A Guerra dos Judeus - Livro VI 8
Livro VI: a queda do Templo e a tomada de Jerusalém
Como César ergueu aterros ao redor da cidade alta [isto é, o monte Sião] e, quando estavam concluídos, deu ordem para que as máquinas fossem trazidas. Em seguida apoderou-se de toda a cidade.
Quando César percebeu que a cidade alta era tão íngreme que não havia como tomá-la sem erguer aterros contra ela, distribuiu as várias partes desse trabalho entre o seu exército. Isso aconteceu no vigésimo dia do mês de Lous [Ab]. O transporte dos materiais era tarefa difícil, pois todas as árvores que ficavam ao redor da cidade, num raio de cem estádios, já tinham tido seus galhos cortados, como já lhe contei, para construir os aterros anteriores. As obras a cargo das quatro legiões foram erguidas no lado oeste da cidade, em frente ao palácio real. Já todo o corpo das tropas auxiliares, com o restante da multidão que estava com elas, ergueu seus aterros no Xisto, de onde alcançavam a ponte e aquela torre de Simão, que ele havia construído como cidadela para si mesmo, contra João, enquanto guerreavam um contra o outro.
Foi nessa altura que os comandantes dos idumeus se reuniram em segredo e deliberaram sobre render-se aos romanos. Enviaram então cinco homens a Tito e lhe pediram que lhes desse a mão direita como garantia. Tito, achando que os tiranos cederiam caso os idumeus, dos quais dependia boa parte da guerra, fossem afastados deles, concordou após alguma relutância e demora. Garantiu a vida deles e mandou de volta os cinco homens. Mas, quando esses idumeus se preparavam para sair, Simão percebeu. Imediatamente matou os cinco homens que tinham ido até Tito e prendeu os comandantes deles, que ele lançou no cárcere. O mais notável entre eles era Jacó, filho de Sosas. Quanto à multidão dos idumeus, que não sabia o que fazer agora que seus comandantes lhes tinham sido tirados, Simão a manteve vigiada e reforçou os muros com uma guarnição mais numerosa. No entanto, essa guarnição não conseguia conter os que desertavam. Embora muitos deles fossem mortos, os desertores eram ainda mais numerosos. Todos esses eram recebidos pelos romanos, porque o próprio Tito ficou negligente quanto às suas ordens anteriores de matá-los, porque os próprios soldados se cansaram de matar e porque esperavam ganhar algum dinheiro poupando-os. Pois deixavam só a gente comum e vendiam o restante da multidão, com suas mulheres e filhos, cada um por um preço muito baixo, já que os que estavam à venda eram muitíssimos e os compradores, poucos. E embora Tito tivesse proclamado de antemão que nenhum desertor viesse sozinho, para que assim trouxessem consigo suas famílias, ele recebia também os que vinham assim. Mesmo assim, designou pessoas para separar uns dos outros, a fim de ver se algum deles merecia castigo. E o número dos que foram vendidos foi imenso. Mas, da gente comum, mais de quarenta mil foram salvos, e César deixou que cada um deles fosse para onde quisesse.
Foi também nessa ocasião que um dos sacerdotes, filho de Tebutos, chamado Jesus, depois de receber a garantia do juramento de César de que seria preservado, com a condição de entregar a ele certos objetos preciosos que estavam guardados no Templo, saiu de lá. Entregou-lhe, do muro da casa sagrada, dois candelabros semelhantes aos que ficavam na casa sagrada, junto com mesas, recipientes e taças, tudo feito de ouro maciço e muito pesado. Entregou-lhe também os véus e as vestes, com as pedras preciosas e grande número de outros utensílios valiosos que pertenciam ao culto sagrado. O tesoureiro do Templo, chamado Fineias, também foi capturado e mostrou a Tito as túnicas e os cintos dos sacerdotes, com grande quantidade de púrpura e de escarlate, que ali estavam guardados para os usos do véu, além de muita canela e cássia, com grande quantidade de outras especiarias aromáticas que costumavam ser misturadas e oferecidas como incenso a Deus todos os dias. Muitos outros tesouros também lhe foram entregues, com não poucos ornamentos sagrados do Templo. Essas coisas, assim entregues a Tito, obtiveram para esse homem o mesmo perdão que ele havia concedido aos que desertavam por vontade própria.
