, alguns arrancaram as pontas de ferro que ficavam sobre a casa sagrada, com suas bases de chumbo, e as atiraram contra os romanos no lugar de dardos. Como não conseguiram nada com isso, e como o fogo avançava sobre eles, recuaram para o muro, que tinha oito côvados de largura, e ali ficaram. Dois deles, homens de destaque, que poderiam ter se salvado passando para o lado dos romanos ou enfrentado a morte com coragem ao lado dos outros, lançaram-se ao fogo e foram queimados junto com a casa sagrada. Seus nomes eram Meiro, filho de Belgas, e José, filho de Daleu.
Os romanos, julgando que era inútil poupar o que ficava ao redor da casa sagrada, incendiaram todos aqueles lugares, inclusive os restos das galerias e os portões, com exceção de dois: um do lado leste e o outro do lado sul. Mesmo esses, no entanto, eles queimaram depois. Incendiaram também as câmaras do tesouro, onde havia uma quantidade imensa de dinheiro e um número imenso de vestes e outros bens preciosos ali guardados. Em poucas palavras, era ali que estava reunida toda a riqueza dos judeus, pois os ricos haviam construído para si câmaras [para guardar esses pertences]. Os soldados chegaram também às demais galerias do átrio externo [do] Templo, para onde tinham fugido mulheres, crianças e uma grande multidão variada do povo, em número de cerca de seis mil. Mas, antes que César tivesse decidido qualquer coisa a respeito dessas pessoas ou dado aos comandantes qualquer ordem sobre elas, os soldados estavam tão enfurecidos que atearam fogo àquela galeria. Com isso, aconteceu que alguns deles morreram lançando-se de cabeça de cima, e outros foram queimados dentro das próprias galerias. Nenhum deles escapou com vida. Um falso profeta foi a causa da destruição dessa gente. Naquele mesmo dia, ele havia proclamado publicamente na cidade que "Deus ordenava que subissem ao Templo, e que ali receberiam sinais milagrosos de sua libertação". Havia naquele tempo um grande número de falsos profetas, subornados pelos tiranos para enganar o povo, que anunciavam que esperassem a libertação vinda de Deus. Isso servia para impedi-los de desertar e para mantê-los acima do medo e da angústia por meio dessas esperanças. Um homem em meio à adversidade cede facilmente a tais promessas. Quando um sedutor o faz acreditar que será libertado das misérias que o oprimem, então o sofredor se enche de esperanças dessa libertação.
Foi assim que o povo miserável se deixou persuadir por esses enganadores, que mentiam até sobre o próprio Deus. Eles não prestavam atenção nem davam crédito aos sinais tão evidentes, que de modo tão claro prediziam a desolação que viria. Como homens cegos de juízo, sem olhos para ver nem mente para refletir, não deram importância aos avisos que Deus lhes fazia. Houve uma estrela parecida com uma espada, que ficou suspensa sobre a cidade, e um cometa que durou um ano inteiro. Antes da revolta dos judeus, e antes das agitações que precederam a guerra, quando o povo se reunia em grandes multidões para a festa dos pães sem fermento, no oitavo dia do mês de Xântico [Nisã], na nona hora da noite, brilhou ao redor do altar e da casa sagrada uma luz tão intensa que parecia ser dia claro. Essa luz durou meia hora. Para os ignorantes pareceu um bom sinal, mas os escribas sagrados a interpretaram como anúncio dos acontecimentos que vieram logo em seguida. Na mesma festa, uma novilha que era conduzida pelo sumo sacerdote para o sacrifício deu à luz um cordeiro no meio do Templo. Além disso, o portão leste do átrio interno [do] Templo, que era de bronze, pesadíssimo, e que vinte homens fechavam com dificuldade, que se apoiava sobre uma base reforçada com ferro e tinha trancas fixadas bem fundo no piso firme, feito de uma única pedra inteira, foi visto abrir-se sozinho por volta da sexta hora da noite. Os que faziam a guarda no Templo correram então até o capitão do Templo e contaram o ocorrido. Ele subiu até e, não sem grande dificuldade, conseguiu fechar o portão de novo. Para o povo comum, isso também pareceu um prodígio muito feliz, como se Deus assim lhes abrisse o portão da felicidade. Mas os homens instruídos entenderam que a segurança da casa sagrada se dissolvia por si mesma, e que o portão se abria em proveito dos inimigos. Por isso declararam publicamente que aquele sinal prenunciava a desolação que estava por vir. Além desses, poucos dias depois daquela festa, no vigésimo primeiro dia do