A Guerra dos Judeus - Livro VI 1

Livro VI: a queda do Templo e a tomada de Jerusalém

Como as desgraças continuavam a piorar e como os romanos atacaram a torre Antônia.

Assim as desgraças de Jerusalém pioravam a cada dia. Os sediciosos ficavam ainda mais irritados com as calamidades que sofriam, mesmo enquanto a fome os devorava, depois de ter devorado o povo. E, de fato, a multidão de cadáveres amontoados uns sobre os outros era uma visão horrível e produzia um fedor pestilento, que atrapalhava os que queriam fazer investidas para fora da cidade e atacar o inimigo. Mas aqueles que iam marchar em formação de batalha estavam acostumados a dez mil assassinatos e tinham de pisar nos corpos enquanto avançavam. Por isso não se assustavam nem sentiam pena dos homens sobre quem caminhavam. Tampouco julgavam que esse ultraje aos mortos fosse mau presságio para si mesmos. Mas, com a mão direita manchada pelos assassinatos dos próprios compatriotas, corriam nessa condição para combater os estrangeiros. Para mim, eles pareciam lançar uma censura contra o próprio Deus, como se Ele fosse lento demais em castigá-los. Pois a guerra não era travada com qualquer esperança de vitória: eles se vangloriavam de modo brutal no próprio desespero de salvação em que se encontravam. E agora os romanos, embora muito atrapalhados em reunir seus materiais, ergueram suas plataformas de assédio em vinte e um dias, depois de cortarem todas as árvores da região vizinha à cidade, num raio de noventa estádios, como relatei. E, na verdade, a própria visão da região era algo melancólico. Pois aqueles lugares antes adornados de árvores e jardins agradáveis tinham se tornado uma terra desolada por toda parte, com todas as árvores derrubadas. Nenhum estrangeiro que tivesse visto antes a Judeia e os belíssimos arredores da cidade, e agora a visse como um deserto, deixaria de lamentar e chorar de tristeza diante de tamanha mudança. Pois a guerra arrasou por completo todos os sinais de beleza. Se alguém que conhecesse o lugar de antes chegasse a ele de repente agora, não o reconheceria. Mesmo estando na própria cidade, ainda perguntaria por ela.
E agora, terminadas as plataformas, elas davam motivo de medo tanto aos romanos quanto aos judeus. Pois os judeus esperavam que a cidade fosse tomada, a menos que conseguissem queimar aquelas plataformas, assim como os romanos esperavam que, uma vez queimadas, nunca mais conseguiriam tomá-la. Pois havia enorme escassez de materiais, e os corpos dos soldados começavam a falhar sob trabalhos tão duros, enquanto suas almas desfaleciam com tantos casos de fracasso. Aliás, as próprias calamidades dentro da cidade revelaram-se mais desencorajadoras para os romanos do que para os de dentro. Pois eles viam que os combatentes judeus não se abrandavam em meio a aflições tão severas, ao passo que eles próprios tinham esperanças de sucesso cada vez menores. Suas plataformas eram forçadas a ceder aos ardis do inimigo, suas máquinas à solidez da muralha, e seus combates mais cerrados à audácia dos ataques inimigos. E, o que era o maior desânimo de todos, viam que o ânimo corajoso dos judeus se sobrepunha à multidão de misérias que sofriam por causa da sedição, da fome e da própria guerra. A ponto de chegarem a imaginar que a violência daqueles ataques era invencível e que a disposição que os judeus mostravam não seria abatida pelas calamidades. Pois o que esses não seriam capazes de suportar se tivessem sorte, que transformavam até as próprias desgraças em estímulo para sua bravura! Tais considerações levaram os romanos a manter uma guarda mais forte em torno das plataformas do que antes.
