Antiguidades Judaicas - Livro XX 11

Livro XX: os procuradores, Adiabene e a véspera da guerra

Sobre o procurador Floro, que obrigou os judeus a pegar em armas contra os romanos. A conclusão.

Géssio Floro, enviado por Nero como sucessor de Albino, encheu a Judeia de toda sorte de desgraças. Era natural da cidade de Clazômenas e trouxe consigo a esposa, Cleópatra, tão perversa quanto ele. Foi pela amizade dela com Popeia, esposa de Nero, que ele conseguiu esse governo. Floro era tão perverso e tão violento no exercício da autoridade que os judeus passaram a ver Albino como tendo sido, em comparação, um benfeitor: tamanhos foram os males que ele lhes trouxe. Albino escondia a própria maldade e tomava cuidado para que ela não fosse descoberta por todos. Géssio Floro, como se tivesse sido enviado de propósito para exibir os próprios crimes diante de cada pessoa, ostentava-os com pompa diante da nossa nação, sem deixar passar nenhum tipo de violência nem nenhuma forma injusta de punição. Não havia compaixão que o demovesse, e nunca se contentava com qualquer ganho que lhe surgisse pela frente. Tampouco dava mais atenção a grandes do que a pequenos lucros, e chegou a se associar aos próprios ladrões. Muitos passaram então a essa prática sem temor, tendo-o como garantia e contando com ele para protegê-los nos roubos que cometiam. Assim não havia limite para as desgraças da nação, e os judeus infelizes, incapazes de suportar as devastações que os ladrões faziam entre eles, viram-se todos forçados a deixar as próprias casas e a fugir, na esperança de viver mais facilmente em qualquer outro lugar do mundo, entre estrangeiros, [do que em seu próprio país]. E o que mais preciso dizer sobre isso? Foi esse Floro que nos obrigou a pegar em armas contra os romanos, pois julgamos melhor ser destruídos de uma vez do que aos poucos. Essa guerra começou no segundo ano do governo de Floro e no décimo segundo ano do reinado de Nero. Quais ações fomos forçados a praticar e quais sofrimentos tivemos de suportar, isso pode ser conhecido com exatidão por quem ler os livros que escrevi sobre a guerra judaica.
Encerro aqui, portanto, minhas Antiguidades. Depois de concluídos esses acontecimentos, comecei a escrever aquele relato da guerra. Estas Antiguidades contêm o que nos foi transmitido desde a criação original do homem até o décimo segundo ano do reinado de Nero, tanto o que aconteceu a nós, judeus, no Egito, na Síria e na Palestina, quanto o que sofremos dos assírios e dos babilônios, e as aflições que os persas, os macedônios e, depois deles, os romanos nos impuseram. Creio poder dizer que compus esta história com suficiente exatidão em tudo. Procurei enumerar os sumos sacerdotes que tivemos ao longo de dois mil anos. Acompanhei também a sucessão dos nossos reis e relatei suas ações e sua administração política sem erros [significativos], assim como o poder dos nossos monarcas, tudo conforme está escrito em nossos livros sagrados. Foi isso que prometi fazer no começo desta história. E ouso dizer que, agora que concluí por completo a obra que me propus, nenhuma outra pessoa, judia ou estrangeira, por maior que fosse sua disposição, poderia transmitir esses relatos aos gregos com a exatidão que nestes livros. Os de minha própria nação reconhecem livremente que eu os supero de longe no saber próprio dos judeus. Empenhei-me também bastante em adquirir o saber dos gregos e compreendo os elementos da língua grega, embora tanto tempo esteja acostumado a falar nosso próprio idioma que não consigo pronunciar o grego com exatidão suficiente. Nossa nação não estimula quem aprende as línguas de muitos povos e enfeita o discurso com a fluidez das frases, porque considera esse tipo de habilidade algo comum não a todos os homens livres, mas também a quantos escravos quiserem aprendê-las. Mas dão o testemunho de ser homem sábio àquele que conhece plenamente nossas leis e é capaz de interpretar seu sentido. Por isso, embora muitos tenham se esforçado, com grande paciência, para obter esse saber, dificilmente houve dois ou três que tiveram sucesso nisso, e esses logo foram bem recompensados pelo empenho.
Talvez não seja odioso eu tratar brevemente da minha própria família e das ações da minha própria vida, enquanto ainda vivem pessoas capazes de provar que o que digo é falso ou de atestar que é verdadeiro. Com esses relatos darei fim a estas Antiguidades, que estão contidas em vinte livros e sessenta mil versos. E, se Deus me permitir, percorrerei de novo brevemente esta guerra, com o que nela nos aconteceu, até o dia de hoje, que é o décimo terceiro ano do reinado de César Domiciano e o quinquagésimo sexto ano da minha própria vida. Tenho também a intenção de escrever três livros sobre nossas opiniões judaicas a respeito de Deus e de sua essência, e sobre nossas leis: por que, segundo elas, algumas coisas nos são permitidas e outras proibidas.