mês de Artemísio [Iar], surgiu um fenômeno prodigioso e inacreditável. Imagino que o relato disso pareceria uma fábula se não fosse contado por quem o viu, e se os acontecimentos que se seguiram não fossem tão graves a ponto de merecer tais sinais. Antes do pôr do sol, viram-se carros de guerra e tropas de soldados armados correndo entre as nuvens e cercando cidades. E na festa que chamamos de Pentecostes, quando os sacerdotes entravam de noite no átrio interno [do] Templo, como era seu costume, para cumprir suas funções sagradas, contaram que primeiro sentiram um tremor e ouviram um grande ruído, e em seguida ouviram uma voz, como de uma multidão, dizendo: "Saiamos daqui". Mas o que é ainda mais terrível: havia um certo Jesus, filho de Ananias, um homem do povo e camponês, que, quatro anos antes do início da guerra, num momento em que a cidade vivia em grande paz e prosperidade, veio para aquela festa em que é nosso costume cada um erguer tendas a Deus no Templo, e de repente começou a gritar em voz alta: "Uma voz do oriente; uma voz do ocidente; uma voz dos quatro ventos; uma voz contra Jerusalém e a casa sagrada; uma voz contra os noivos e as noivas; e uma voz contra todo este povo". Esse era o seu grito, enquanto andava de dia e de noite por todos os becos da cidade. Alguns dos mais importantes do povo, indignados com esse grito sinistro, prenderam o homem e o açoitaram severamente. Mas ele não disse nada em sua defesa, nem dirigiu palavra alguma aos que o castigavam, e continuou repetindo as mesmas palavras de antes. Diante disso, nossas autoridades, supondo, como de fato se confirmou, que havia naquele homem uma espécie de fúria divina, levaram-no ao procurador romano. Ali ele foi açoitado até os ossos ficarem expostos. Mesmo assim não suplicou por si nem derramou lágrimas, mas, dando à voz o tom mais lamentoso possível, a cada golpe do açoite respondia: "Ai, ai de Jerusalém". Quando Albino (pois era ele então o nosso procurador) perguntou quem ele era, de onde vinha e por que dizia tais palavras, ele não deu resposta alguma ao que foi perguntado, mas não parou seu canto melancólico, até que Albino o considerou um louco e o soltou. Durante todo o tempo que antecedeu a guerra, esse homem não se aproximava de nenhum dos cidadãos, nem era visto por eles enquanto dizia aquilo. Mas todos os dias repetia aquelas palavras de lamento, como se fossem um voto premeditado: "Ai, ai de Jerusalém". Não respondia com palavras de ódio aos que o espancavam todos os dias, nem com palavras de gratidão aos que lhe davam comida. A todos respondia o mesmo, que não era senão um triste prenúncio do que estava por vir. Seu grito era mais forte nas festas. Ele continuou esse lamento por sete anos e cinco meses, sem ficar rouco nem se cansar dele, até o exato momento em que viu seu prenúncio de fato cumprido durante o nosso cerco, quando então cessou. Pois, enquanto percorria o muro, gritou com toda a força: "Ai, ai de novo da cidade, do povo e da casa sagrada". E logo que acrescentou por fim "Ai, ai também de mim", uma pedra disparada por uma das máquinas o atingiu e o matou na hora. E foi proferindo exatamente esses mesmos prenúncios que ele entregou o espírito.
Quem refletir sobre essas coisas verá que Deus cuida da humanidade e, por todos os meios possíveis, anuncia de antemão à nossa raça o que serve à sua preservação, mas que os homens perecem por causa das misérias que, de modo insensato e voluntário, trazem sobre si mesmos. Os judeus, ao demolirem a torre Antônia, deixaram o Templo com formato quadrado, sendo que estava escrito em seus oráculos sagrados que "a cidade e a casa sagrada seriam tomadas quando o Templo se tornasse quadrado". O que mais os animou a empreender essa guerra foi um oráculo ambíguo, também encontrado em seus escritos sagrados, segundo o qual "por aquela época, alguém vindo daquela terra se tornaria governante do mundo habitado". Os judeus tomaram essa predição como referente a eles em particular, e muitos dos sábios se enganaram em sua interpretação. Na verdade, esse oráculo apontava para o governo de Vespasiano, que foi proclamado imperador na Judeia. Mas não é possível aos homens escapar do destino, mesmo quando o veem de antemão. Esses homens interpretaram alguns desses sinais conforme lhes convinha, e a outros desprezaram por completo, até que sua loucura ficou provada tanto pela tomada da cidade quanto pela própria destruição.