A Guerra dos Judeus - Livro VI 7

Livro VI: a queda do Templo e a tomada de Jerusalém

O que depois aconteceu aos rebeldes, quando já tinham causado muitos danos e sofrido muitas desgraças. E também como César se tornou senhor da cidade alta.

Os rebeldes então invadiram o palácio real, onde muita gente havia guardado seus bens, por ser ele tão fortificado, e expulsaram os romanos de lá. Mataram também todo o povo que havia se aglomerado dentro, cerca de oito mil e quatrocentas pessoas, e os saquearam de tudo o que tinham. Capturaram ainda dois romanos vivos: um era cavaleiro, o outro era soldado de infantaria. Degolaram o soldado de infantaria e logo o arrastaram pela cidade inteira, como se com esse único exemplo se vingassem de todo o exército romano. O cavaleiro, no entanto, disse que tinha algo a propor que poderia salvar a vida deles, e por isso foi levado diante de Simão. Mas, ao chegar ali, nada teve a dizer, e foi entregue a Ardalas, um de seus comandantes, para ser executado. Ardalas amarrou as mãos dele para trás, cobriu seus olhos com uma faixa e o levou para diante dos romanos, com a intenção de cortar-lhe a cabeça. O homem, no entanto, escapou da execução e fugiu para o lado dos romanos enquanto o carrasco judeu ainda sacava a espada. Quando ele estava a salvo entre os inimigos, Tito não quis condená-lo à morte. Mas, por considerá-lo indigno de continuar sendo soldado romano, que tinha sido capturado vivo pelo inimigo, tirou-lhe as armas e o expulsou da legião a que pertencia. Para alguém com senso de honra, essa pena era mais dura que a própria morte.
No dia seguinte, os romanos expulsaram os bandidos da cidade baixa e atearam fogo a tudo até Siloé. Os soldados de fato se alegraram ao ver a cidade destruída, mas perderam o butim, pois os rebeldes haviam levado todos os seus bens e se recolhido à cidade alta. Eles ainda não se arrependiam dos males que tinham feito. Pelo contrário, mostravam-se insolentes, como se tivessem agido bem. Ao verem a cidade em chamas, pareciam alegres e exibiam rostos contentes, na expectativa, segundo diziam, de que a morte poria fim às suas misérias. Com o povo morto, o santuário incendiado e a cidade em chamas, nada mais restava ao inimigo para fazer. Mesmo assim, Josefo não se cansou, naquele extremo, de implorar que poupassem o que sobrava da cidade. Falou-lhes longamente sobre a barbárie e a impiedade deles e os aconselhou sobre como escapar. Mas nada conseguiu com isso, a não ser ser ridicularizado por eles. Não podiam pensar em se render, por causa do juramento que tinham feito, nem eram fortes o bastante para enfrentar os romanos em campo aberto, cercados por todos os lados e como uma espécie de prisioneiros. Ainda assim, estavam tão habituados a matar que não conseguiam conter as próprias mãos. Por isso se espalharam diante da cidade e se emboscaram entre as ruínas, para apanhar os que tentavam desertar para os romanos. Muitos desses desertores foram capturados por eles e todos foram mortos, pois estavam fracos demais, por falta de alimento, para conseguir fugir. Seus cadáveres eram lançados aos cães. Qualquer outra forma de morte parecia mais suportável que a fome. A tal ponto que, embora os judeus não esperassem misericórdia, mesmo assim fugiam para os romanos, e por vontade própria caíam nas mãos dos rebeldes assassinos. Não havia lugar na cidade que não tivesse cadáveres. Tudo estava coberto de corpos dos que haviam morrido, fosse pela fome, fosse pela rebelião, e tudo estava repleto de mortos que pereceram naquela revolta ou naquela fome.
A última esperança que sustentava os tiranos e o bando de bandidos que estava com eles estava nas grutas e cavernas subterrâneas. Pensavam que, se conseguissem se refugiar ali, ninguém os procuraria, e tentavam fazer com que, depois que a cidade toda fosse destruída e os romanos se fossem, eles pudessem sair de novo e escapar. Isso não passava de um sonho. Eles não conseguiriam se esconder nem de Deus nem dos romanos. Mesmo assim confiavam nesses esconderijos subterrâneos e incendiavam mais lugares do que os próprios romanos. Os que fugiam de suas casas em chamas para os fossos eram mortos sem piedade e também saqueados. Se descobriam comida com alguém, apoderavam-se dela e a devoravam ainda junto com o sangue. A esse ponto chegaram, que lutavam uns com os outros pelo saque. E não posso deixar de pensar que, se a destruição não os tivesse impedido, a barbárie deles os teria levado a provar até dos próprios cadáveres.