Mas então João e seu grupo trataram de se proteger para o futuro, mesmo no caso de aquela muralha vir abaixo, e puseram-se a trabalhar antes que os aríetes fossem dirigidos contra eles. No entanto, não conseguiram o que tentavam: saíram com suas tochas e voltaram muito desencorajados, antes mesmo de chegar perto das plataformas. As razões foram estas. Em primeiro lugar, sua ação não parecia coordenada. Saíram em grupos separados, em intervalos distintos, de modo lento e temeroso e, em uma palavra, sem a coragem judaica. Pois agora faltava-lhes o que é próprio de nossa nação, ou seja, a ousadia, a violência do assalto, o avançar todos juntos contra o inimigo e a persistência no que empreendem, ainda que não tenham êxito de imediato. Mas dessa vez saíram de modo mais lânguido do que o habitual e, ao mesmo tempo, encontraram os romanos em formação e mais corajosos do que de costume, guardando suas plataformas com os corpos e com toda a sua armadura. E isso a tal ponto, em todos os flancos, que não deixaram espaço para o fogo penetrar entre elas. E a alma de cada um deles estava tão animada que prefeririam morrer a abandonar suas fileiras. Pois, além da convicção de que toda esperança estaria perdida caso aquelas obras fossem queimadas, os soldados sentiam grande vergonha de que a astúcia superasse a coragem, a loucura superasse a armadura, a multidão superasse a perícia, e os judeus superassem os romanos. Os romanos tinham agora outra vantagem: suas máquinas de assédio colaboravam lançando dardos e pedras contra os judeus à medida que estes saíam da cidade. Com isso, o homem que caía tornava-se obstáculo para o que estava ao seu lado, e o perigo de avançar mais os deixava menos empenhados em suas tentativas. Quanto aos que tinham corrido por baixo dos dardos, alguns ficaram aterrorizados com a boa ordem e a coesão das fileiras inimigas antes de chegar ao combate corpo a corpo, e outros foram feridos pelas lanças e recuaram. Por fim, censuraram uns aos outros pela covardia e se retiraram sem nada conseguir. Esse ataque foi feito no primeiro dia do mês de Pânemo [Tamuz]. Então, quando os judeus recuaram, os romanos trouxeram suas máquinas, embora durante todo o tempo recebessem pedras atiradas da torre Antônia e fossem atacados a fogo e espada e por todo tipo de dardo que a necessidade fornecia aos judeus para usar. Pois, embora estes confiassem muito em sua própria muralha e desprezassem as máquinas romanas, ainda assim tentavam impedir que os romanos as aproximassem. os romanos, ao contrário, esforçavam-se muito para aproximá-las, por julgarem que esse empenho dos judeus tinha o objetivo de evitar qualquer dano à torre Antônia, porque sua muralha era fraca e seus alicerces estavam podres. No entanto, aquela torre não cedeu aos golpes das máquinas. Mesmo assim, os romanos suportaram o impacto dos dardos inimigos, lançados sem parar contra eles, e não recuaram diante de nenhum dos perigos que vinham do alto. Assim conseguiram aproximar suas máquinas. Mas então, por estarem abaixo dos outros e gravemente feridos pelas pedras atiradas de cima, alguns deles ergueram os escudos sobre o corpo e, em parte com as mãos, em parte com o corpo e em parte com alavancas, escavaram os alicerces. Com grande esforço, removeram quatro de suas pedras. Então a noite caiu sobre os dois lados e pôs fim àquela luta por ora. No entanto, naquela noite a muralha ficou tão abalada pelos aríetes, no exato ponto onde João tinha usado antes seu ardil e escavado por baixo das plataformas romanas, que o terreno cedeu e a muralha desabou de repente.
Quando esse acidente aconteceu de modo inesperado, os dois lados reagiram de maneiras diferentes. Pois, embora se esperasse que os judeus ficassem desencorajados, por terem sido pegos de surpresa com a queda da muralha e não terem feito nenhuma provisão para esse caso, eles, mesmo assim, recobraram a coragem, porque a própria torre Antônia ainda estava de pé. Da mesma forma, a alegria inesperada dos romanos com a queda da muralha logo se apagou quando viram outra muralha que João e seu grupo tinham construído por dentro dela. No entanto, o ataque a essa segunda muralha parecia mais fácil que o à primeira, porque dava a impressão de ser mais simples subir até ela através das partes derrubadas da muralha anterior. Essa nova muralha também parecia bem mais fraca que a torre Antônia, e por isso os romanos imaginaram que tinha sido erguida tão às pressas que logo a derrubariam. Ainda assim, ninguém se arriscava agora a subir até ela, pois quem primeiro o tentasse certamente seria morto.
