Capítulos
Antiguidades Judaicas - Livro XX
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.
O Livro XX na Obra
O Livro XX é o último da obra. Cobre o período dos procuradores romanos da Judeia, mais ou menos do fim do reinado de Cláudio até o estouro da guerra sob Nero, em 66 d.C. Não tem mais texto bíblico para parafrasear: aqui Josefo narra eventos próximos ao seu próprio tempo. Acompanha a conversão da casa real de Adiabene ao judaísmo, a sucessão de procuradores como Félix, Festo, Albino e Floro, a multiplicação de bandidos e falsos profetas, a morte de Tiago por ordem do sumo sacerdote Anano, uma lista dos sumos sacerdotes e a deterioração que leva à revolta. O livro termina com uma nota do autor sobre si mesmo, que prepara a passagem para a autobiografia (a Vida) e para a Guerra dos Judeus.
Conteúdo do Livro
- Uma sedição dos habitantes de Filadélfia contra os judeus e a disputa em torno da guarda das vestes do sumo sacerdote, decidida pelo imperador Cláudio em favor dos judeus — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 1)
- Como a rainha Helena de Adiabene e seu filho Izates adotaram a religião judaica, e como Helena socorreu Jerusalém com trigo durante uma grande fome (fome essa também mencionada em At 11:28) — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 2)
- Como Artábano, rei da Pártia, refugiou-se junto a Izates e foi por ele reconduzido ao trono, e como Bardanes, filho de Artábano, declarou guerra a Izates — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 3)
- Como Izates foi traído pelos próprios súditos e atacado pelos árabes, e como, segundo Josefo, escapou pela providência de Deus — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 4)
- O caso de Teudas e a execução dos filhos de Judas, o galileu, e a desordem com mortes ocorrida em Jerusalém no dia da Páscoa (Teudas e Judas, o galileu, são citados juntos no discurso de Gamaliel em At 5:36-37) — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 5)
- O conflito entre judeus e samaritanos a respeito de um assassinato de peregrinos galileus, e como Cláudio interveio para encerrar a disputa — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 6)
- A nomeação de Félix como procurador da Judeia e as notícias sobre Agripa II e suas irmãs Berenice e Drusila (Félix, Drusila, Agripa e Berenice aparecem no julgamento de Paulo em At 24 a 26) — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 7)
- A morte de Cláudio e a sucessão de Nero, com suas atrocidades, e os bandidos, assassinos e impostores que surgiram sob os procuradores Félix e Festo, entre eles o egípcio que reuniu seguidores no monte das Oliveiras (o mesmo egípcio referido em At 21:38) — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 8)
- O período de Albino, durante cuja viagem para assumir o cargo o sumo sacerdote Anano reuniu o Sinédrio e mandou apedrejar Tiago, e as construções erguidas por Agripa — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 9)
- Uma enumeração dos sumos sacerdotes, da origem do ofício até o tempo de Josefo — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 10)
- O procurador Floro, cuja conduta levou os judeus a pegar em armas contra Roma, e a conclusão da obra, com a nota autobiográfica de Josefo — (Antiguidades Judaicas - Livro XX 11)
Conflitos sob os primeiros procuradores
A conversão da casa real de Adiabene
Agitação, profetas e impostores na Judeia
Os procuradores e a casa de Agripa
Sumos sacerdotes e o caminho para a guerra
A Menção a Tiago e a Jesus
No capítulo 9, Josefo registra que, na lacuna entre a morte do procurador Festo e a chegada de Albino, o sumo sacerdote Anano reuniu o Sinédrio e mandou apedrejar "o irmão de Jesus, chamado Cristo, cujo nome era Tiago", com outros, sob acusação de transgredir a Lei. O episódio costuma ser datado por volta de 62 d.C. A grande maioria dos estudiosos considera esta passagem autêntica: ela aparece em todos os manuscritos e a menção a Jesus é breve e incidental, sem o tom cristão da passagem mais longa e disputada do Livro XVIII (o chamado Testimonium Flavianum). Há divergência menor: alguns críticos, como Tessa Rajak, notam que o retrato negativo de Anano aqui contrasta com a imagem positiva dele na Guerra dos Judeus. O Tiago em questão é em geral identificado com Tiago, "o irmão do Senhor", líder da igreja de Jerusalém citado em At 15, Gl 1:19 e Gl 2:9.
Fontes e Método
Sem texto bíblico para seguir, Josefo trabalha aqui com material mais próximo e variado: tradições sobre a casa de Adiabene, registros e memórias do período herodiano e dos procuradores, e sua própria experiência como contemporâneo dos fatos. O relato sobre Helena e Izates de Adiabene não tem paralelo bíblico e é a principal fonte antiga sobre essa conversão. O fio condutor do livro é o acúmulo de tensões, bandidos, impostores e abusos de governadores, que Josefo apresenta como as causas próximas da guerra que narrará em outra obra.
Paralelos com o Novo Testamento
O Livro XX é um dos pontos de maior contato entre Josefo e o Novo Testamento. Teudas e Judas, o galileu, são os dois agitadores citados no discurso de Gamaliel em At 5:36-37, ainda que Josefo e Lucas os ordenem de modo diferente no tempo. O egípcio que reuniu seguidores e foi disperso por Félix é provavelmente o mesmo a quem At 21:38 compara Paulo. Os procuradores Félix e Festo, e os membros da casa real Agripa II, Berenice e Drusila, aparecem nos capítulos de At 24 a 26, que narram a prisão e os julgamentos de Paulo. A fome no tempo de Cláudio, socorrida por Helena de Adiabene, é a mesma situação aludida em At 11:28.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.
Valor Histórico e Cautelas
Para o período dos procuradores, Josefo deixa de reescrever a Bíblia e passa a ser fonte primária. Esse é o seu maior valor: muito do que se sabe sobre a Judeia romana da geração que precede a guerra vem deste livro. As cautelas são outras que as dos livros anteriores. Josefo escreve a partir de uma posição comprometida, ligado à casa Flaviana, e tem interesse em atribuir a guerra a maus governadores e a agitadores, poupando o povo e a si mesmo. Datas e a ordem de alguns eventos nem sempre batem com outras fontes. Ainda assim, a passagem sobre Tiago e o conjunto de paralelos com Atos fazem deste o livro de Josefo de maior peso para a história do início do cristianismo e do judaísmo da véspera da revolta.