A Guerra dos Judeus - Livro VI 9
Livro VI: a queda do Templo e a tomada de Jerusalém
As ordens que César deu ao entrar na cidade. O número dos cativos e dos que pereceram no cerco. Também a respeito dos que tinham escapado para as cavernas subterrâneas, entre os quais estavam os próprios tiranos, Simão e João.
Quando Tito entrou nesta cidade alta, ficou impressionado não só com alguns de seus outros pontos fortificados, mas em especial com aquelas torres robustas que os tiranos, em sua conduta insensata, haviam abandonado. Ao ver a altura maciça delas, o tamanho de cada uma de suas pedras e a precisão das juntas, além de quão grande era a largura e quão extensa a altura, ele se expressou da seguinte maneira: "Sem dúvida tivemos a Deus como aliado nesta guerra. Foi Deus, e ninguém mais, quem expulsou os judeus destas fortificações. O que poderiam as mãos dos homens, ou quaisquer máquinas, fazer para derrubar estas torres?" Naquele momento ele teve muitas conversas semelhantes com seus amigos. Mandou também libertar aqueles que os tiranos haviam aprisionado e deixado nas prisões. Por fim, ao demolir por completo o resto da cidade e derrubar suas muralhas, deixou estas torres como monumento de sua boa fortuna, que tinha sido sua aliada e lhe permitira tomar o que de outro modo ele não teria conseguido tomar.
E agora, como seus soldados já estavam bastante cansados de matar homens, embora ainda parecesse haver uma vasta multidão com vida, César deu ordens para que não matassem ninguém, exceto aqueles que estavam em armas e os enfrentavam, e que tomassem os demais vivos. Mas, junto com aqueles que tinham ordem de matar, mataram também os idosos e os enfermos. Quanto aos que estavam na flor da idade e que poderiam lhes ser úteis, eles os reuniram no templo e os trancaram dentro das muralhas do átrio das mulheres. César pôs sobre eles um de seus libertos, e também Fronto, um de seus próprios amigos. Cabia a este último decidir o destino de cada um conforme seus méritos. Assim, esse Fronto matou todos os que tinham sido sediciosos e ladrões, denunciados uns pelos outros. Mas dentre os jovens escolheu os mais altos e os mais belos, e os reservou para o triunfo. Quanto ao restante da multidão, os que tinham mais de dezessete anos, ele os acorrentou e enviou às minas do Egito. Tito também enviou um grande número às províncias, como presente, para que fossem mortos em seus teatros, pela espada e pelas feras. Já os que tinham menos de dezessete anos foram vendidos como escravos. Nos dias em que Fronto separava esses homens, onze mil morreram por falta de alimento. Alguns deles não provaram nenhuma comida, por causa do ódio que seus guardas tinham por eles, e outros se recusavam a comer quando lhes ofereciam. A multidão também era tão grande que faltava até trigo para sustentá-los.
O número dos que foram levados cativos durante toda esta guerra somou noventa e sete mil. E o número dos que pereceram durante todo o cerco foi de um milhão e cem mil. A maior parte deles era, de fato, da mesma nação [que os habitantes de Jerusalém], mas não pertencia à própria cidade. Tinham subido de todo o país para a festa dos pães asmos e foram de repente cercados por um exército, o que, logo de início, provocou entre eles tamanha aflição que veio sobre eles uma destruição como peste, e pouco depois uma fome que os destruiu de modo ainda mais rápido. Que esta cidade podia conter tantas pessoas, fica claro pelo número que foi registrado sob Cestio. Querendo informar Nero sobre o poder da cidade, já que o imperador estava inclinado a desprezar aquela nação, Cestio pediu aos sumos sacerdotes que, se fosse possível, fizessem a contagem de toda a multidão. Então esses sumos sacerdotes, na chegada da festa chamada Páscoa, quando imolam seus sacrifícios da hora nona até a undécima, sendo que a cada sacrifício pertence um grupo de não menos de dez pessoas (pois não lhes é permitido celebrar a festa sozinhos), e muitos de nós somos vinte por grupo, contaram os sacrifícios. O número de sacrifícios foi de duzentos e cinquenta e seis mil e quinhentos, o que, contando apenas dez que celebram juntos, resulta em dois milhões setecentos mil e duzentas pessoas puras e santas. Pois quanto aos que têm lepra, ou gonorreia, ou às mulheres em seu período menstrual, ou outros de algum modo impuros, não lhes é permitido participar deste sacrifício. Nem tampouco aos estrangeiros que vêm aqui para adorar.
Essa vasta multidão era, de fato, reunida de lugares distantes. Mas a nação inteira estava agora trancada pelo destino, como numa prisão, e o exército romano cercou a cidade quando ela estava abarrotada de gente. Por isso, a multidão dos que ali pereceram superou todas as destruições que homens ou Deus jamais trouxeram sobre o mundo. Pois, para falar apenas do que era publicamente conhecido, os romanos mataram alguns deles, levaram outros cativos e a outros foram procurar debaixo da terra. Quando descobriam onde estavam, rompiam o solo e matavam todos os que encontravam. Foram achados ali também mais de dois mil mortos, parte pelas próprias mãos, parte uns pelos outros, mas a maioria destruída pela fome. O mau cheiro dos cadáveres era extremamente repugnante para os que tropeçavam neles. A tal ponto que alguns eram obrigados a sair dali de imediato, enquanto outros eram tão ávidos de lucro que entravam por entre os cadáveres amontoados e os pisoteavam. Pois muito tesouro foi achado nessas cavernas, e a esperança de ganho fazia parecer lícita qualquer forma de obtê-lo. Muitos também dos que tinham sido aprisionados pelos tiranos foram agora trazidos para fora, pois eles não abandonaram sua crueldade bárbara nem mesmo no fim. Mas Deus se vingou de ambos de modo condizente com a justiça. Quanto a João, ele passou fome junto com seus irmãos nessas cavernas e implorou que os romanos lhe dessem a mão direita em garantia de segurança, a mesma que muitas vezes, com soberba, ele havia rejeitado antes. Já Simão lutou duramente contra a aflição em que se encontrava, até ser forçado a se render, como relataremos adiante. Assim ele foi reservado para o triunfo e para ser morto então. João, por sua vez, foi condenado à prisão perpétua. E agora os romanos atearam fogo às partes extremas da cidade, queimaram-nas até o chão e demoliram por completo suas muralhas.