E então Tito, considerando que o ânimo dos soldados na guerra é estimulado principalmente pela esperança e pelas boas palavras, e que exortações e promessas muitas vezes fazem os homens esquecer os riscos que correm, e às vezes até desprezar a própria morte, reuniu a parte mais corajosa de seu exército e experimentou o que conseguiria com seus homens por esses meios. "Companheiros de armas", disse ele, "fazer uma exortação a homens para que façam algo sem perigo é, por isso mesmo, desonroso para aqueles a quem se dirige a exortação, e é também, em quem a faz, sinal da própria covardia. Por isso, penso que tais exortações devem ser usadas quando a situação é perigosa e, ainda assim, digna de ser enfrentada por todos. Por isso concordo plenamente com vocês: é tarefa difícil subir esta muralha. Mas que cabe aos que desejam reputação por sua bravura lutar com dificuldades em casos assim, isso ficará claro quando eu mostrar em particular que é coisa nobre morrer com glória e que a coragem aqui necessária não ficará sem recompensa para os que primeiro iniciarem a tentativa. E que meu primeiro argumento para movê-los a isso venha exatamente do que alguns talvez julgassem razoável usar para dissuadi-los, refiro-me à constância e à paciência destes judeus, mesmo em meio a seus fracassos. Pois não convém a vocês, que são romanos e meus soldados, treinados em tempo de paz para fazer guerras e acostumados a vencer nessas guerras, ser inferiores aos judeus, seja na ação da mão, seja na coragem da alma. E isso ainda mais quando estão no desfecho da vitória e são ajudados pelo próprio Deus. Pois, quanto às nossas adversidades, devem-se à loucura dos judeus, enquanto os sofrimentos deles se devem ao valor de vocês e à ajuda que Deus lhes deu. Pois, quanto às sedições em que viveram, à fome que padecem, ao assédio que agora suportam e à queda de suas muralhas sem nossas máquinas, o que pode ser tudo isso senão demonstração da ira de Deus contra eles e de Sua ajuda a nós? Não convém, portanto, que vocês se mostrem inferiores àqueles a quem são de fato superiores, nem que traiam essa ajuda divina que lhes é concedida. E, de fato, como não considerar coisa baixa e indigna que, enquanto os judeus, que não teriam muita vergonha de ser abandonados, pois muito aprenderam a ser escravos de outros, ainda assim desprezam a morte para deixar de sê-lo, e fazem investidas em pleno meio de nós com frequência, não na esperança de nos vencer, mas apenas como demonstração de sua coragem, nós, que conquistamos quase todo o mundo que pertence à terra ou ao mar, e para quem será grande vergonha não os vencermos, não empreendamos nem uma vez sequer qualquer ataque contra os inimigos em que haja muito perigo, mas fiquemos parados e ociosos, com armas tão valentes como as nossas, apenas esperando que a fome e a sorte façam o serviço por nós? E isso quando temos em nosso poder, com algum pequeno risco, conquistar tudo o que desejamos. Pois, se subirmos a esta torre Antônia, conquistamos a cidade. Pois, se ainda houver necessidade de combater contra os que estão dentro da cidade, o que não suponho que aconteça, que estaremos então no topo da colina e sobre os inimigos antes que eles possam recobrar o fôlego, essas vantagens nos prometem nada menos que uma vitória certa e rápida. Quanto a mim, por ora deixarei de lado qualquer elogio aos que morrem na guerra e não falarei da imortalidade dos homens que tombam em meio à sua bravura marcial. Mas não posso deixar de invocar sobre os de disposição contrária que morram em tempo de paz, por alguma doença qualquer, que suas almas estão condenadas ao túmulo junto com os corpos. Pois que homem de virtude que não saiba que as almas separadas do corpo de carne em batalha, pela espada, são recebidas pelo éter, o mais puro dos elementos, e unidas àquela companhia que está posta entre as estrelas? Que se tornam bons espíritos e heróis propícios, e assim se mostram à sua posteridade no futuro? Ao passo que sobre aquelas almas que definham com os corpos doentes desce uma noite subterrânea, para dissolvê-las