E então os aterros ficaram prontos no sétimo dia do mês de Gorpieu [Elul], em dezoito dias, quando os romanos levaram suas máquinas contra o muro. Quanto aos sediciosos, alguns deles, desesperados de salvar a cidade, recuaram do muro para a cidadela. Outros desceram para os subterrâneos, embora muitos ainda se defendessem contra os que traziam as máquinas para o ataque. Mas os romanos os venceram pelo número, pela força e, o que era o mais importante de tudo, por irem ao trabalho com ânimo, enquanto os judeus estavam totalmente abatidos e enfraquecidos. Assim que parte do muro foi derrubada e algumas das torres cederam ao impacto dos aríetes, os que resistiam fugiram. E um terror caiu sobre os tiranos, muito maior do que a situação exigia. Pois, antes mesmo de o inimigo passar pela brecha, ficaram atordoados e já queriam fugir. Dava para ver esses homens, até então tão insolentes e arrogantes em suas práticas perversas, abatidos e tremendo, a tal ponto que partia o coração observar a mudança ocorrida naquelas pessoas vis. Eles correram com grande violência contra o muro romano que os cercava, para expulsar os que o guardavam, romper por ele e escapar. Mas viram que os que antes lhes tinham sido fiéis haviam partido (de fato fugiram para onde a grande aflição em que estavam os levava a fugir). Além disso, os que vinham correndo à frente dos outros lhes diziam que o muro ocidental estava inteiramente derrubado, enquanto uns afirmavam que os romanos já tinham entrado e outros que estavam perto, à procura deles, o que era apenas fruto do medo, que enganava a vista deles. Caíram então por terra e lamentaram amargamente a própria conduta insensata. Os nervos deles afrouxaram de tal modo que não conseguiam fugir. E aqui se pode refletir, acima de tudo, sobre o poder de Deus exercido sobre esses miseráveis e sobre a boa sorte dos romanos. Pois esses tiranos agora se privaram por completo da segurança que tinham em suas próprias mãos e desceram por vontade própria daquelas torres em que jamais poderiam ter sido tomados pela força, nem de outro modo a não ser pela fome. E assim os romanos, depois de tanto esforço com muros mais fracos, obtiveram pela boa sorte o que jamais teriam obtido com suas máquinas. Pois três dessas torres eram fortes demais para qualquer máquina mecânica que fosse. A respeito delas tratamos acima.
Eles abandonaram então essas torres por conta própria, ou melhor, foram expulsos delas pelo próprio Deus, e fugiram imediatamente para aquele vale que ficava abaixo de Siloé. Ali se recuperaram por um momento do pavor em que estavam e correram com violência contra a parte do muro romano que ficava daquele lado. Mas, como a coragem deles estava abatida demais para atacar com força suficiente e o ânimo já estava quebrado pelo medo e pelo sofrimento, foram repelidos pelos guardas. Dispersando-se a distância uns dos outros, desceram para as cavernas subterrâneas. Os romanos, agora senhores dos muros, fincaram seus estandartes nas torres e fizeram alegres aclamações pela vitória conquistada, tendo achado o fim desta guerra muito mais leve do que o seu começo. Pois, quando alcançaram o último muro sem nenhum derramamento de sangue, mal podiam acreditar que o que encontravam era verdade. Como não viam ninguém para resistir a eles, ficaram em dúvida sobre o que aquela solidão incomum poderia significar. Mas, quando entraram em grande número pelas ruelas da cidade, de espadas em punho, mataram sem piedade os que alcançavam. Atearam fogo às casas para onde os judeus tinham fugido e queimaram nelas toda alma viva, e devastaram muitas das demais. Quando chegaram às casas para saqueá-las, encontraram nelas famílias inteiras de mortos e os cômodos de cima cheios de cadáveres, isto é, dos que morreram pela fome. Ficaram horrorizados diante daquela cena e saíram sem tocar em nada. Mas, embora tivessem essa compaixão pelos que morreram desse modo, não a tinham pelos que ainda estavam vivos. Traspassavam todos os que encontravam e bloqueavam as próprias ruelas com os corpos. Fizeram a cidade inteira escorrer sangue, a tal ponto que o fogo de muitas das casas foi apagado com o sangue desses homens. E aconteceu de fato que, embora os matadores parassem ao anoitecer, o fogo se alastrou muito durante a noite. E, enquanto tudo ardia, chegou sobre Jerusalém aquele oitavo dia do mês de Gorpieu [Elul]. Era uma cidade que havia padecido tantas desgraças durante este cerco que, se tivesse sempre desfrutado de tanta felicidade desde a sua fundação, certamente teria sido a inveja do mundo. E por nenhum outro motivo mereceu tanto essas duras desgraças quanto por gerar uma geração de homens que foram a causa de sua própria ruína.