em nada, e um profundo esquecimento, para apagar toda a lembrança delas. E isso ainda que estejam limpas de todas as manchas e impurezas deste mundo. De modo que, nesse caso, a alma chega ao mesmo tempo ao limite extremo da sua vida, do seu corpo e da sua memória. Mas, que o destino determinou que a morte deve necessariamente chegar a todos os homens, a espada é instrumento melhor para isso do que qualquer doença. Por que, então, não seria coisa muito mesquinha não entregarmos ao bem público aquilo que de qualquer modo teremos de entregar ao destino? E este discurso eu fiz supondo que aqueles que primeiro tentarem subir esta muralha serão certamente mortos na tentativa, embora ainda assim os homens de verdadeira coragem tenham a chance de escapar, mesmo nas empreitadas mais arriscadas. Pois, em primeiro lugar, a parte da muralha antiga que está derrubada é fácil de escalar, e a muralha recém-construída é fácil de destruir. Portanto, vocês, muitos de vocês, recobrem a coragem e ponham mãos a esta obra, e encorajem e ajudem uns aos outros, e essa bravura logo quebrará o ânimo de seus inimigos. E talvez uma empreitada tão gloriosa como a de vocês possa ser realizada sem derramamento de sangue. Pois, embora seja justo supor que os judeus tentarão impedi-los assim que começarem a subir até eles, uma vez que vocês se ocultem deles e os afastem pela força, eles não conseguirão mais sustentar os esforços de vocês contra eles, ainda que apenas alguns de vocês os contenham e transponham a muralha. Quanto àquele que primeiro escalar a muralha, eu coraria de vergonha se não o tornasse invejado pelos outros, pelas recompensas que lhe daria. Se ele escapar com vida, terá o comando de outros que hoje são apenas seus iguais, embora seja verdade também que as maiores recompensas caberão aos que morrerem na tentativa."
Diante desse discurso de Tito, o restante da multidão se assustou com perigo tão grande. Mas havia um homem chamado Sabino, soldado que servia entre as coortes, sírio de nascimento, que mostrou grande valentia tanto nas ações que realizara quanto na coragem de alma que demonstrara. Embora qualquer um, antes de vê-lo em ação, julgasse que ele era de constituição física tão frágil que não servia para soldado, pois sua cor era escura, e sua carne era magra, fina e colada ao corpo. Mas havia certa alma heroica habitando aquele corpo pequeno, corpo na verdade estreito demais para a coragem singular que havia nele. Por isso ele foi o primeiro a se levantar, e falou assim: "Eu me entrego prontamente a ti, ó César. Eu sou o primeiro a subir a muralha. E desejo de coração que a tua fortuna acompanhe a minha coragem e a minha resolução. E, se alguma sorte me negar o êxito da minha empreitada, fica sabendo que esse meu fracasso não será inesperado, mas que eu escolho a morte de bom grado, por amor a ti." Tendo dito isso, e tendo estendido o escudo sobre a cabeça com a mão esquerda, e sacado a espada com a mão direita, marchou até a muralha por volta da sexta hora do dia. Seguiram-no outros onze, não mais que isso, decididos a imitar sua bravura. Mas ele continuava sendo o principal de todos e ia na frente, como impelido por um furor divino. Os que guardavam a muralha atiravam contra eles de e lançavam dardos incontáveis de todos os lados. Também rolavam pedras enormes sobre eles, que derrubaram alguns dos onze que o acompanhavam. Mas, quanto ao próprio Sabino, ele enfrentou os dardos lançados contra si e, embora coberto por eles, não interrompeu a violência de seu assalto antes de chegar ao topo da muralha e pôr o inimigo em fuga. Pois, como os judeus ficaram pasmos com sua grande força e a bravura de sua alma, e como, além disso, imaginaram que mais homens tinham subido a muralha do que realmente acontecera, eles fugiram. E agora não se pode deixar de lamentar aqui a fortuna, sempre invejosa da virtude e sempre impedindo a realização de feitos gloriosos. Foi o que aconteceu com o homem que temos diante de nós, no momento em que tinha acabado de alcançar seu objetivo. Pois ele tropeçou em certa pedra grande e caiu sobre ela de cabeça, com enorme estrondo. Diante disso, os judeus voltaram atrás e, ao verem-no sozinho e também caído, atiraram dardos contra ele de todos os lados. No entanto, ele se ergueu sobre um joelho, cobriu-se com o escudo e a princípio se defendeu deles, ferindo muitos dos que se aproximavam. Mas logo foi forçado a afrouxar a mão direita, pela quantidade de ferimentos que recebera, até que por fim ficou totalmente coberto de dardos, antes de entregar o espírito. Era homem que, pela sua bravura, merecia melhor destino, mas, como era de esperar, tombou em empreitada tão imensa. Quanto aos demais companheiros, os judeus despedaçaram três deles com pedras e os mataram assim que chegaram ao topo da muralha. Os outros oito, feridos, foram puxados para baixo e levados de volta ao acampamento. Essas coisas aconteceram no terceiro dia do mês de Pânemo [Tamuz].
Dois dias depois, doze daqueles homens que estavam na linha de frente e vigiavam as plataformas se reuniram. Chamaram o porta-estandarte da quinta legião, mais dois outros de uma tropa de cavaleiros e um trombeteiro. Esses foram sem ruído, por volta da nona hora da noite, pelas ruínas, até a torre Antônia. E, depois de cortarem a garganta dos primeiros guardas do lugar, que dormiam, tomaram posse da muralha e ordenaram ao trombeteiro que tocasse a trombeta. Diante disso, o restante da guarda se levantou de repente e fugiu, antes que alguém pudesse ver quantos eram os que tinham subido. Pois, em parte pelo medo em que estavam, e em parte pelo som da trombeta que ouviram, imaginaram que um grande número de inimigos havia subido. Mas, assim que César ouviu o sinal, ordenou ao exército que vestisse a armadura de imediato. Chegou ali com seus comandantes e foi o primeiro de todos a subir, junto com os homens escolhidos que estavam com ele. E, enquanto os judeus fugiam em direção ao Templo, caíram naquela mina que João havia cavado sob as plataformas romanas. Então os sediciosos dos dois corpos do exército judeu, tanto o de João quanto o de Simão, os expulsaram, e não faltaram de modo algum no mais alto grau de força e disposição. Pois julgavam-se totalmente arruinados se os romanos uma vez entrassem no Templo, assim como os romanos viam essa mesma coisa como o início de sua conquista total. Então travou-se uma batalha terrível na entrada do Templo, enquanto os romanos forçavam passagem para tomar posse do Templo e os judeus os empurravam de volta para a torre Antônia. Nessa batalha, os dardos eram inúteis em ambos os lados, assim como as lanças. Os dois lados sacaram as espadas e combateram corpo a corpo. Durante essa luta, as posições dos homens não se distinguiam de um lado e de outro, e eles combatiam ao acaso, misturados uns aos outros e confundidos por causa do aperto do lugar. O barulho que se fazia chegava aos ouvidos de modo indistinto, porque era altíssimo. Houve então grande matança dos dois lados. Os combatentes pisavam nos corpos e nas armas dos mortos e os despedaçavam. Assim, para qualquer lado que a batalha pendesse, os que levavam vantagem incitavam uns aos outros a prosseguir, enquanto os que eram batidos lamentavam muito. Mas ainda assim não havia espaço para fuga nem para perseguição, apenas movimentos e recuos desordenados, enquanto os exércitos se misturavam um ao outro. Mas os que estavam nas primeiras fileiras tinham de matar ou ser mortos, sem nenhuma saída para escapar. Pois os que vinham atrás, dos dois lados, forçavam os da frente a avançar, sem deixar nenhum espaço entre os exércitos. Por fim, o ímpeto violento dos judeus superou a perícia dos romanos, e a batalha pendia inteiramente para esse lado. Pois o combate tinha durado desde a nona hora da noite até a sétima hora do dia. Os judeus avançavam em massa e tinham por motivo o perigo em que estava o Templo, enquanto os romanos não dispunham ali de mais que uma parte de seu exército. Pois as legiões nas quais os soldados desse lado confiavam ainda não tinham chegado até eles. Por isso, por ora, os romanos consideraram suficiente tomar posse da torre Antônia.
Mas havia um certo Juliano, centurião vindo da Bitínia, homem de grande reputação, a quem eu vira antes naquela guerra, e um dos de mais alta fama, tanto por sua perícia na guerra quanto por sua força física e pela coragem de sua alma. Esse homem, vendo os romanos cedendo terreno e em situação lamentável, pois ele estava ao lado de Tito na torre Antônia, saltou para fora e, sozinho, pôs em fuga os judeus, que eram vencedores, e os fez recuar até o canto do pátio interno do Templo. Diante dele a multidão fugia em massa, supondo que nem sua força nem seus ataques violentos pudessem ser de um simples mortal. Assim, ele se lançou pelo meio dos judeus, espalhados por toda parte, e matava os que alcançava. E, de fato, não havia visão que parecesse mais admirável aos olhos de César, ou mais terrível para os outros, do que essa. No entanto, ele próprio foi perseguido pelo destino, do qual não era possível que escapasse alguém que era apenas um homem mortal. Pois, como tinha as botas cheias de pregos grossos e afiados, assim como cada um dos outros soldados, ao correr sobre o piso do Templo, escorregou e caiu de costas, com enorme estrondo, por causa de sua armadura. Isso fez com que os que fugiam voltassem atrás. Diante disso, os romanos que estavam na torre Antônia soltaram um grande grito, com medo pelo homem. Mas os judeus o cercaram em massa e golpearam-no com suas lanças e espadas, de todos os lados. Ele recebeu muitos dos golpes dessas armas de ferro no escudo e tentou várias vezes se levantar, mas era derrubado pelos que o golpeavam. Ainda assim, deitado no chão, ele apunhalava muitos deles com a espada. E não foi morto logo, pois estava coberto pelo elmo e pela couraça em todas as partes do corpo onde poderia ser mortalmente ferido. Ele também encolheu o pescoço junto ao corpo, até que todos os seus outros membros foram despedaçados, e ninguém ousou vir defendê-lo. Então ele cedeu ao seu destino. César ficou profundamente abalado por causa desse homem de tamanha valentia, e ainda mais por ele ter sido morto à vista de tanta gente. Ele próprio queria ir em seu socorro, mas o lugar não lhe permitia, ao passo que os que poderiam ter feito isso estavam aterrorizados demais para tentar. Assim, depois que Juliano lutou longamente com a morte e deixou que poucos dos que lhe deram o golpe mortal saíssem ilesos, por fim teve a garganta cortada, embora não sem alguma dificuldade. Deixou atrás de si grande fama, não entre os romanos e o próprio César, mas também entre seus inimigos. Então os judeus apanharam seu corpo morto, puseram os romanos de novo em fuga e os encurralaram na torre Antônia. Os que mais se destacaram e combateram com mais ardor nessa batalha, do lado judeu, foram um tal de Alexas e Gifteu, do grupo de João, e, do grupo de Simão, Malaquias, Judas filho de Merto e Tiago filho de Sosas, o comandante dos idumeus. E, dos zelotes, dois irmãos, Simão e Judas, filhos de Jairo.